segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

"Ninho" - croqui - tinta sépia, bico de pena - Nuenen 1885

"Estudo de nu" - crayon - 50 x 39,5 cm - Anvers 1886

"Autorretrato" - crayon - 32 x 24 cm - París 1886

"Croqui de camponeses na lavoura" - lápiz sangüina - 23,5 x 32 cm - Auvers-sur-Oise 1890

"Croqui de personagens" - crayon - 43,5 x 27 cm - Auvers-sur-Oise 1890

"Sinto em mim um fogo que não posso deixar extinguir, que, ao contrário, devo atiçar, ainda que não saiba a que espécie de saída isso vai me conduzir. Não me espantaria que essa saída fosse sombría. Mas em certas situações vale mais ser vencido do que vencedor..." - Vincent Van Gogh

"Campina de Arles" - tinta sépia, bico de pena - 26 x 34,5 cm - Arles 1888

"Camponeses na lavoura" - nanquim sépia, bico de pena - 26 x 34,5 cm - Arles 1888

"Ruela de Saintes-Maries-de-la-Mer - tinta sépia e caneta de bambú - 30,5 x 47 cm - Arles 1888

"O carteiro Joseph Roulin" - crayon e tinta sépia, bico de pena - 31,5 x 24 cm - Arles 1888

"Paisagem com vila" - crayon e guache - 43,5 x 54 cm - Auvers-sur-Oise 1890

Eu estou "atravessado" na vida e o meu estado mental não somente "é" mas tem "sido" também abstrato, de modo que qualquer coisa que se faça por mim, não "posso pensar" em equilibrar minha vida. Quando "devo"seguir uma regra como aquí no hospício, me sinto tranqüilo. E no alistamento, aconteceria mais ou menos a mesma coisa. Claro que aquí me arrisco muito a ser recusado, pois sabem que sou alienado ou pelo menos epiléptico, (tenho ouvido dizer que existem 50 mil epilépticos na França, dos quais somente 4.000 internados; de modo que não é tão extraordinário) quem sabe em París, falando com Détaille por exemplo ou Caran d'Ache, me incorporem logo. Poderá parecer uma cabeçada peor que a outra; em fim reflitamos, mas para atuar. Na espera, faço o que posso por trabalhar "não interessa no qué", incluindo a pintura; pois tenho uma boa vontade aceitável. Mas o dinheiro que custa a pintura... é algo que me esmaga debaixo de uma sensação de dívida e covardia; e sería conveniente que isto acabase o mais depressa possível. / Arles 1888 - 1889 / __________________________________________________________________ Por qué nos estamos aquí e isto é tudo, ou pelo menos tudo que posso dizer num momento de relativa crise. Um momento em que as coisas estão muitos tensas entre marchands de quadros de artistas mortos e artistas vivos. Pois bem, o meu trabalho; arrisco a vida e a minha razão mais ou menos destruida - bom - mas tú não estás entre os marchands de homens, que eu saiba; e podes tomar partido, acho, procedendo realmente com humanidade, mas, o que tú queres? / Cartas a Theo Auvers-sur-Oise 1890

"A estrada de Tarascon" - tinta sépia, bico de pena - 24,5 x 22 cm - Arles 1888

"O jardim do hospital" - crayon sanguina - 45,5 x 59 cm - Arles 1889

"Chafariz no pátio do asilo" - tinta sépia, bico de pena - 49,5 x 46 cm - Saint-Rémy 1889

Se os desenhos que te envío são muito duros, é porque os tenho realizado de tal forma que mais tarde, se ficarem, possam me servir de referência para a pintura. Este pequeno jardim de aldeão vertical é soberbo de cor em relação a natureza, as dálias são de um púrpura rico e escuro, a dupla fileira de flores é cor de rosa e verde de um lado e alaranjado quase sem verdor do outro. No meio, uma dália de um branco pálido e um pequeno granate com flores do mais brilhante alaranjado vermelho, com frutos verde-amarelos. O terreno cinza, as altas canas "cannes" de um verde azulado, as figueiras esmeralda, o céu azul, as casas brancas com janelas verdes e telhados vermelhos; a manhã de sol pleno, a tarde inteiramente banhada de sombra, levada e projetada pelas figueiras e as canas. / Cartas a Theo - Arles 1888

"Jardim florido" - tinta sépia, bico de pena - 61 x 49 cm - Arles 1888

"Rocha e ruinas de Montmajour" - tinta sépia, bico de pena - 47,5 x 59 cm - Arles 1888

"A campina de Crau vue de Montmajour" - tinta sépia, bico de pena - 49 x 61 cm - Arles, 1888

Nesta época de grande luta pela nova arte nos brigamos como "selvagens" não organizados contra um antigo poder organizado. A luta parece desigual; mas em assuntos espirituais não vence o número, e sim a força das idéias. / FRANZ MARC - pintor expressionista - 1912

sábado, 20 de fevereiro de 2010

GNOMOS DA FLORESTA
Texto de Wil Huygen / Ilustração de Rien Poortbliet

para as crianças: Nathalie, Vitória, Gabriel, Isabela, Luan, Ana Carolina, Lorenzo, Nicolao e Samuel

INTRODUÇÃO / A ORIGEM DOS GNOMOS / Reconhece-se o a.D. 1200, o ano em que o sueco Frederik Ugarph encontrou uma estátua de madeira, muito bem conservada, na casa de um pescador na cidade de Nidaros (atualmente Trondheim), Noruega. A estátua de 15 cm de altura, sem contar o pedestal, trazia gravadas as seguintes palavras: / NISSE Riktig Storrelse / que significa: "Gnomo, estatura real". / A estátua estava em poder da família do pescador há muitos anos e Ugarph encontrou muita dificuldade ao tentar comprá-la, o que somente ocorreu após muitos dias de negociações. A estátua pertence agora à coleção da família Oliv, em Uppsala. Exames radiográficos vieram a comprovar que a estátua tem mais de 2.000 anos e que deve ter sido entalhada na raiz de uma árvore já extinta, cuja madeira é incrivelmente resistente. Segundo consta, a inscrição no pedestal foi feita muitos séculos após a estátua ter sido esculpida. A descoberta dessa estátua serve para ilustrar aquilo que os gnomos sempre afirmaram: que suas origens são escandinavas. / Os gnomos, certamente são criaturas da noite e por essa razão tivemos que conducir nossas investigações na escuridão quase completa. Se tivéssemos permanecido absolutamente fiéis às nossas observações, muitas das ilustrações deste livro teriam sido pintadas em azul cinza escuro. Para superar essa dificuldade e fornecer uma idéia precisa da vida dos gnomos, todas as ilustrações foram feitas na suposição de que pequeninos seres estavam sendo observados sob a luz do dia. / Rien Poortbliet e Wil Huygen

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

VOVÓ GNOMO

A MULHER GNOMO

O GNOMO VIVE aproximandamente 400 anos. Leva uma vida saudável. Não come muito, não tem grandes conflitos emocionais e faz bastante exercício. Gosta de fumar cachimbo e não recusa um copo de licor! (entretanto não gosta de bebidas muito fortes).

O CAFÉ DA MANHÃ

A ARCA DO DOTE

A LUA-DE-MEL / A lua-de-mel dos gnomos é geralmente planejada com bastante antecedência, quando são contratados para o tranporte, animais ou aves em quem os gnomos depositam total confiança. Como por exemplo os gansos selvagens, os cisnes, as cegonhas, raposas, lontras e lobos (quando se trata de gnomos siberianos).
INSPEÇÃO DO TERRENO / ouvidos apurados e olhos atentos. Caso ainda não tenha anoitecido completamente, aguarda em companhia de algum coelho amigo até que fique bem escuro...
OS GOBLINS / Os goblins crescem até 30 cm e vestem-se sempre com roupas pretas, combinando com o chapéu preto. São reconhecidamente maus e não estão nenhum pouco preocupados com isso. Sempre que alguém morre, não perdem a chance de comparecer ao velório, simplesmente para poder assustar a familia. Gostam muito de ouro e de prata, por isso, estão sempre a perseguir os gnomos para roubar os seus preciosos metais. Sempre carregam consigo uma pá (com certeza para escavar as minas alheias) e moram no fundo das florestas, onde costumam praticar todo o tipo de maldades contra seus habitantes.
OS ULDRAS / essas criaturas subterrâneas são encontradas apenas na Lapônia. Parecem-se com os gnomos, apenas são um pouco maiores e bastante pálidos. Vivem em grandes grupos familiares ou em tribos e exercem enorme autoridade sobre os animais de grande porte, tais como o urso, o lobo, o alce e a rena, que os obedecem cegamente. São bastante cordiais e absolutamente cegos quando expostos à luz. Se maltratados pelos humanos, vingam-se provocando desordens e desastres. Seu método mais brutal consiste em desparramar pó venenoso no pasto das renas, causando um grande número de morte entre os animais e tirando dos pastores da Lapônia sua maior fonte de renda.

OS MALES E OS REMÉDIOS DOS GNOMOS

ALGUNS EXEMPLOS DE "PRIMEIROS SOCORROS" PRESTADOS PELOS GNOMOS: Quando dois gamos engancham os chifres durante uma luta, ou seja, sempre que seus galhos ficam emaranhados de tal forma e não querem se soltar (em virtude principalmente de protuberâncias e formas incomuns), o gnomo liberta-os com um serrote, e os pobrezinhos dos gamos, depois de tanto tempo presos e com muita fome, fazem as pazes e seguem seus caminhos. Ah, é bom esclarecer que os chifres são duros e insensíveis, portanto, a operação é absolutamente indolor.
O MUFLÃO / é uma cabra selvagem originária da Sardenha e da Córcega, regiões rochosas e de pouca vegetação. Nos pântanos que agora habitam, os cascos de suas patas não crescem de maneira como deveríam, tomando a forma de chinelos persas, favorecendo os escorregões e as quedas; para evitar tais acidentes, os gnomos serram e lixam os cascos das patas de seus amigos sempre que necessário.
CASCA DE BÉTULA / A casca de bétula após ser muito pisada, transforma-se num material tão resistente quanto o couro, sendo utilizada na confecção de sapatos, chinelos e casacos, os quais são, naturalmente costurados com fios de pêlo de alce ou com fibra de musgo.
O COURO /A pele utilizada é obtida dos ratos, esquilos, coelhos ou outros animais que tenham tido morte acidental, como por exemplo os atropelados por veículos nas estradas ou morreram de frio ou por ingestão de pesticidas, ou mesmo por brigas. O couro também é usado na feitura de calças, bolsinhas para ferramentas ou fumo, botas, cintos e às vezes, até para dobradizas.
BICHO DE SEDA / Alguns gnomos tem criação de bicho de seda, mas toda a produção de seda é destinada ao palácio

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Construção de Casas / A CASA NA ÁRVORE

O estilo das casas dos gnomos varia conforme o local onde são construídas. / Os gnomos da floresta e do jardim contumam morar sob antigas e grandes árvores. O gnomo do deserto europeu prefere as tocas de coelho desocupadas ao instala-se sob as raízes secas de algum pinheiro. Quando as tempestades de areia carregam o telhado de suas casas, tratam logo de consertá-lo com láminas de pinha. / Antigamente, quando a quantidade de água subterrânea no deserto era maior, os pinheiros davam pinhas bem maiores, cujas láminas produziam telhas exelentes. / Infelizmente, esse pinheiro está quase extinto.

Relacionamento Com Outros Seres / O TROLL-GORGOLÃO

Mas existe o caso de um gnomo que perdeu a vida nas mãos de trol-gorgolão. O monstrengo colocou-o dentro de uma calandra, triturando-o até a morte. Essas terríveis criaturas sentem um prazer diabólico quando descobrem a casa de algum gnomo. Sabem o que fazem? Deitam-se sobre a entrada da casa e começam a soprar com tanta força até destruí-la completamente. Os gnomos, felizmente, conseguem escapar pela saída de emergência, mas perdem muitos anos refazendo suas vidas em outro lugar.

OS GNOMOS E O CLIMA

Conseguem prever um vendaval tão bem quanto os animais. Essa habilidade lhes é particularmente útil, uma vez que sem esse conhecimento estariam fadados à morte. / Também podem prever quando irá nevar. Isso é necessário pois utilizam-se dos buracos e das entradas subterrâneas para ter acesso às suas casas, e, caso esses buracos sejam obstruídos pela neve, precisam estar prevenidos e providenciar outras alternativas. (Já mencionamos anteriormente que os gnomos utilizam-se de esquis para cobrir longas distâncias depois de uma nevasca.) / Nas montanhas, os gnomos podem prever as avalanches tão bem quanto os gamos, as raposas e os antílopes.

PORQUE OS GNOMOS BALANÇAM A CABEÇA

A pesar de haver uma grande diferença entre os nossos conceitos de progresso", disse Tomte na noite seguinte, desta vez sentado numa cadeirinha de boneca que le havíamos trazido, com o livro no colo, "saibam que, mesmo à distância, nós os acompanhamos. Vejam, por exemplo a história de Rembrandt van Rijn. Meu irmão, Olie, conhecia-o muito bem, pois morava sob um pé de laranja lima, bem pertinho de sua casa, ao lado de um canal, em Amsterdam. Olie costumava passar horas a fio, num cantinho do estúdio, desenhando ao lado do mestre. / "Quantas vezes Olie balançou a cabeça, sem conseguir compreender a ignorância e as limitações das pessoas que encomendavam pinturas ao grande artista. Doía-lhe a alma ver a quantidade de abusos e maltratos que Rembrandt sofría, como também a falta de dinheiro e a vida miserável que teve que suportar até a morte. Olie assistiu A Ronda da Noite ser composta e executada, pincelada por pincelada, obra-prima que atualmente é admirada por puro acaso. Desconsolado e balançando a cabeça, seu coração quase rompeu-se de dor, ao ver o quadro serrado brutalmente para que pudesse passar pela porta da prefeitura, para onde foi enviado após a morte do artista.
Jamais conseguiremos entender coisas desse tipo", e abriu o livro novamente. / "O que vocês fizeram às plantas e aos animais está também, além da imaginação. È certo, contudo, que as mudanças do clima contribuiram bastante para o desaparecimento de alguns espécimes de animais, como o gamo, o urso marrom ou o lobo, nas regiões nórdicas. Mas o exterminio do castor é algo imperdoável. O último castor foi abatido em 1827, em Zalk, perto de Zuider Zee, quando então perdemos um ente querido, com quem sempre mantivemos excelentes relações de amizade e que voluntariamente nos presenteava com uma gordura especial. Se vocês não derem fim à matança de animais e ao tráfico de drogas, não será a mudança do clima, ou mera coincidência, a devastação de todas as espécies animais. / Não mesmo. Sabemos que tudo isso abalou profundamente o equilíbrio da natureza e que teremos muitos anos de trabalho pela frente, na tentativa de restaurá-lo. Sem mencionar os danos causados à nossa própria espécie em conseqüência das drogas que vocês fabricam. Acho que nem preciso dizer do estado lamentável em que se encontram hoje as aves de rapina, ou do destino de seus ovos não fecundados. Vocês, homens, acabaram tornando-se inimigos da natureza.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OS ESCRITORES / AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO

Trimano 1998 - nanquim - retrato realizado especialmente para o livro "Trincheiras de Sonho" de Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo

1881 - Afonso Henriques de Lima Barreto
nasce no Rio de Janeiro a 13 de maio.
1887 - Fica órfão de mãe. Freqüenta a escola
pública.
1897 - Ingressa na Escola Politécnica do
Rio de Janeiro.
1903 - Seu pai enlouquece. Abandona a Escola
Politécnica e vai trabalhar na Secretaria de Guerra
para poder sustentar a familia. Freqüenta os meios
boêmios e intelectuais do Rio de Janeiro.
1905 - Trabalha como jornalista no Correio
da Manhã.
1909 - Seu romance "Recordações do Escrivão
Isaías Caminha" é lançado em Lisboa.
1911 - "Triste Fim de Policarpo Quaresma é publicado em folhetíns
pelo Jornal do Comércio.
1914 - É recolhido a um hospício.
1916 - Doente, interrompe temporariamente sua
atividade literária e profissional. Atua na Imprensa
anarquista, onde publica "Manifesto Maximalista".
1918 - É aposentado do seu cargo na Secretaria de Guerra,
por invalidez.
1919 - Novamente é recolhido ao hospício, onde só
sairá no ano seguinte.
1922 - Vítima de colapso cardíaco, falece no Rio de Janeiro
a primeiro de novembro.
Voltei para o pátio. Que cousa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compasivo, de camponés transmontano. Ele já me conhecia da outra vez. Chamava-me de você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um exelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoievski, na "Casa dos Mortos". Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoievski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria. Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que peço dela. / Lima Barreto / "Cemitério dos Vivos" - 1921

Foto do Hospicio - anónima

RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA / LIMA BARRETO
Ilustrações: Luis Trimano
Projeto de edição do romance "Recordações do Escrivão Isaías Caminha" de Afonso de Lima Barreto / Financiado pelo EDITAL UNIVERSAL / CNPQ / coordenação: Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo
Capítulo I

detalhe

Então, durante horas, através das minhas ocupações quotidianas,
punha-me a medir as dificuldades, considerar que o Rio era uma
cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de egoísmo, onde eu
não tinha conhecimentos, relações, protetores que me pudessem
valer... / Que faria lá, só, a contar com as minhas próprias forças?
Nada... Havia de ser como uma palha no rodamoinho da vida - levado
daqui, tocado para ali, afinal engolido no sorvedouro... ladrão...
bébado... tísico e quem sabe mais? Hesitava. De manhã, a minha
resolução era quase inabalável, mas, já à tarde eu me acobardava
diante dos perigos que antevia. /
Um dia, porém, li no Diário de... que o Felício, meu antigo condiscípulo,
se formara em Farmácia, tendo recebido por isso uma estrondosa,
dizia o Diário, manifestação dos seus colegas. /
Ora o Felício! pensei de mim para mim. O Felício! Tão burro! Tinha
vitórias no Rio! Por que não as havia eu de ter também - eu que lhe
ensinara, na aula de portugués, de uma vez para sempre, diferença
entre o adjunto atributivo e o adverbial? Por qué!? / Li essa noticia na sexta feira. Durante o sábado tudo enfileirei no meu espírito, as vantagens e as
desvantagens de uma partida. Hoje, já me recordo bem das fases dessa
batalha; porém uma circunstância me ocorre das que me demoveram a partir.
Na tarde de sábado, sai pela estrada fora. Fazia mau tempo. Uma chuva
intermitente caía desde dois dias. / Saí sem destinho, a esmo, melancolicamente aproveitando a estiada. Passava por um largo descampado e olhei o céu. Pardas nuvens cinzentas galopavam e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada nelas. A mancha
aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se; por fim,
um bando de patos negros passou por sobre a minha cabeça, bifurcado
em dois ramos, divergentes de um pato que voava na frente, a formar um V.
Era a inicial de "Vai". Tomei isso como sinal animador, como bom augúrio.
Capítulo V