quinta-feira, 9 de abril de 2009

COBERTOR DE PAPEL DO COMPANHEIRO DE PRISÃO
Livros, novos, papéis velhos são amontoados, / Cobertor de papel é melhor que nenhum. / Abrigados do frio os ricos adormecem / enquanto na prisão tantos tremem sem sono.
MEIA-NOITE
Todos, dormindo, a mesma expressão de inocência. / O despertar divide em bons e maus os homens. / Bom, mau - ninguém assim de natureza nasce. / A educação depois o seu caráter forma.
QUATRO MESES, JÁ
"Um dia encarcerado: / mil anos lá fora". / Não é vã palavra / éste provérbio antigo. / Quatro meses na cela / destruíram meu corpo / mais que dez anos de vida. / Quatro meses de fome, / quatro meses de insônia, / sem mudar de roupa, / sem poder me lavar. / Abandonou-me um dente, / cabelos branquearam, / negro, magro, faminto, / vestido de sarna e de feridas. / Mas, paciente sou, / duro, rijo, / sem recuar um palmo. / Materialmente miserável, / o moral, firme.
BELEZA PERMANENTE
Tudo muda - é a lei. / A roda gira e não para. / Após a chuva, o sol. / O universo, num instante, / troca suas roupas molhadas. / A paisagem estende tapetes / sôbre seis quilômetros. / Sol doce, leve brisa, / uma flor sorrí. / No topo da árvore, / o galho que brilha. / Canta um côro de pássaros. / Homens e animais sentem a resurreição. / Que de mais natural? / Após a desgraça, o júbilo.

terça-feira, 7 de abril de 2009

OS POETAS / HÉCTOR ESCOBAR

Héctor Escobar - foto: Trimano 2008

ASSIM NASCEU A TEMPESTADE / Contaran-me que nascí na madrugada do dia 9 de julho de 1943, as cinco da manhã, baixo uma invernada muito forte,e o primeiro visitante que foi me cumprimentar foi o caudaloso rio Meta, que bordeja a pequena população de puerto Paez, no estado de Apure, na Venezuela; justo na fronteira com a Colômbia e o Amazonas, desde onde me couve navegar pela primeira vez na minha vida. / Contam que o visitante chegou com tanta força, que para que não nos afogássemos, me colocaram com minha mãe numa curiara, enquanto meu pai dava tiros no ar para anunciar minha chegada. Assim viajamos à terras mais altas onde nos refugiamos. Foi ali na floresta onde dei meus primeiros passos, em meio as crianças indígenas, que também era a origem da minha mãe, Trina - como o canto das aves. / Jornalista de profissão, de carne e osso. Desde a juventude escrevo poesias, contos, e até um romance histórico saiu de minhas mãos; alem de traduzir do português ao espanhol e vice versa, diversos autores brasileiros e portugueses. Resido à 30 anos no Brasil, de meus mais de 36 rodando pelo mundo. / Meu nome é realmente, Héctor Eliseo Escobar López, porem desde pequeno a familia me chamou sempre pelo segundo, Eliseo, Cheo. Héctor, de maneira mais formal, na vida profissional, até hoje. Sou um ou outro, os dois juntos, tanto faz. / Héctor Escobar - Rio de Janeiro 2009

foto: Rafiqur Rahman

OÁSIS DE SILÊNCIO / (Ás crianças do Iraque)
Sem escusas / Atropelado / Peço passagem ao silêncio / Para desgarrar um grito. / Desmorona a noite / Arrastando sua serpente / A covardia / Traga-se o céu de Bagdá. / Como usual / O mundo cala sua vergonha / O sangue afoga o pó do deserto / O invasor pulveriza as múmias / Desintegra a criancice / Prostitui o fogo
Peço passagem à dor / Meu coração / Meu Deus / É um arpão ferido
A noite não abriga / Morre o sol / É preciso despertar / Sublevar a moral / Refazer-nos sobre si mesmos / Sombra a sombra / A última esperança do ser / Está nas tuas mãos.

foto: Alaa al Marjani

O BURACO DA AGULHA
Atropeladamente e a galope / Com camelos e tudo / Cruzamos pelo buraco da agulha e o sol tinha se apagado / Suados chegamos ao mar / Vermelho / Ainda do sangue das crianças palestinas / Massacrados em Gaza / Manava pelos poros da areia. / Quisemos cruza-lo / Pela senda aberta por Moisés / Mas / Infelizmente / Ardente / O sangue / Tinha apagado / A descomunal estrada da Biblia / Deus dormia / Os fugitivos de ontem agora eram monstros / Transformando a vida em poeira / Pelo buraco da agulha chegamos / Sem pavor / Com camelos e tudo / A reinventar o amanhecer / Apesar da morte. / Rio de Janeiro 2004

foto: Alaa al-Marjani

domingo, 5 de abril de 2009

HOMENAGEM

NAZIM IKMET

OS POETAS / NAZIM IKMET

Ilustração: Trimano

NAZIM IKMET / Salónica - Império Otomano / atual Grecia, 1901 / Moscou - União Soviética, 1963 / Poeta e dramaturgo turco de vanguarda. / Pertenceu ao TKP - Partido Comunista da Turquia. / Por causa da sua militancia foi duramente perseguido. / Condenado a 15 anos de prisão, se exilia definitivamente na União Soviética. / O governo turco aboliu em 5 de janeiro de 2009 por decreto, a decisão ditatorial que, em 1951, retirou a nacionalidade turca do poeta. / A sua poesia foi traduzida para 50 linguas

O poeta na prisão

A MAIS CURIOSA DAS CRIATURAS
Como o escorpião, meu irmão, / Tu és como o escorpião / Numa noite de medo. / Como o pardal, meu irmão / Tu és como o pardal / No seu miudo desassossego. / És como o mexilhão, meu irmão / Tu és como o mexilhão / Fechado e tranquilo. / Tu és terrível meu irmão / Como a boca de um extinto vulcão. / E tu, ai de mim, não es um, / No es cinco, tu és milhões. / Tu és como a ovelha, meu irmão. / Quando o carrasco vestido da tua pele / Quando ele levanta a sua vara / Apressas-te a alcançar o rebanho / E vais para o matadouro a correr, / Quase orgulhoso / Em suma és a mais curiosa das criaturas / Mais curiosa que o peixe / Que vive no mar ignorando o mar. / E se há tanta miseria na terra / É graças a ti, meu irmão. / Se somos famintos, esgotados, / Se somos esfolados até ao sangue, / Espremidos como uvas para o nosso vinho / Iria até o ponto de dizer que é culpa tua, / mas não, / Isso não tem nada a ver contigo meu irmão. versão de Adalberto Alves
ANGINA DE PECHO
La mitad de mi corazón está aquí, doctor / Pero la otra mitad se encuentra en China, / En el ejército que baja hacia el rio Amarillo. / Cada mañana, / Cada mañana con el alba, / Mi corazón es fusilado en Grecia. / Y cuando el sueño rinde a los presos, / Cuando se alejan de la enfermeria los últimos pasos, / Mi corazón se va, doctor / Se va hacia una vieja casa de madera, allá en Istambul. / Además, doctor, hace más de diez años / Que no tengo nada en mis manos / Para ofrecer a mis hermanos; / Tan solo una manzana, / Una roja manzana: mi corazón. / Por todas estas cosas, doctor, / Y no por culpa de la arterioesclerosis, / Ni de la nicotina, ni de la cárcel, / Tengo esta angina de pecho. / Desde mi cama / Contemplo la noche tras los barrotes, / Y a pesar de todos estos muros / Que me aplastan el pecho, / Mi corazón palpita con la estrella más remota.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"A CRISE DA GLOBALIZAÇÃO" de José Carlos de Assis / Ilustrações de Luis Trimano / Editora MECS - Rio de Janeiro 2008
As ilustrações de este livro foram previamente
publicadas no caderno de Economia da Folha de São Paulo,
durante o período: 1993 / 2003
-Este livro é uma tentativa de compreensão das megatendências econômicas, sociais e políticas desnudadas pela atual crise financeira mundial, as quais já estavam presentes embrionariamente nas civilizações ocidental e oriental depois do colapso da União Soviética, da emersão da China como potência econômica e da perda de influência do dôlar como padrão de valor internacional. / Não se trata de extrapolação de variáveis. / É um esforço para unir os cordões por trás dos processos de criação de valor a fim de destacar uma rede inteligível de relações pessoais, nacionais e mundiais que estão se determinando dentro de novos paradigmas, muitos deles na contramão do que aparece, para o senso comum, como realidade atual ou como tendência - José Carlos de Assis / Rio de Janeiro 2008 / trecho inicial do PREÂMBULO do livro
Aplicação I / O IMPERATIVO POLITICO DO PLENO EMPREGO
Aplicação II / A ARTE DA GUERRA NA ERA NUCLEAR
Aplicação III / A DESFINANCEIRIZAÇÃO DOS EUA E DO MUNDO
Pósfácio / A IDADE DA COOPERAÇÃO
CAPITULO I

nanquim

CAPITULO II

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CAPITULO V

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CONCLUSÃO

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A ARTE DA GUERRA NA ERA NUCLEAR

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Série Músicos / Alessandra Botelho
ALESSANDRA BOTELHO / Rio de Janeiro 1981 / Formada em Desenho Industrial, na área de Comunicação Visual pela PUC - Rio / É editora de videografismo da divisão internacional da Rede Globo

Série Músicos: B B KING 2009

"Pensando na delicadeza de um certo instante de entrega, que desenvolvi minha série de músicos./ Sensíveis ao toque... encantados com as notas,/ Sim, todos homens./ Acredito que eles, tão intensos como seus acordes, são livres./ Desprovidos de qualquer medo de fluir algo inesperado.../ O que os fazem únicos, é exatamente a livre expressão de um precioso momento, seja ele alegre ou não./ Figuras fortes, muitas vezes endurecidas simplesmente pelo físico./ Aliados a música, demonstram facilmente a alma" Alessandra Botelho

Série Músicos: MILES DAVIS - 2009

Série Músicos: RON CARTER - 2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

GEORGIA O'KEEFE / USA / Flores no Deserto

foto: Alfred Stieglitz 1931

GEORGIA O'KEEFE / Wisconsin - USA 1887 / Santa Fé - Novo México 1986 / Pintora norteamericana que ilustra a natureza dos desertos mexicanos, as suas flores selvagens e os vestigios de osadas de animais que nos remetem a ancestrais indígenas / Como Frida Khalo e Tina Modotti, participa da "atitude" Modernista, e realiza uma obra identificada com a Natureza / No Brasil, Tarsila do Amaral, realiza nesse mesmo período, trabalho semelhante / Georgia O'Keefe viveu a maior parte da sua longa vida como "sertaneja" na fronteira entre a América e o México. / ver biografia na pesquisa Google

COLINAS LAVENDER - Gost Ranch - Novo México - óleo 1935

DO LAGO - óleo 1926

PAPOILAS ORIENTAIS - óleo 1928

IRIS CLARA - oleo 1924

"DIAS DE VERÃO" - óleo 1936

A ÁRVORE LAWRENCE - óleo 1929

CRANIO DE VACA COM ROSAS DE CALICO - óleo 1932

"A PARTIR DO LONGÍNQUO PRÓXIMO" - óleo 1937

Pintura Mural - Salão ELIZABETH ARDEN - Nova Iorque - óleo 1937

ÁRVORE MORTA NA COLINA COR-DE-ROSA - óleo 1945

"LOCAL PRETO" - óleo 1944

PAPOILAS - óleo 1950

GEORGIA O'KEEFE - Gost Ranch / Novo México 1977

PEQUENA COLINA PÚRPURA / óleo 1934

sexta-feira, 27 de março de 2009

OS POETAS / Cora Coralina / Brasil
CORA CORALINA: pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas - Cidade de Goiás 1889 / Goiânia 1985 / Foi uma poetisa e contista brasileira / Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literârios, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas de Goiás

Retrato de CORA CORALINA / Alessandra Botelho 2009

ASSIM EU VEJO A VIDA / A vida tem duas faces: positiva e negativa / O passado foi duro / Mas deixou o seu legado / Saber viver é a grande sabedoria / Que eu possa dignificar / Minha condição de mulher. / Aceitar suas limitações / E me fazer pedra de segurança / Dos valores que vão desmoronando. / Nascí em tempos rudes / Aceitei contradições / Lutas e pedras / Como lições de vida / E delas me sirvo / Aprendí a viver
A casa da familia onde Cora Coralina morou,
hoje museu "Casa de Coralina"
em Goiás
ANINHA E SUAS PEDRAS / Não te deixes destruir... / Ajuntando novas pedras / E construindo novos poemas. / Recria a tua vida, sempre, sempre. / Remove pedras e planta roseiras e faz doces. / Recomeça. / Faz da tua vida mesquinha / Um poema. / E viverás no coração dos jovens / E na memória das gerações que hão de vir. / Esta fonte é para uso de todos os sedentos. / Vem a estas páginas / E não entraves seu uso a quem tem sede
MEU DESTINO / Nas palmas das tuas mãos / Leio as linhas da minha vida / Linhas cruzadas, sinuosas, interferindo no teu destino. / Não te procurei, não me procurastes, cruzamos / Passavas com o fardo da vida... / Corri ao teu encontro. / Sorri. Falamos. / Esse dia foi marcado / com a pedra branca da cabeça de um peixe./ E, desde então caminhamos / Juntos pela vida
A INTERVENÇÃO URBANA
ALEX FLEMING / São Paulo - Brasil 1954 / Pintor, escultor e gravador / Em 1998 realiza paineis em vidro para a estação Sumaré do metrô paulista / Fotos de pessoas comuns, semelhantes as utilizadas nos documentos de identificação / Sobre as imagens sobrepõe letras coloridas contendo trechos de poemas de autores brasileiros

Estação Sumaré

Estação Sumaré

Estação Sumaré

Estação Sumaré

Estação Sumaré

Estação Sumaré

CONVOCAÇÃO!

"LA JUVENTUD" - Ricardo Longhini 1972

Busto de gêsso anónimo /
Madeiras quebradas /
Pregos

domingo, 22 de março de 2009

ANTOLOGIA BENEDETTI / tradução: Julio Luiz Ghelen / ilustrações: Luis Trimano / Exposição dos desenhos originais que ilustram a edição bilingüe: espanhol - portugués, de Mario Benedetti, editora Record 1988 / Casa de Cultura Laura Alvim / Rio de Janeiro - Maio de 1989

Capa do catálogo da exposição

Benedetti por Trimano

MARIO BENEDETTI / 1920 - Paso de los Toros / Departamento de Tacuarembó - Uruguay / Ver biografia na Google

Ilustração para "As atas do rancor"

Nanquim
AS ATAS DO RANCOR / Pouco a pouco o rancor vai me invadindo / animaliza minha anima lisa / me empresta garras nas maldições / me sobressalta a paciência boba/ dâ brilho ao ôdio como para abutres / me põe em ascuas e ascos
abro o livro e aprendo / a história do rancor, seus pormenores / seus desenvolvimentos e suas pautas / seus herdados instrumentos
mesmo assim me espera uma surpresa / quando fecho o breviário / fica entre minhas mãos / uma beira desarmada e desalmada / um rastro tedioso / sem prestígio e sem medula
então me reduzo ao que sou / vazio de ferramentas culturais / fecho os olhos mas / que vou fazer / não sonho com perdões