Inglaterra 1931
Viajou muito desde criança, vivendo
uma existência sem raízes culturais
fixas. Iniciou-se na pintura com André
Lhote, em Paris, e prosseguiu seus
estudos no Art Students League, em
Nova Iorque. Estabelecida no Brasil
desde 1952, abandona a pintura em
1962 e dedica-se a fotografia.
Durante muitos anos fez fotojornalismo
para a famosa revista de Realidade,
o que lhe proporcionou a vivência com
os elementos da terra e do homem
brasileiros.
Publicou: A João Guimarães Rosa (1965)
Xingu / Território Tribal (1979)
Sertões / Luz e Trevas - sobre
"Os Sertões" de Euclides da Cunha (1982)
Dedica-se também a elaboração de filmes documentários.
a busca da correspondência entre a realidade, a literatura
e a fotografia, de que resultou este livro, é um de seus focos de interesse.
O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
domingo, 23 de novembro de 2014
Recife, Pernambuco 1920 - Rio de Janeiro, Brasil 1999
Desde jovem adotou a carreira diplomática, servindo
na Espanha, Inglaterra, Suíça, Paraguai e Senegal.
Foi influenciado pelo Surrealismo e pelo Cubismo,
preocupado em atingir uma objetividade não contaminada
pela espectativa do sentimental e do pitoresco, na qual
ele vê uma armadilha para a poesia. Em Barcelona, editou
Psicologia da Composição (1947), contra a "poesia dita profunda", e O Cão Sem Plumas (1950).
A imagem do rio Capibaribe como metáfora é o eixo deste
livro, e será retomado em O Rio (1954) e no poema Morte e Vida Severina (1956), formando um tríptico sobre a realidade nordestina, descrita através de substantivos descarnados
e imagens inusitadamente exatas.
Esse forte rigor semántico irá caracterizar toda a sua obra
como uma grande síntese crítica da realidade existencial,
geográfica, social, moral, e política brasileira.
Morte e Vida Severina, foi encenado na França pelo Teatro da Universidade Católica (TUCA), e ganhador do Grande Prêmio do Festival de Nancy.
Desde jovem adotou a carreira diplomática, servindo
na Espanha, Inglaterra, Suíça, Paraguai e Senegal.
Foi influenciado pelo Surrealismo e pelo Cubismo,
preocupado em atingir uma objetividade não contaminada
pela espectativa do sentimental e do pitoresco, na qual
ele vê uma armadilha para a poesia. Em Barcelona, editou
Psicologia da Composição (1947), contra a "poesia dita profunda", e O Cão Sem Plumas (1950).
A imagem do rio Capibaribe como metáfora é o eixo deste
livro, e será retomado em O Rio (1954) e no poema Morte e Vida Severina (1956), formando um tríptico sobre a realidade nordestina, descrita através de substantivos descarnados
e imagens inusitadamente exatas.
Esse forte rigor semántico irá caracterizar toda a sua obra
como uma grande síntese crítica da realidade existencial,
geográfica, social, moral, e política brasileira.
Morte e Vida Severina, foi encenado na França pelo Teatro da Universidade Católica (TUCA), e ganhador do Grande Prêmio do Festival de Nancy.
Foram os homens que nos levaram, Audalio Dantas
e eu, para a aldeia de Livramento no Estado da Parahyba
em julho de 1968.
Catadores de caranguejos saíam cedo na primeira luz,
levando suas canoas pelas águas grossas do estuário até
chegar no mangue - moradia, esconderijo e cemitério
marinho do caranguejo - emaranhado de estranhas populações de cabeças carapaças, unhas gordas, e obcenas
desempenhando precipitados lances na diagonal. Arrancados pelos homens da lama, lutam no espaço, mangue pingando mangue revoluteiam no ar.
Os homens sem luvas, pés amarrados com couro de boi
contra as lascas de conchas afundadas no chão,
dispersam-se pelos corredores do mangue apoiados
a raízes suspensas arqueadas em ogivais, nave inchada
e úmida de uma louca catedral. Fumaça de brasa acesa
sai das canecas que os homens levam para protegê-los
dos piuns que, volatizados em nuvem, comem a pele,
ferem o corpo e perturbam o olhar. O sol aparece suavemente, retido às folhas da vegetação. O cheiro de fumo, o cachimbo, a cabaça d'água, o chapeu de palha,
nos devolvem ao mundo, Livrados do mito desaparece
a visão infernal. Os espíritos se afastam. O homem descansa. Horas passam e as sombras entram pelos corredores do mangue. O mangue inteiro gargareja.
A umidade e o suor correm pelos corpos soltando-se
num único vapor.
Os caranguejos, amarrados a vara por fios de cipó,
testemunham o trabalho feito. Os homens, colocando
suas varas atravessadas nos ombros ensaiam o regresso.
Como marinheiros em terra firme, recobram o equilíbrio
após longo tempo no mar.
No entanto são as mulheres os fundamentos de nossa
história. Entrando em cena o sol caído, contornam o rio
perto do arraial. Cestas balanceadas na cabeça, ondulam
o corpo e pisam, seguras no paso - garças que passam
gritando alto, periquitos em bando grasnando no ar!
Corri atrás delas mal conseguindo seguir o seu ruidoso
rasto, cambaleando como um corpo sem alma, afundada
até a cintura na lama, para enfim chegar ao templo do seu
estar. Meninas, mulheres e velhas, com seus vestuários
de algodão ou de chita, deselegantes e escorridos,
subitamente transformadas em divindades pela lama -
faces polidas de pedra, revestidas das pregas movediças
do mar.
A menina de riso aberto, a beligerância da idade no olhar,
e a mulher de sorriso pálido permanecem imunes ao esforço
embrutecido da velha que, intocada e ausente a seu destino,
arrasta seu corpo gasto pelo chão.
Maureen Bisilliat
São Paulo - outubro de 1984
e eu, para a aldeia de Livramento no Estado da Parahyba
em julho de 1968.
Catadores de caranguejos saíam cedo na primeira luz,
levando suas canoas pelas águas grossas do estuário até
chegar no mangue - moradia, esconderijo e cemitério
marinho do caranguejo - emaranhado de estranhas populações de cabeças carapaças, unhas gordas, e obcenas
desempenhando precipitados lances na diagonal. Arrancados pelos homens da lama, lutam no espaço, mangue pingando mangue revoluteiam no ar.
Os homens sem luvas, pés amarrados com couro de boi
contra as lascas de conchas afundadas no chão,
dispersam-se pelos corredores do mangue apoiados
a raízes suspensas arqueadas em ogivais, nave inchada
e úmida de uma louca catedral. Fumaça de brasa acesa
sai das canecas que os homens levam para protegê-los
dos piuns que, volatizados em nuvem, comem a pele,
ferem o corpo e perturbam o olhar. O sol aparece suavemente, retido às folhas da vegetação. O cheiro de fumo, o cachimbo, a cabaça d'água, o chapeu de palha,
nos devolvem ao mundo, Livrados do mito desaparece
a visão infernal. Os espíritos se afastam. O homem descansa. Horas passam e as sombras entram pelos corredores do mangue. O mangue inteiro gargareja.
A umidade e o suor correm pelos corpos soltando-se
num único vapor.
Os caranguejos, amarrados a vara por fios de cipó,
testemunham o trabalho feito. Os homens, colocando
suas varas atravessadas nos ombros ensaiam o regresso.
Como marinheiros em terra firme, recobram o equilíbrio
após longo tempo no mar.
No entanto são as mulheres os fundamentos de nossa
história. Entrando em cena o sol caído, contornam o rio
perto do arraial. Cestas balanceadas na cabeça, ondulam
o corpo e pisam, seguras no paso - garças que passam
gritando alto, periquitos em bando grasnando no ar!
Corri atrás delas mal conseguindo seguir o seu ruidoso
rasto, cambaleando como um corpo sem alma, afundada
até a cintura na lama, para enfim chegar ao templo do seu
estar. Meninas, mulheres e velhas, com seus vestuários
de algodão ou de chita, deselegantes e escorridos,
subitamente transformadas em divindades pela lama -
faces polidas de pedra, revestidas das pregas movediças
do mar.
A menina de riso aberto, a beligerância da idade no olhar,
e a mulher de sorriso pálido permanecem imunes ao esforço
embrutecido da velha que, intocada e ausente a seu destino,
arrasta seu corpo gasto pelo chão.
Maureen Bisilliat
São Paulo - outubro de 1984
PAISAGEM DO CAPIBARIBE - I
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cántaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes,
Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.
Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.
E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.
Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.
Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.
Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.
Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.
(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes familias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).
Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
em alguma parte?
Por que estão seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?
João Cabral de Melo Neto
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cántaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes,
Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.
Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.
E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.
Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.
Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.
Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.
Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.
(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes familias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).
Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
em alguma parte?
Por que estão seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?
João Cabral de Melo Neto
PAISAGEM DO CAPIBARIBE - II
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.
Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).
O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.
Ele sabia também
dos grandes galpões da beira do cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.
E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.
Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais alem
de sua caliça extrema;
ainda mais alem
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapeu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.
Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).
O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.
Ele sabia também
dos grandes galpões da beira do cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.
E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.
Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais alem
de sua caliça extrema;
ainda mais alem
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapeu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.
Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).
Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).
Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.
sábado, 22 de novembro de 2014
Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.
Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe castiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).
João Cabral de Melo Neto
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.
Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe castiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).
João Cabral de Melo Neto
FÁBULA DO CAPIBARIBE
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.
No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.
(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
- ou do mastro - do rio.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.
O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
á custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).
O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.no rio
Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.
João Cabral de Melo Neto
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.
No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.
(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
- ou do mastro - do rio.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.
O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
á custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).
O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.no rio
Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.
João Cabral de Melo Neto
DISCURSO DO CAPIBARIBE
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.
O que vive
incomoda da vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.
Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.
Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.
Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.
E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.
Porque é muito mais espesso
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc., etc.
Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).
João Cabral de Melo Neto
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.
O que vive
incomoda da vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.
Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.
Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.
Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.
E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.
Porque é muito mais espesso
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc., etc.
Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).
João Cabral de Melo Neto
FLÁVIO DE CARVALHO é o nome artístico
de Flávio de Resende Carvalho.
Barra Mansa, São Paulo 1899
Valinhos, São Paulo, Brasil 1973.
Foi um dos grandes nomes da geração modernista,
atuando como arquiteto, cenógrafo, pintor, desenhista
e performer.
Filho de familia abastada, pôde receber uma educação
privilegiada, estudando na França e na Inglaterra entre
1911 e 1914. Em 1922 formou-se em engenharia civil,
e ao mesmo tempo e na mesma universidade, cursa
seus estudos de artes plásticas.
Retornando ao Brasil, em 1924, empregou-se como
desenhista calculista na firma de construção civil Ramos
de Azevedo.
Flávio de Carvalho escrevia sobre arquitetura no extinto
jornal "Diário de São Paulo", e em 1956, seu editor pediu
que fizesse um modelo de roupa masculina. Flávio deu
o nome de "Experiência 3" ao seu projeto, e criou uma
saia de nílon, uma camisa bufante, um chapeu e uma meia
de modelo arrastão, com sandálias de couro como solução
para o exessivo calor. Ele mesmo desfilou com seu protótipo
em 18 de outubro daquele ano em São Paulo.
A sua definição: "...ê na realidade, a vestimenta de um modelo futurista. a cidade do "homem nu", sem deus, propriedade privada ou casamento, um ser selvagem com
todos os seus desejos, toda a sua curiosidade intacta e não
reprimida como era pela conquista colonial. Em busca de
uma civilização nua".
1926 - Inicia colaboração como ilustrador no "Diário da Noite" de São Paulo.
1929 - Encontra-se com Le Corbusier (1887-1965).
1931 - Realiza a sua "Experiência 2", de forma provocativa,
caminha, com boné na cabeça, em sentido contrário ao de
uma procissão católica de Corpus Christi. Quase linchado,
é salvo pela polícia.
1932 - Participa do Movimento Constitucionalista como
capitão engenheiro.
1932-1934 - Funda o "Clube dos Artistas Modernos", com
Antonio Gomide (1895-1967), Di Cavalcanti (1897-1976),
e Carlos Prado (1908-1992).
1933 - Cria o "Teatro da Experiência" encenando o "Bailado
Do Deus Morto", espetáculo de teatro-dança da sua autoria,
para o qual cria cenografia e figurinos para os atores-dançarinos, em sua maioria negros, usando máscaras de aluminio. O teatro é fechado pela polícia sob alegação de atentatório aos bons costumes.
1934 - Sua primeira exposição individual, inaugura em 28
de junho, e é fechada pela polícia em 12 de julho sob alegação de atentado ao pudor e imoralidade. Cinco obras são apreendidas, a mostra é reaberta por ordem judicial em
26 de julho.
1936 - Publica pela editora Ariel do Rio de Janeiro, o livro
de sua autoria "Os Ossos do Mundo", com prefacio de Gilberto Freire (1900-1987). O livro relata as impressões
de uma viagem realizada à Argentina nesse ano, com um
grupo de engenheiros de São Paulo.
Realiza a decoração do baile oficial do Carnaval paulista.
Projeta e realiza conjunto de 17 casas conhecido como Vila América.
1947 - Faz a Série "Trágica", nove desenhos a lápiz,
que registram a agonia de sua mãe.
1950 - Projeta cenários luminosos para balé, com música
de Camargo Guarnieri (1907-1993), apresentado no Teatro
Municipal.
1955 - Inicia a publicação da sua coluna "Casa, Homem, Paisagem", no "Diário de São Paulo".
1956 - Realiza cenários para o bailado "Ritmos" de Prokofief,
apresentado no Teatro Cultura Artística.
1967 - Lança pela editora Edart, o álbum Flávio de Carvalho
com 32 desenhos.
1968 - Realiza o Monumento a Garcia Lorca na Praça das
Guianas.
1973 - Publica "A Origem Animal de Deus" e "O Bailado Do
Deus Morto", pela editora Difusão Europeia.
dados extraídos da Wikipédia
de Flávio de Resende Carvalho.
Barra Mansa, São Paulo 1899
Valinhos, São Paulo, Brasil 1973.
Foi um dos grandes nomes da geração modernista,
atuando como arquiteto, cenógrafo, pintor, desenhista
e performer.
Filho de familia abastada, pôde receber uma educação
privilegiada, estudando na França e na Inglaterra entre
1911 e 1914. Em 1922 formou-se em engenharia civil,
e ao mesmo tempo e na mesma universidade, cursa
seus estudos de artes plásticas.
Retornando ao Brasil, em 1924, empregou-se como
desenhista calculista na firma de construção civil Ramos
de Azevedo.
Flávio de Carvalho escrevia sobre arquitetura no extinto
jornal "Diário de São Paulo", e em 1956, seu editor pediu
que fizesse um modelo de roupa masculina. Flávio deu
o nome de "Experiência 3" ao seu projeto, e criou uma
saia de nílon, uma camisa bufante, um chapeu e uma meia
de modelo arrastão, com sandálias de couro como solução
para o exessivo calor. Ele mesmo desfilou com seu protótipo
em 18 de outubro daquele ano em São Paulo.
A sua definição: "...ê na realidade, a vestimenta de um modelo futurista. a cidade do "homem nu", sem deus, propriedade privada ou casamento, um ser selvagem com
todos os seus desejos, toda a sua curiosidade intacta e não
reprimida como era pela conquista colonial. Em busca de
uma civilização nua".
1926 - Inicia colaboração como ilustrador no "Diário da Noite" de São Paulo.
1929 - Encontra-se com Le Corbusier (1887-1965).
1931 - Realiza a sua "Experiência 2", de forma provocativa,
caminha, com boné na cabeça, em sentido contrário ao de
uma procissão católica de Corpus Christi. Quase linchado,
é salvo pela polícia.
1932 - Participa do Movimento Constitucionalista como
capitão engenheiro.
1932-1934 - Funda o "Clube dos Artistas Modernos", com
Antonio Gomide (1895-1967), Di Cavalcanti (1897-1976),
e Carlos Prado (1908-1992).
1933 - Cria o "Teatro da Experiência" encenando o "Bailado
Do Deus Morto", espetáculo de teatro-dança da sua autoria,
para o qual cria cenografia e figurinos para os atores-dançarinos, em sua maioria negros, usando máscaras de aluminio. O teatro é fechado pela polícia sob alegação de atentatório aos bons costumes.
1934 - Sua primeira exposição individual, inaugura em 28
de junho, e é fechada pela polícia em 12 de julho sob alegação de atentado ao pudor e imoralidade. Cinco obras são apreendidas, a mostra é reaberta por ordem judicial em
26 de julho.
1936 - Publica pela editora Ariel do Rio de Janeiro, o livro
de sua autoria "Os Ossos do Mundo", com prefacio de Gilberto Freire (1900-1987). O livro relata as impressões
de uma viagem realizada à Argentina nesse ano, com um
grupo de engenheiros de São Paulo.
Realiza a decoração do baile oficial do Carnaval paulista.
Projeta e realiza conjunto de 17 casas conhecido como Vila América.
1947 - Faz a Série "Trágica", nove desenhos a lápiz,
que registram a agonia de sua mãe.
1950 - Projeta cenários luminosos para balé, com música
de Camargo Guarnieri (1907-1993), apresentado no Teatro
Municipal.
1955 - Inicia a publicação da sua coluna "Casa, Homem, Paisagem", no "Diário de São Paulo".
1956 - Realiza cenários para o bailado "Ritmos" de Prokofief,
apresentado no Teatro Cultura Artística.
1967 - Lança pela editora Edart, o álbum Flávio de Carvalho
com 32 desenhos.
1968 - Realiza o Monumento a Garcia Lorca na Praça das
Guianas.
1973 - Publica "A Origem Animal de Deus" e "O Bailado Do
Deus Morto", pela editora Difusão Europeia.
dados extraídos da Wikipédia
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
ANTÔNIO GABRIEL NÁSSARA, mais conhecido
por NÁSSARA
Rio de Janeiro 1910-1996.
Compositor carnavalesco e caricaturista.
Foi o grande inovador do traço na caricatura para a imprensa brasileira. De todos os desenhistas dessa época, a proposta
gráfica de "mestre Nássara", era a que mais se alinhava
com a estética modernista, na ruptura das formas
acadêmicas. Seu desenho (que ele realizava utilizando uma caneta tinteiro de arquiteto chamada "tiralinhas", hoje praticamente extinta), desconstroi as formas da face, sem perder a semelhança com o retratado, numa economia de traços que chega ao signo.
Nássara é o "reinventor" do portrait-charge, praticando uma grafia abstrata relacionada com a Arte Moderna, e referência
do atual grafite.
Carioca filho de libaneses, começou a compor marchinhas
carnavalescas na década de 1930, disputando e vencendo
concursos com Lamartine Babo, Noel Rosa e Ary Barroso.
Frequentou os cursos da Escola de Belas Artes, mas não se formou.
Trabalhou nos jornais: "Carioca", "O Globo", "Última Hora", "Pasquim", e Revista "O Cruzeiro".
Seu maior sucesso como compositor foi a marcha "Alá-lá-ô",
em parceria com Haroldo Lobo, ficando conhecido por seu estilo de parodiar ou citar composições famosas em suas próprias músicas. É tido também como o primeiro autor
de um jingle comercial brasileiro.
Em 1990, foi homenajeado com uma exposição coletiva de
caricaturistas, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Trimano
dados extraídos da Wikipédia
por NÁSSARA
Rio de Janeiro 1910-1996.
Compositor carnavalesco e caricaturista.
Foi o grande inovador do traço na caricatura para a imprensa brasileira. De todos os desenhistas dessa época, a proposta
gráfica de "mestre Nássara", era a que mais se alinhava
com a estética modernista, na ruptura das formas
acadêmicas. Seu desenho (que ele realizava utilizando uma caneta tinteiro de arquiteto chamada "tiralinhas", hoje praticamente extinta), desconstroi as formas da face, sem perder a semelhança com o retratado, numa economia de traços que chega ao signo.
Nássara é o "reinventor" do portrait-charge, praticando uma grafia abstrata relacionada com a Arte Moderna, e referência
do atual grafite.
Carioca filho de libaneses, começou a compor marchinhas
carnavalescas na década de 1930, disputando e vencendo
concursos com Lamartine Babo, Noel Rosa e Ary Barroso.
Frequentou os cursos da Escola de Belas Artes, mas não se formou.
Trabalhou nos jornais: "Carioca", "O Globo", "Última Hora", "Pasquim", e Revista "O Cruzeiro".
Seu maior sucesso como compositor foi a marcha "Alá-lá-ô",
em parceria com Haroldo Lobo, ficando conhecido por seu estilo de parodiar ou citar composições famosas em suas próprias músicas. É tido também como o primeiro autor
de um jingle comercial brasileiro.
Em 1990, foi homenajeado com uma exposição coletiva de
caricaturistas, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Trimano
dados extraídos da Wikipédia
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