O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
INTRODUÇÃO / A ORIGEM DOS GNOMOS /
Reconhece-se o a.D. 1200, o ano em que
o sueco Frederik Ugarph encontrou uma estátua de madeira, muito
bem conservada, na casa de um pescador na cidade de Nidaros
(atualmente Trondheim), Noruega. A estátua de 15 cm de altura, sem
contar o pedestal, trazia gravadas as seguintes palavras: / NISSE Riktig
Storrelse / que significa: "Gnomo, estatura real". / A estátua estava em poder da família do pescador há muitos anos e Ugarph encontrou muita dificuldade
ao tentar comprá-la, o que somente ocorreu após muitos dias de negociações. A estátua pertence agora à coleção da família Oliv, em Uppsala.
Exames radiográficos vieram a comprovar que a estátua tem mais de 2.000
anos e que deve ter sido entalhada na raiz de uma árvore já extinta, cuja
madeira é incrivelmente resistente. Segundo consta, a inscrição no pedestal
foi feita muitos séculos após a estátua ter sido esculpida. A descoberta dessa estátua serve para ilustrar aquilo que os gnomos sempre afirmaram: que
suas origens são escandinavas. / Os gnomos, certamente são criaturas da noite e por essa razão tivemos que conducir nossas investigações na
escuridão quase completa. Se tivéssemos permanecido absolutamente fiéis
às nossas observações, muitas das ilustrações deste livro teriam sido
pintadas em azul cinza escuro. Para superar essa dificuldade e fornecer
uma idéia precisa da vida dos gnomos, todas as ilustrações foram feitas
na suposição de que pequeninos seres estavam sendo observados sob a luz do dia. / Rien Poortbliet e Wil Huygen
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
A LUA-DE-MEL /
A lua-de-mel dos gnomos é geralmente planejada
com bastante antecedência, quando são contratados
para o tranporte, animais ou aves em quem os gnomos
depositam total confiança. Como por exemplo os gansos
selvagens, os cisnes, as cegonhas, raposas, lontras e lobos
(quando se trata de gnomos siberianos).
OS GOBLINS / Os goblins crescem até 30 cm e vestem-se
sempre com roupas pretas, combinando com o chapéu preto.
São reconhecidamente maus e não estão nenhum pouco preocupados
com isso. Sempre que alguém morre, não perdem a chance de comparecer
ao velório, simplesmente para poder assustar a familia. Gostam muito
de ouro e de prata, por isso, estão sempre a perseguir os gnomos para
roubar os seus preciosos metais. Sempre carregam consigo uma pá (com certeza para escavar as minas alheias) e moram no fundo das florestas, onde costumam praticar todo o tipo de maldades contra seus habitantes.
OS ULDRAS / essas criaturas subterrâneas são encontradas
apenas na Lapônia. Parecem-se com os gnomos, apenas
são um pouco maiores e bastante pálidos. Vivem em grandes grupos
familiares ou em tribos e exercem enorme autoridade sobre
os animais de grande porte, tais como o urso, o lobo, o alce
e a rena, que os obedecem cegamente. São bastante cordiais
e absolutamente cegos quando expostos à luz. Se maltratados
pelos humanos, vingam-se provocando desordens e desastres.
Seu método mais brutal consiste em desparramar pó venenoso
no pasto das renas, causando um grande número de morte entre
os animais e tirando dos pastores da Lapônia sua maior fonte de renda.
ALGUNS EXEMPLOS DE "PRIMEIROS SOCORROS"
PRESTADOS PELOS GNOMOS: Quando dois gamos engancham os chifres durante uma luta, ou seja, sempre que seus galhos ficam emaranhados de tal forma e não querem se soltar (em virtude principalmente de protuberâncias e formas incomuns), o gnomo liberta-os com um serrote, e os pobrezinhos dos gamos, depois de tanto tempo presos e com muita fome, fazem as pazes e seguem seus caminhos. Ah, é bom esclarecer que os chifres são duros e insensíveis, portanto, a operação é absolutamente indolor.
O MUFLÃO / é uma cabra selvagem originária da Sardenha
e da Córcega, regiões rochosas e de pouca vegetação. Nos
pântanos que agora habitam, os cascos de suas patas não
crescem de maneira como deveríam, tomando a forma de
chinelos persas, favorecendo os escorregões e as quedas;
para evitar tais acidentes, os gnomos serram e lixam os cascos
das patas de seus amigos sempre que necessário.
O COURO /A pele utilizada é obtida dos ratos,
esquilos, coelhos ou outros animais que tenham tido
morte acidental, como por exemplo os atropelados
por veículos nas estradas ou morreram de frio ou
por ingestão de pesticidas, ou mesmo por brigas.
O couro também é usado na feitura de calças, bolsinhas
para ferramentas ou fumo, botas, cintos e às vezes, até
para dobradizas.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
domingo, 14 de fevereiro de 2010
O estilo das casas dos gnomos varia conforme o local
onde são construídas. / Os gnomos da floresta e do jardim
contumam morar sob antigas e grandes árvores. O gnomo
do deserto europeu prefere as tocas de coelho desocupadas
ao instala-se sob as raízes secas de algum pinheiro. Quando
as tempestades de areia carregam o telhado de suas casas,
tratam logo de consertá-lo com láminas de pinha. / Antigamente,
quando a quantidade de água subterrânea no deserto era maior,
os pinheiros davam pinhas bem maiores, cujas láminas produziam
telhas exelentes. / Infelizmente, esse pinheiro está quase extinto.
Mas existe o caso de um gnomo que perdeu a vida
nas mãos de trol-gorgolão. O monstrengo colocou-o
dentro de uma calandra, triturando-o até a morte. Essas
terríveis criaturas sentem um prazer diabólico quando
descobrem a casa de algum gnomo. Sabem o que fazem?
Deitam-se sobre a entrada da casa e começam a soprar
com tanta força até destruí-la completamente. Os gnomos,
felizmente, conseguem escapar pela saída de emergência,
mas perdem muitos anos refazendo suas vidas em outro lugar.
Conseguem prever um vendaval
tão bem quanto os animais. Essa habilidade lhes é particularmente
útil, uma vez que sem esse conhecimento estariam fadados à morte. /
Também podem prever quando irá nevar. Isso é necessário pois
utilizam-se dos buracos e das entradas subterrâneas para ter acesso às
suas casas, e, caso esses buracos sejam obstruídos pela neve, precisam
estar prevenidos e providenciar outras alternativas. (Já mencionamos
anteriormente que os gnomos utilizam-se de esquis para cobrir longas
distâncias depois de uma nevasca.) / Nas montanhas, os gnomos podem
prever as avalanches tão bem quanto os gamos, as raposas e os antílopes.
A pesar de haver uma grande diferença entre
os nossos conceitos de progresso", disse Tomte
na noite seguinte, desta vez sentado numa cadeirinha
de boneca que le havíamos trazido, com o livro no colo,
"saibam que, mesmo à distância, nós os acompanhamos.
Vejam, por exemplo a história de Rembrandt van Rijn.
Meu irmão, Olie, conhecia-o muito bem, pois morava
sob um pé de laranja lima, bem pertinho de sua casa,
ao lado de um canal, em Amsterdam. Olie costumava
passar horas a fio, num cantinho do estúdio, desenhando
ao lado do mestre. / "Quantas vezes Olie balançou a cabeça,
sem conseguir compreender a ignorância e as limitações
das pessoas que encomendavam pinturas ao grande artista.
Doía-lhe a alma ver a quantidade de abusos e maltratos que
Rembrandt sofría, como também a falta de dinheiro e a vida
miserável que teve que suportar até a morte. Olie assistiu
A Ronda da Noite ser composta e executada, pincelada
por pincelada, obra-prima que atualmente é admirada por
puro acaso. Desconsolado e balançando a cabeça, seu coração
quase rompeu-se de dor, ao ver o quadro serrado brutalmente
para que pudesse passar pela porta da prefeitura, para onde foi
enviado após a morte do artista.
Jamais conseguiremos entender coisas desse tipo", e
abriu o livro novamente. / "O que vocês fizeram às plantas
e aos animais está também, além da imaginação. È certo,
contudo, que as mudanças do clima contribuiram bastante
para o desaparecimento de alguns espécimes de animais,
como o gamo, o urso marrom ou o lobo, nas regiões nórdicas.
Mas o exterminio do castor é algo imperdoável. O último
castor foi abatido em 1827, em Zalk, perto de Zuider Zee,
quando então perdemos um ente querido, com quem sempre
mantivemos excelentes relações de amizade e que
voluntariamente nos presenteava com uma gordura especial.
Se vocês não derem fim à matança de animais e ao tráfico
de drogas, não será a mudança do clima, ou mera coincidência,
a devastação de todas as espécies animais. / Não mesmo.
Sabemos que tudo isso abalou
profundamente o equilíbrio da natureza e que teremos muitos
anos de trabalho pela frente, na tentativa de restaurá-lo. Sem
mencionar os danos causados à nossa própria espécie em
conseqüência das drogas que vocês fabricam. Acho que nem
preciso dizer do estado lamentável em que se encontram hoje
as aves de rapina, ou do destino de seus ovos não fecundados.
Vocês, homens, acabaram tornando-se inimigos da natureza.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Trimano 1998 - nanquim - retrato realizado especialmente para o livro "Trincheiras de Sonho" de Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo
1881 - Afonso Henriques de Lima Barreto
nasce no Rio de Janeiro a 13 de maio.
1887 - Fica órfão de mãe. Freqüenta a escola
pública.
1897 - Ingressa na Escola Politécnica do
Rio de Janeiro.
1903 - Seu pai enlouquece. Abandona a Escola
Politécnica e vai trabalhar na Secretaria de Guerra
para poder sustentar a familia. Freqüenta os meios
boêmios e intelectuais do Rio de Janeiro.
1905 - Trabalha como jornalista no Correio
da Manhã.
1909 - Seu romance "Recordações do Escrivão
Isaías Caminha" é lançado em Lisboa.
1911 - "Triste Fim de Policarpo Quaresma é publicado em folhetíns
pelo Jornal do Comércio.
1914 - É recolhido a um hospício.
1916 - Doente, interrompe temporariamente sua
atividade literária e profissional. Atua na Imprensa
anarquista, onde publica "Manifesto Maximalista".
1918 - É aposentado do seu cargo na Secretaria de Guerra,
por invalidez.
1919 - Novamente é recolhido ao hospício, onde só
sairá no ano seguinte.
1922 - Vítima de colapso cardíaco, falece no Rio de Janeiro
a primeiro de novembro.
Voltei para o pátio. Que cousa, meu Deus! Estava ali que nem um peru,
no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que
tinha um ar rude, mas doce e compasivo, de camponés transmontano.
Ele já me conhecia da outra vez. Chamava-me de você e me deu
cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a
varanda, lavar o banheiro, onde me deu um exelente banho de ducha
de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive
muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoievski, na
"Casa dos Mortos". Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoievski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria.
Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que peço dela. /
Lima Barreto / "Cemitério dos Vivos" - 1921
detalhe
Então, durante horas, através das minhas ocupações quotidianas,
punha-me a medir as dificuldades, considerar que o Rio era uma
cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de egoísmo, onde eu
não tinha conhecimentos, relações, protetores que me pudessem
valer... / Que faria lá, só, a contar com as minhas próprias forças?
Nada... Havia de ser como uma palha no rodamoinho da vida - levado
daqui, tocado para ali, afinal engolido no sorvedouro... ladrão...
bébado... tísico e quem sabe mais? Hesitava. De manhã, a minha
resolução era quase inabalável, mas, já à tarde eu me acobardava
diante dos perigos que antevia. /
Um dia, porém, li no Diário de... que o Felício, meu antigo condiscípulo,
se formara em Farmácia, tendo recebido por isso uma estrondosa,
dizia o Diário, manifestação dos seus colegas. /
Ora o Felício! pensei de mim para mim. O Felício! Tão burro! Tinha
vitórias no Rio! Por que não as havia eu de ter também - eu que lhe
ensinara, na aula de portugués, de uma vez para sempre, diferença
entre o adjunto atributivo e o adverbial? Por qué!? / Li essa noticia na sexta feira. Durante o sábado tudo enfileirei no meu espírito, as vantagens e as
desvantagens de uma partida. Hoje, já me recordo bem das fases dessa
batalha; porém uma circunstância me ocorre das que me demoveram a partir.
Na tarde de sábado, sai pela estrada fora. Fazia mau tempo. Uma chuva
intermitente caía desde dois dias. / Saí sem destinho, a esmo, melancolicamente aproveitando a estiada. Passava por um largo descampado e olhei o céu. Pardas nuvens cinzentas galopavam e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada nelas. A mancha
aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se; por fim,
um bando de patos negros passou por sobre a minha cabeça, bifurcado
em dois ramos, divergentes de um pato que voava na frente, a formar um V.
Era a inicial de "Vai". Tomei isso como sinal animador, como bom augúrio.
A sala da delegacia voltou novamente ao seu silêncio primitivo.
Um soldado veio apresentar-se, trocando rápidas palavras com o inspetor.
Um relógio próximo bateu quatro horas. Dos compartimentos do fundo,
chegou um personagem ventrudo, meão de altura, de pernas curtas, furta-cor, tendo atravessado no peito um grilhão de ouro, donde pendia
uma medalha cravejada de brilhantes. Dirigiu-se ao inspetor: - Raposo,
vou sair: há alguma cousa? / - Nada, Capitão Viveiros. / - E o caso
Jenikalé? Já apareceu o tal "mulatinho"? / Não tenho pejo em confessar
hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos.
Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração,
de respeito, de atenções comigo; a minha sensibilidade, portanto, estava
cultivada e tinha uma delicadeza extrema que se ajuntava ao meu orgulho
de inteligente e estudioso, para me dar não sei que exaltada representação
de mim mesmo, espécie de homem diferente do que era na realidade, ente superior e digno a quem um epíteto daqueles feria como uma bofetada.
Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte tal vez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal, caído dos meus olhos, sujo, imperfeito, deformado, mutilado e lodoso. Não sei a que
me compare, não sei mesmo se poderia ter sido inteiriço até ao fim da vida;
mas choro agora, choro hoje quando me lembro que uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo é uma questão
de semántica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação
injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava naquele tempo, porque
sentia na baixeza do tratamento todo o desconhecimento das minhas
qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam
ouvir, sentir e examinar. O que mais me feriu, foi que ele partisse de um
funcionário, de um representante do governo, da administração que devia
ter tão perfeitamente, como eu, a consciência jurídica dos meus direitos ao
Brasil e como tal merecia dele um tratamento respeitoso.
O doutor Ricardo Loberant entrou fumando com força seguido de
Pacheco Rabelo (Aires d'Ávila), redator chefe do jornal, a segunda
cabeça da casa. Era um homem gordo que se movia pela sala com a dificuldade de um boi que arrasta a relha enterrada da charrua. Havia
na sua marcha um grande esforço de tração e um monóculo petulante
na face imóvel não lhe diminuía o peso da figura. Os dois penetraram na redação pondo na sala uma inexplicável atmosfera de terror. Pelos
longos anos em que estive na redação do O Globo, tive ocasião de
verificar que o respeito, que a submissão dos subalternos ao diretor
de um jornal só deve ter equivalente na administração turca. È de
santo o que ele faz, é de sábio o que ele diz. Ninguém nais sábio e
mais poderoso do que ele na Terra. Todos têm por ele um santo terror
e medo de cair da sua graça, e isto dá-se desde o contínuo até o
redator competente em literatura e cousas internacionais. / Passando
por entre as mesas, tal era a concentração das faces e o ar aterrado daqueles
homens tão arrogantes lá fora, tão sublimes na rua, que eu pensei que se fossem atirar ao chão para serem pisados por aquele novo deus, dando-me ali um espetáculo da Índia mística.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
detalhe
disputando a sombra das árvores em grupos de homens e
senhoras. o pessoal masculino era soberbo: a nata - Senado,
Cámara, altos tribunais, grandes patentes do Exército e da
Marinha - cartolas reluzentes e negras sobrecasacas a enquadrar
os dourados dos uniformes. Tudo vergado ao sol indiferente e forte.
As senhoras sentiam-se mal, envolvidas naquelas fartas ondas de luz e calor.
Os bosquetes de arbustos tinham uma despreocupação divina e as grandes
árvores nodosas davam uma escassa e compasiva sombra. As lanchas
de aluguel, com bandeiras em que se lia o título do jornal, não tinham
chegado. Eu esperava, afastado do grosso da claque, tímido diante de
tanta grandeza inabalável. Chegou um ministro. Um movimento igual fez todos voltarem-se para o lado em que ele vinha. A atitude foi instantânea
em cada homem e em cada mulher; era como se ao centro de uma porção
de limalha de ferro espalhada, se houvesse chegado um pequeno ímã. /
O doutor Ricardo cumprimentou a alta autoridade e, a seu chamado,
foi-lhe falar. Além do ministro, intermeteu-se uma nova personagem;
um preto velho, quase centenário, de fisionomia simiesca e meio cego.
Trazia na mão esquerda um caniço que distendia um arame de pescaria;
com a direita, auxiliado por uma varinha, vibrava dolentemente a corda,
enquanto balbuciava qualquer cousa. Ia de grupo em grupo, tangendo
o seu monocórdio extravagante. Cantava talvez uma ária de uma extravagente beleza, certamente só percebida por ele e feita pela sua
alma para a sua alma... Tocava e esperava esmolas. Em todas as
fisionomias, havia decerto piedade, comiseração, e mais alguma cousa
que não me foi dado perceber. Era constrangimento, era não sei o que...
O preto tinha os pés espalmados e, com a cegueira e a velhice, andava
de leve, sem quase tocar no chão, escorregava, deslizava - era como
uma sombra...
detalhe
O carro atravessara o Largo da Lapa e o seu caminho foi interrompido
por uma aglomeração de populares. Da caleça, pude ver o que havia. Era uma mulher das muitas que povoam o largo e proximidades, que ia entre dois soldados. Recordei-me que já tinha visto aquela fisionomia. Esforcei-me
por lembrar. A minha vida começou a desfilar e quando cheguei à casa
da italiana, lembrei-me que era a amante do Deputado Castro. / Perguntei
então a mim mesmo por que não casara aquela rapariga, por que não vivera
dentro dos costumes tidos por bons. Não achei resposta, mas julguei-me,
não sei por que, um pouco culpado pela sua desgraça. / O carro chegou e
eu saltei para ajudar Leda a apoiar-se. Paguei ao cocheiro e, na calçada, ela
perguntou-me: / - Não entras? / - Não, obrigado. / Insistiu varias vezes, mas recusei. Vim vagamente a pé até o Largo da Carioca, sem seguir um pensamento. Vinha triste e com a inteligência funcionando para todos os
lados. Sentia-me sempre desgostoso por não ter tirado de mim nada de grande, de forte e ter consentido em ser um vulgar assecla e apaniguado de um outro qualquer. Tinha outros desgostos, mas esse era o principal.
Por que o tinha sido? Um pouco devido aos outros e um pouco devido a mim.
Encontrei Loberant: / - Então? perguntou maliciosamente. / - Deixei-a em casa. / - Pois se eu me tinha separado de vocês de propósito... Tolo!
Vamos tomar cerveja... / Antes de entrar, olhei ainda o céu muito negro muito
estrelado, esquecido de que nossa humanidade já não sabe ler nos astros
os destinos e os acontecimentos. As cogitações não me passaram... Loberant, sorrindo e olhando-me com complacência, ainda repetiu. - Tolo! / Todos os Santos, Rio de Janeiro - 1908
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
RONALD BROOKS KITAJ - Estados Unidos 1932 / Inglaterra 2007 /
Kitaj nasceu em Cleveland, Ohio, numa familia de judeus liberais
e não praticantes, e chegou a Londres repetindo os passos da
diáspora intelectual americana, seguindo Elliot, Hemingway,
Fitzgerald. O espírito de aventura e a erudição coexistiram desde
muito cedo, dividindo as viagens como marinheiro e
os estudos de arte em Nova Iorque e Viena, onde foi discípulo de
um colega de Egon Schiele. /
Kitaj passou a maior parte da sua vida
na Inglaterra. Ele integra, junto a Francis Bacon, Lucien Freud e
David Hokney, o grupo de pintores figurativos ingleses,
surgidos no período da Pop-Art. /
A designação de "escola" surgiú pela primeira vez no título do
prefácio de Kitaj para a exposição "The Human Clay"
organizada por ele em 1976 para o Arts Council com 35 obras e com a polémica afirmação da continuidade da pintura e do interesse pela
figuração, num contexto critico e institucional que lhes era tão desfavorável.
Essa mostra antecedeu o chamado "retorno à pintura" do final da década.
Mais tarde, em 1987, uma outra exposição circulou na Europa sob o
título "A Escola de Londres: Seis Pintores Figurativos", reunindo Francis
Bacon, Lucien Freud, Leon Kossoff, Ronald B. Kitaj, Michael Andrews e
Frank Averbach. Os mesmos artistas viriam a ser de novo reunidos em
"From London", inaugurada em Edimburgo e mostrada depois em Luxemburgo, em Lausana e Barcelona, em 1995/96. / Um certo acento
realista, marcado pelo clima social de pos-guerra e pelo existencialismo
pode ser denominado como a "marca" da escola de Londres. /
Kitaj utiliza a fotografia em muitos casos como colagem desenhada ou
pintada. Na sua grafia, prevalece a montagem como forma de
relato aparentada a ilustração, aos comics e ao cinema.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
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