sábado, 26 de maio de 2018

CURSO DE ILUSTRAÇÃO EDITORIAL
O Conto Ilustrado
TRIMANO
Ilustrações para "Os Navios Suicidantes"
de Horacio Quiroga
hidrográfica e esferográfica
"El Barco" - Edição virtual - Monte Alto - Rio de Janeiro 2018  
OS NAVIOS SUICIDANTES
Horacio Quiroga
 

TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes" - releitura de uma fotografia de Robert Capa


TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


Existem poucas coisas mais terríveis que encontrar
um navio abandonado no mar.
Durante o dia o perigo é menor, mas a noite
o barco não se encherga e nem há advertências possíveis
capazes de evitar o choque. Estes barcos abandonados
navegam obstinadamente a favor das correntezas
e do vento, se tiverem as velas içadas. Percorrem assim
os mares, mudando caprichosamente de rumo.
Não são poucos os barcos que não chegaram a porto
por ter tropeçado em seu caminho com um destes navios
silenciosos que viajam por conta própria.
Sempre existe a probabilidade de encontrá-los,
a cada minuto. É comum as correntezas aprisioná-los
nos mares de sargazos. Os navios se detem, imóveis,
nesse deserto de águas, até que pouco a pouco
vão se desmanchando. Mas, outros chegam a cada dia
e ocupam seu lugar silenciosamente, 
de modo que o tranquilo e lúgubre lugar está sempre
frequentado. O principal motivo deste abandono dos navios
são sem dúvida, as tempestades e os incêndios,
que deixam à deriva negros esqueletos errantes.
Pero há outras causas singulares...
    

TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes" - retrato do ator Humphrey Bogart


- Nos mares do norte, encontramos uma vez um barco a vela como o Maria Madalena.
- Nosso rumo - viajávamos também com velas - nos levou 
ao seu lado.
O singular aspecto de abandono que não engana num navio,
chamou-nos a atenção, e diminuimos a marcha 
observando-o. Finalmente mandamos uma chalupa,
a bordo não se achou ninguém, e tudo estava também
em perfeita ordem. A última anotação do diário datava
de quatro dias atrás, de tal forma que não sentimos
maior impressão. Ainda rimos das famosas desaparições súbitas. Oito dos nossos homens ficaram a bordo
para o governo do novo navio. 
Ao anoitecer se distanciou um pouco.
No dia seguinte o alcançamos mas não vimos ninguém
sobre a ponte. Mandamos novamente uma chalupa,
e os que foram percorreram em vão o navio: todos haviam
desaparecido. Nenhum objeto fora de lugar. O mar estava
absolutamente calmo em toda a sua extensão.
Na cocinha fervia ainda uma panela com batatas.
Como vocês compreenderão, o terror supersticioso
da nossa gente chegou ao cúmulo. Seis se animaram
a preencher o vazio, e eu fui com eles.
Chegados a bordo, meus novos companheiros decidiram beber para afastar toda preocupação. Estavam sentados
em círculo, e pouco depois a maioria começaram a cantar.
Chegou o meio-dia e passou a sesta.
As quatro chegou a brisa e as velas foram arriadas.
Um marinheiro acercou-se à borda e olhou o mar 
sujo de óleo. Todos tinham acordado, e se paseavam,
sem vontade de falar. Um sentou-se num cabo enrolado
e despiu a camiseta para remendar, costurando em silêncio.
De repente se levantou e soltou um longo asobio.
Seus companheiros se voltaram para olhar. Ele os olhou
sorpreendido também e sentou-se de novo. 
Um momento depois deixou a camiseta, avanzou 
até a borda e se jogou no mar.
Ao ouvir o ruído, os outros se voltaram com gesto
preocupado. Logo se esqueceram e voltaram à apatia geral.
Outro se espriguiçou, esfregou-se os olhos, 
e se jogou no mar.
Passou meia hora; o sol ia decaindo.
Senti que me tocavão no ombro.
- Que horas são? -
- As cinco - respondí
O velho marinheiro que me fez a pergunta me olhou
desconfiado, com as mãos enfiadas nos bolsos,
se recostando na minha frente. Olhou por um momento
a minha calça, distraído. E por fim se jogou nas águas.
Os três que ficaram se aproximaram rapidamente
e observaram o redemoinho. Se sentaram na borda
assobiando com o olhar perdido ao longe. Um se abaixou
e deitou-se na ponte, cansado. Os outros desapareceram
um atrás do outro.
As seis o último levantou-se sonolento, e se jogou
nas águas. 
E o acontecido ao Maria Margarida, que zarpou de New York
o 24 de agosto de 1903, e que no dia 26 se comunicou
com outro navio e depois cessou toda informação?
Quatro horas mais tarde, não obtendo resposta, foi enviada
uma chalupa que abordou o Maria Margarida. No navio
não tinha ninguém. 
As camisetas dos marinheiros foram postas na proa 
para secar. O fogão da cocinha ainda estava aceso.
Uma máquina de costura estava com a agulha suspensa
sobre a costura, como se tivesse sido deixada um momento antes. Não havia o menor sinal de luta nem pânico,
tudo em perfeita ordem. E faltavam todos. Que acontecera?
Na noite que aprendí isto estávamos reunidos na ponte.
Íamos a Europa, e o capitão nos contava sua história
marítima, perfeitamente certa, sem lugar a dúvidas.
As moças ouviam estremecidas, sugestionadas pelas ondas
susurrantes, nervosas prestavam, sem querer, atenção
à voz rouca dos marinheiros na proa.
Uma senhora muito jovem, recém casada se atreveu a dizer:
- Não serão águias?...-
O capitão sonriu bondosamente:
- Como assim? - águias se levam a tripulação?
Todos riram e também a jovem, um pouco envergonhada.
Felizmente um passageiro sabia algo disso. O olhamos
com curiodidade. Durante a viagem tinha sido um exelente
companheiro, assistindo a tudo e falando pouco.
- Ah! se o senhor nos contasse! -
Suplicou a jovem das águias
- Sem problema algum.-
Assentiu o discreto individuo.

TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


TRIMANO QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


Então fiquei sozinho, olhando idiotizado o mar deserto.
Todos, sem saber o que faziam, tinham se jogado no mar,
envolvidos pelo sonambulismo morboso que flutuava
no navio. Quando um se jogava no mar, os outros
se viravam, momentaneamente preocupados,
como se lembrasem de alguma coisa, para esquecer logo.
Assim tinham desaparecido todos, e suponho que sucedera
a mesma coisa no dia anterior, assim como nos outros
navios. 
- Isso é tudo.  -
Ficamos olhando para o estranho homem com explicável
curiosidade.
- E você não sintiu nada?  -
Lhe perguntou meu vizinho de camarote.
- Sim, um grande desánimo e obstinação pelas mesmas
idéias, nada mais. Não sei porque não senti mais nada.
Suponho que o motivo seja éste: ao invés de me esgotar
numa defesa angustiosa e contrária ao que sentia,
aceitei simplesmente como devem ter feito todos,
essa morte ipnotica. Alguma coisa muito semelhante
aconteceu sem dúvida, aos centinelas daquela guarda
que noite a noite, se enforcavam. -
Como o comentário seria bastante complexo, 
ninguém respondeu. Pouco tempo depois, o narrador
retirou-se ao seu camarote. 
O capitão o seguiu por um momento com o olhar.
- Farsante! - murmurou
- Ao contrário - disse um passageiro enfermo,
que ia morrer na sua terra.
- Se fosse um farsante não teria deixado de pensar nisso
e teria se jogado também no mar.

TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes" - retrato do ator Spencer Tracy interpretando o pescador Santiago no filme "O Velho e o Mar", baseado no relato de Ernest Hemingway - USA 1958


TRIMANO - QUIROGA - "Os Navios Suicidantes"


terça-feira, 22 de maio de 2018

CURSO DE ILUSTRAÇÃO EDITORIAL
A História Humana Contada Pela Arte
HIPERREALISMO
ANTONIO LOPEZ GARCIA
A Escultura Humana
O Espaço Interior
"El Barco" - Edição virtual - Monte Alto - Rio de Janeiro 2018
  

HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


ANTONIO LOPEZ GARCIA
Tornelloso, Ciudad Real, Espanha 1936
O trabalho de Lopez Garcia, embora produzindo
uma pintura associada ao hiperrealismo, se afasta 
do fotografismo frio dos artistas norte-americanos
que praticaram esta técnica, criando imagens
que expressam de forma muito pessoal, os climas
e as impressões regionais espanholas.
São interiores silenciosos e composições surreais
povoadas de modelos fantasmais, nos quais percebemos
a evocação de retratos e situações da sua infância
camponesa.
Na sua obra escultórica, aparentada ao pop norte-americano
George Segall, e ao australiano Ron Mueck, a atenção
é centralizada no corpo humano, independentemente
do relato temático, mostrando de forma crua,
sem nenhum artificio, seu ser mortal.
 

HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA - Autorretrato - óleo


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA - Retrato mortuário de César Vallejo - óleo


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA


HIPERREALISMO - LOPEZ GARCIA