O QUERERES / Onde queres revólver sou coqueiro /
E onde queres dinheiro sou paixão /
Onde queres descanso sou desejo /
E onde sou só desejo queres não /
E onde não queres nada, nada falta /
E onde voas bem alto eu sou o chão /
E onde pisas o chão minha alma salta /
E ganha liberdade na amplidão //
Onde queres familia sou maluco /
E onde queres romántico, burgués /
Onde queres Leblón sou Pernambuco /
E onde queres eunuco, garanhão /
Onde queres o sim e o não, tal vez /
E onde vês eu não vislumbro razão /
Onde queres o lobo eu sou o irmão /
E onde queres cowboy eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer /
Ah! bruta flor do querer //
Onde queres o ato eu sou espirito /
E onde queres ternura eu sou tesão /
Onde queres o livre decassílabo /
E onde buscas o anjo sou mulher /
Onde queres prazer sou o que dói /
E onde queres tortura, mansidão /
Onde queres um lar, revolução /
E onde queres bandido sou herói //
Eu queria quererte e amar o amor /
Construir-nos dulcíssima prisão /
Encontrar a mais justa adequação /
Tudo métrica e rima e nunca dor /
Mas a vida é real e de viés /
E vê só que cilada o amor me armou /
Eu te quero (e não queres) como sou /
Não te quero (e não queres) como és /
Ah! bruta flor do querer /
Ah! bruta flor do querer //
Onde queres comicio, flipper-video /
E onde queres romance, rock'n roll /
Onde queres a lua eu sou o sol /
E onde a pura natura, o inseticidio /
Onde queres mistério eu sou a luz /
E onde queres um canto, o mundo inteiro /
Onde queres quaresma, fevereiro /
E onde queres coqueiro sou obus //
O quereres e o estares sempre a fim /
Do que em mim é de mim tão desigual /
Faz-me querer-te bem, quererte mal /
Bem a ti, mal ao quereres assim /
Infinitamente pessoal /
E eu querendo querer-te sem ter fim /
E querendo-te aprender o total /
Do querer que há e do que não há em mim.
TRIMANO - retrato do arquiteto Lucio Costa - nanquim sépia e esferográfica vermelha - Revista Good Year - SP
TRIMANO - retrato da escritora Lydia Bojunga Nunes - nanquim 1993 / revista The Brasilian Book Magazine
Conhecí TETSURO ARAKAWA no restaurante San Sushi
de Santa Teresa. / Um japonés muito alto e magro,
de gestos delicados e cerimoniosos. /
Um quixote"nipo-chinés" , de idade avançada mas indefinida. /
Quando criança, tinha morado com a familia na Manchuria, China,
lugar que sempre lembrava com apreço. /
Seu principal projeto, nunca realizado:
construir enormes esculturas em aço inoxidável. /
Mostramos 3 das suas maquetes com colagem virtual
do ilustrador uruguaio Mauricio Planel /
Seu Tetsuro preparava um licor de gengibre e tinha a
intenção de comercializa-lo em grande escala. / Tambem
falava das propriedades da medicina chinesa, y era mestre
nos arranjos florais de Ikebana. / Como a maior parte dos
japoneses da sua geração, atravessou os horrores da
segunda guerra mundial, e a perversidade atómica. /
Em 1957 emigrou para o Rio de Janeiro, onde trabalhou
como reporter fotográfico para "O Cruzeiro". / Casado com
dona Marilaqui, uma cearense pequeninha, com quem teve
duas filhas, Alessandra e Fabiola. /
Morreu dias atrás. / Como gostava de dizer, era: "o artista mais
desconhecido do mundo". / Foi o nosso amigo. / Fique a lembrança. /
TRIMANO - Santa Teresa / Rio de Janeiro 2009
Assinar:
Postagens (Atom)



