A casa era de gesso cor-de-rosa, já desbotado e se descascando com a umidade. Da varanda via-se o mar,
muito azul, no fim da rua. Havia loureiros em toda a calçada,
loureiros tão altos que faziam sombra na varanda de cima
e refrescavam a casa. Numa gaiola de vime, num canto
da varanda, vivia um tordo poliglota, que não estava cantando e nem mesmo trilando no momento porque
um jovem de seus vinte e oito anos, magro, moreno,
com círculos azulados sob os olhos e barba apontando,
tinha acabado de tirar o suéter que vestia e coberto a gaiola
com ele. O jovem ficou parado, a boca ligeiramente aberta,
escutando. Alguém tentava abrir a porta da frente,
que estava trancada e reforzada com trinco.
Enquanto escutava, o moço ouvia o ruido do vento
nos loureiros na frente da varanda, a buzina de um taxi
descendo a rúa e gritos de crianças que brincavam num terreno baldio. Em seguida ouviu o ruído de uma chave girando novamente na porta da frente, ouviu a lingüeta cedendo, ouviu alguém forçando a porta contra o trinco;
depois a chave girando ao contrário. Ao mesmo tempo o barulho de um taco de beisebol batendo na bola e gritos
agudos do terreno baldio em língua espanhola.
O moço ficou parado umedecendo os lábios com a língua
e escutando o barulho de alguém agora tentando abrir
a porta dos fundos.
O jovem, que se chamava Enrique, tirou os sapatos,
pousou-os devagarinho no chão e foi andando na ponta
dos pés pelos ladrilhos da varanda até onde podía ver
a porta dos fundos. Não vendo ninguém lá, voltou para
a frente da casa e, escondendo-se, olhou a rúa.
Um negro de chapéu palheta de aba estreita, paletó
de alpaca cinzenta e calça preta seguia pela calçada
sob os loureiros. Enrique olhou, não viu mais ninguém.
Ficou ali um tempo mais observando e escutando;
depois tirou o suéter de cima da gaiola e o vestiu.
Por ter suado muito enquanto escutava, ele agora sentia
frio na sombra, frio agravado pelo vento de nordeste.
O suéter cobria um coldre de axila onde ele portava um Colt
calibre quarenta e cinco; a sola do coldre já estaba descorada pelo suor, e a arma, com a pressão constante,
produzira um calombo pouco abaixo da axila do rapaz.
O rapaz deitou-se numa cama de lona encostada na parede
e continuou à escuta.
O passarinho trilava e pulava na gaiola. O jovem levantou-se
e abriu a porta da gaiola. O passarinho pôs a cabeça
para fora da porta aberta e logo a recolheu. Tornou a enfiar
a cabeça para fora, de viés.
- Pode sair - disse o jovem com voz mansa. - Não é cilada.
Enfiou a mão na gaiola, o passarinho voou para o fundo,
batendo as asas nas talas.
- Você é bobo - disse o jovem. Tirou a mão de dentro da gaiola. - Vou deixá-la aberta.
Deitou de bruços na cama de lona, o queixo apoiado nos braços dobrados. Continuava escutando. Ouviu o pássaro
voar da gaiola e logo cantando num dos loureiros.
Foi tolice deixar o passarinho preso quando a casa está
supostamente desocupada - ele pensou - Tolices como essa
podem ser perigosas. Como posso censurar outros
quando eu também procedo assim?
No terreno baldio os meninos ainda jogavam beisebol,
e a temperatura caíra. O jovem desabotoou o coldre,
tirou a arma e deixou-a ao lado da perna. Logo dormiu.
Quando acordou já estava escuro, e as lámpadas da rúa
já estavam acesas. Levantou-se e foi à frente da casa,
mantendo-se na sombra e ao abrigo da parede. Examinou
um lado da rúa, depois o outro. Debaixo de uma árvore
na esquina estava um homem de chapéu palheta de aba
estreita. Enrique não conseguia distinguir a cor do paletó
nem a da calça, mas o homem era negro.
Enrique correu para o fundo da varanda, mas lá não havia luz, a não ser a das janelas do fundo de duas casas vizinhas. Podia ver muita gente no fundo. Deduziu isso
porque não ouvia agora como ouvira de tarde, e não ouvia
porque tinha um rádio ligado na segunda casa.
De repente o crescente gemido mecânico de uma sirene
cortou o ar, e o jovem sentiu um arrepio subir até o alto da cabeça. Esse arrepio veio involuntariamente e rápido,
como acontece quando uma pessoa fica corada. Foi como
um fogo pontudo, que desapareceu também rapidamente.
A sirene viera do rádio, fazia parte de um comercial,
e logo veio a voz do locutor: "Dentifrício Gavis. Inalterável, insuperável, imbatível."
Enrique sorriu no escuro. Estava quase na hora de alguém aparecer.
Depois da sirene no anúncio de dentifrício veio o choro de uma criança que o locutor disse que deixaria de chorar
com Malta-Malta. Depois uma buzina de carro e um motorista exigindo gasolina verde. "Não me venha com conversa. Pedi gasolina verde. Mais econômica, rende mais.
A melhor."
Enrique sabia os anúncios de cor. Não tinham mudado
durante os quince meses que ele passara na guerra.
Deviam estar utilizando os mesmos discos na estação
de rádio, e a sirene o enganara mais uma vez, dando-lhe
aquela picada rápida espinha acima até o alto da cabeça,
que é a reação automática a um perigo.
No princípio ele não tinha esses arrepios. O que sentia
diante de um perigo ou do medo do perigo era um vazio
no estômago. Depois uma fraqueza como quando se está com febre. E havia também a incapacidade de ação, quando é preciso forzar o movimento para a frente e as pernas parecem paralizadas, como que dormentes.
Essas situações não aconteciam mais, e ele agora fazia
sem dificuldade o que fosse preciso. O arrepio era o único resquício da enorme capacidade de sentir medo com que
muitos bravos começam. Era a única reação perante
o perigo que lhe restava, sem incluir o suor do qual jamais
se livraria, mas que por outro lado lhe servia de alerta.
Enquanto olhava a árvore onde o homem de chapéu palheta
agora parecia sentado no meio fio, uma pedra caiu no piso de ladrilho da varanda. Enrique procurou por ela colado
à parede, mas não a achou. Passou a mão embaixo da cama de lona, onde também não estava. Quando ficou de joelhos para procurar melhor, outra pedra caiu no piso,
saltou e foi rolando para a esquina lateral da casa,
que dava para a rúa. Enrique apanhou-a.
Era um seixo liso comum, que ele guardou no bolso,
e voltou para dentro da casa e desceu os degraus
para a porta dos fundos.
Encostou-se de um lado do portal e tirou o Colt do coldre.
- A vitória - disse baixinho em espanhol, a boca resistindo à palavra, e passou de mansinho com os pés descalzos para o outro portal.
- Para os que a conquistam - alguém disse lá de fora.
Era voz de mulher dando a segunda parte da senha
em ritmo rápido e vacilante.
Enrique correu o trinco duplo da porta e abriu-a com a mão
esquerda, o Colt ainda na direita.
Quem estava lá no escuro era uma moça com um cesto
na mão. Tinha um lenço na cabeça.
- Olá - disse ele. Fechou a porta e passou o trinco
depois que ela entrou. Ouvia a respiração da moça no escuro. Tomou o cesto da mão dela e acariciou-a no ombro.
- Enrique - ela disse. Ele não podia ver que os olhos dela
brilhavam e nem como estava o seu rosto.
- Vamos lá para cima - disse ele - Tem alguém vigiando a frente da casa. Você viu?
- Não. Vim pelo terreno baldio.
- Vou lhe mostrar o sujeito. Vamos à varanda de cima.
Subiram a escada, Enrique com o cesto. Ele o depositara
perto da cama e fora para o canto da varanda. O negro
de chapéu palheta de aba estreita não estava mais lá.
- Ora, ora - disse Enrique.
- Ora o quê? - perguntou a moça segurando o braço dele e olhando para fora.
- Ele foi embora. O que é que temos para comer?
- Tive pena de deixar você sozinho o dia inteiro - disse ela
- Foi bobagem minha esperar que escurecesse para vir.
Passei o dia todo com vontade de vir.
- Foi bobagem ficar aqui. Trouxeram-me de barco para cá
antes do amanhecer e me deixaram com uma senha
e nada para comer, numa casa vigiada. Ninguém come senha. Não deviam ter me deixado numa casa que está vigiada por outros motivos. É coisa muito de cubano.
Antigamente pelo menos tinhamos o que comer. E você
como vai Maria?
Ela beijou-o na boca sofregadamente. Ele sentiu a presão
dos lábios dela e o tremor do corpo encostado no dele,
e de repente a picada branca de dor na espinha.
- Ai! Cuidado aí.
- Que foi?
- Minhas costas.
- O que é que tem? Está ferido?
- Você devia ver - disse ele
- Posso ver agora?
- Depois. Precisamos comer e sair daqui.
O que é que guardavam aquí?
- Muitas coisas. Coisas que sobraram do vexame de abril.
Coisas guardadas para o futuro.
- O futuro distante - disse ele. - Não sabiam que a casa estava vigiada?
- Tenho certeza que não
- O que é que tem aí?
- Uns fusis encaixotados. E caixotes de munição.
- Tudo deve ser retirado esta noite. Só depois de anos
de trabalho é que vamos precisar dessas coisas.
- Gosta de escabeche?
- Muito bom. Sente aqui perto de mim.
- Enrique - disse ela sentando-se encostada nele.
Pôs a mão na perna dele e com a outra acariciou-o na nuca
Meu Enrique.
- Pegue leve - disse ele mastigando, - As costas doem.
- Está contente de ter voltado da guerra?
- Nao pensei nisso.
- E Chucho, como está?
- Morreu em Lérida.
- E Felipe?
- Morreu. Também em Lérida.
- Arturo?
- Morreu em Teruel
- E Vicente? perguntou ela com voz monótona,
as duas mãos agora na perna dele.
- Morreu. No ataque da estrada de Celadas.
- Vicente é meu irmão. - Ela esticou o corpo
e tirou as mãos da perna dele.
- Eu sei - disse Enrique, e continuou comendo.
- É meu único irmão.
- Pensei que você já soubese.
- Não sabia, e ele é meu irmão.
- Sinto muito, Maria. Eu devia ter dito de outra maneira.
- Ele realmente morreu? Você tem certeza? Não seria
uma notícia sem confirmação?
- Olhe, Rogello, Basilio, Esteban, Felo e eu estamos vivos.
Os outros morreram.
- Todos?
- Todos.
- Não me conformo. Desculpe, não me conformo.
- Não devemos ficar falando nisso. Morreram.
- Não é só porque Vicente é meu irmão. Posso aceitar a morte dele. Eram a flor do nosso partido.
- Eu sei. A flor do partido.
- A guerra não valia isso. Ela destruiu os melhores.
- Valia, sim.
-Como pode dizer isso? Chega a ser criminoso.
- Não é não. A guerra valia sim.
Ela chorava e Enrique continuava comendo - Não chore -
ele disse. - O que temos a fazer agora é nos esforçarmos para ocupar os lugares deles.
- Mas ele é meu irmão. Você não entendeu ainda?
Meu irmão.
- Somos todos irmãos, Alguns morreram, outros estão
vivos. Nos mandaram de volta para que sobrassem alguns.
Do contrário não sobraria ninguém. Agora temos que trabalhar.
- Mas por que morreram todos?
- Estávamos numa divisão de ataque. Neste caso ou se morre ou se é ferido. Nós outros fomos feridos.
- Como foi que Vicente morreu?
- Foi apanhado por fogo de metralhadora quando atravessava a estrada. O fogo veio de uma fazenda à direita.
A estrada estava coberta pelas metralhadoras instaladas na casa.
- Você estava lá?
- Estava. Com a primeira companhia. Estávamos à direita dele. Tomamos a casa mas demorou.
Tinham três metralhadoras lá, duas na casa e uma
no estábulo. Era difícil aproximar-se. Tivemos que pedir um tanque para incendiar a janela e só assim pudemos atacar o último ninho de metralhadoras. Perdi oito homens. Foi uma perda alta.
- Onde foi isso?
- Celadas
- Nunca ouvi falar
- A operação fracassou. Ninguém vai ouvir falar nela.
- Foi aí que Vicente e Ignacio morreram.
- E você acha isso justificável? Que homens como eles morram em operações fracassadas num país extrangeiro?
- Não existe país extrangeiro, Maria, onde se fala espanhol.
Onde se morre não tem importância para quem luta pela liberdade. Mas seja como for, o que precisamos fazer é viver
e não morrer.
- Mas pense em quem morreu, longe de casa, e em operações fracassadas.
- Não foram lá para morrer, foram para lutar. Morrer é
um acidente.
- Mas os fracassos. Meu irmão morreu num fracasso.
Chucho morreu num fracasso. Ignacio también.
O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
terça-feira, 12 de julho de 2016
- São uma parte do todo. Tinhamos que fazer
algumas coisas impossíveis. Fizemos muitas que pareciam
impossíveis. Mas às vezes os que estão em nosso flanco
nos atacam. Às vezes não há artilharia suficiente. Ás vezes
somos mandados para fazer coisas sem força suficiente,
como em Celadas. São essas circunstâncias que resultam
em fracassos. Mas no fim das contas não foi um fracasso.
Ela não respondeu e ele acabou de comer.
Soprava um vento fresco nas árvores, e estava frio
na varanda. Ele recolheu os pratos nos cestos e limpou a boca com o guardanapo. Limpou as mãos cuidadosamente
e pôs o braço na cintura dela. Ela chorava.
- Não chore, Maria. O que aconteceu é passado.
Precisamos pensar no que temos de fazer. Temos muito
que fazer.
Ela continuou calada, o rosto iluminado pela luz da rúa,
olhando para a frente.
- Precisamos nos vigiar contra romantismos. Este lugar
aquí é um exemplo de romantismo. Precisamos parar
com o terrorismo. Precisamos continuar evitando cair
novamente em aventureirismos revolucionários.
A moça continuava calada. Ele olho aquele rosto em que tinha pensado durante os meses em que pôde pensar
em alguma coisa que não fosse o seu trabalho.
- Você fala como um livro - ela disse - Não como ser humano.
- Desculpe. São lições que aprendí. Coisas que sei que preciso fazer. Para mim é mais real do que tudo.
- Para mim só os mortos são reais - disse ela.
- Prestamos homenagem a eles. Mas eles não são importantes.
- Olhe você falando de novo como um livro - disse ela
zangada. - Seu coração é um livro.
- Desculpe Maria. Pensei que você entendesse.
- Só entendo os mortos.
Ele sabia que não era verdade porque ela não os viu mortos
como ele viu, na chuva no olival de Jarama, no calor das casas bombardeadas de Quijorna, e na neve em Teruel.
Mas sabia que ela o culpava por estar vivo quando Vicente
não estava mais; e de repente, na parte humana ínfima
e incondicional que restara dele, e que ele não sabia que ainda guardava, sentiu-se profundamente ofendido.
- Tinha um passarinho - disse ela - Um tordo-poliglota na gaiola.
- Tinha. Eu o soltei.
- Que pessoa mais caridosa! - disse ela em zombaria.
- Os soldados são todos sentimentais?
- Sou bom soldado.
- Acredito. Falou como bom soldado. Que espécie
de soldado era meu irmão?
- Dos melhores. Mais alegre do que eu. Não fui alegre.
Falha minha.
- Mas faz auto-crítica e fala como livro.
- Seria melhor que eu fosse mais alegre. Nunca aprendi isso.
- E os alegres morreram todos.
- Não. Basilio é alegre.
- Então vai morrer - disse ela.
- Maria, não fale assim. Você fala como derrotista.
- E você fala como livro. Não toque em mim, por favor.
Você tem coração duro e detesto você.
Ele sentiu-se ofendido pela segunda vez, ele que pensara
ter um coração duro que nada podia ofender nunca mais,
a não ser a dor.
Sentou-se na cama e se inclinou para a frente.
- Levante o meu suéter - disse ele.
- Eu não.
Ele levantou o suéter nas costas e se encurvou. -
Veja, Maria. Isto não é livro.
- Não posso ver. No quero ver.
- Ponha a mão embaixo nas minhas costas.
Ele sentiu os dedos dela tocando aquele ponto afundado
onde podia caber uma bola de beisebol, a cicatriz horrenda
do ferimento em que o cirurgião tinha enfiado a mão enluvada para limpar, ferimento que ia de um lado da cintura ao outro.
Sentiu o toque dos dedos dela e se encolheu. No momento
seguinte ela o abraçava e o beijava, os lábios como uma ilha no repentino mar branco de dor que surgiu, invadindo-o,
como uma onda brilhante e insuportável.
Os lábios ainda nos dele; depois a dor de repente cessando
e ele sentado sozinho, molhado de suor, e Maria chorando
e dizendo - Oh, Enrique, me perdoe. Me perdoe, Enrique.
- Tudo bem. Nada a perdoar. Mas não foi parte de nenhum livro.
- Dói sempre?
- Só quando sou tocado ou faço movimentos bruscos.
- É a medula?
- Quase não foi afetada. Os rins também estão inteiros.
O fragmento de granada entrou de um lado e saiu pelo outro. Tem outros ferimentos mais embaixo e nas pernas.
- Me perdoe, Enrique.
- Não há o que perdoar. Mas não tem graça eu não poder
me deitar com mulher. E lamento não ser alegre.
- Podemos fazer amor quando isso aí melhorar.
- Podemos.
- E será bom.
- Será.
- E eu vou cuidar de você.
- Não. Eu vou cuidar de você. Isto aqui não me incomoda em nada. É só a dor do toque e do movimento.
Nâo me incomoda. Agora precisamos trabalhar.
Temos que sair daqui. Tudo o que tem aqui precisa ser retirado esta noite. Vamos aguardar tudo em algum outro lugar que não esteja sob vigilância e também em que
o material não se estrague. Não vamos precisar dele tão cedo. Temos muito que fazer antes de chegarmos novamente a essa etapa. Precisamos educar muitos.
Até lá esses cartuchos podem não prestar mais. O clima aqui estraga as espoletas. Precisamos sair já. Fui idiota
ficando aquí até agora. O idiota que me pôs aqui vai ter que
prestar contas ao comitê.
- Estou encarregada de levar lá esta noite. Acharam que esta casa era segura para você passar o dia hoje.
- Esta casa é um perigo.
- Então vamos sair já.
- Já deviamos ter saído.
- Me beije, Enrique,
- Só se for com muito cuidado.
Na cama, no escuro, conduzindo-se com cuidado,
os olhos fechados, os lábios dele e os dela em contato,
a felicidade sem dor, a volta para casa de repente sem dor,
a sensação de estar vivo voltando sem dor, o conforto
de ser amado e ainda sem dor; era um vazio de amar,
agora não mais vazio, e os dois jogos de lábios no escuro
encontrando-se felizes e com doçura, no escuro e no calor da casa, e sem dor, no escuro; de repente soa a sirene
cortante, despertando toda a dor do mundo. Era a sirene
real, não a do rádio. Não era uma sirene. Eram duas.
Vinham cada uma de um lado da rua.
Ele virou a cabeça e depois se levantou. Achou que a volta para casa durara pouco.
- Saia pelos fundos para o terreno baldio - disse ele.
- Depressa. Eu atiro daqui de cima para tentar enganá-los.
- Não, você sai - disse ela - Saia, por favor. Fico aquí e atiro;
assim eles pensam que você está na casa.
algumas coisas impossíveis. Fizemos muitas que pareciam
impossíveis. Mas às vezes os que estão em nosso flanco
nos atacam. Às vezes não há artilharia suficiente. Ás vezes
somos mandados para fazer coisas sem força suficiente,
como em Celadas. São essas circunstâncias que resultam
em fracassos. Mas no fim das contas não foi um fracasso.
Ela não respondeu e ele acabou de comer.
Soprava um vento fresco nas árvores, e estava frio
na varanda. Ele recolheu os pratos nos cestos e limpou a boca com o guardanapo. Limpou as mãos cuidadosamente
e pôs o braço na cintura dela. Ela chorava.
- Não chore, Maria. O que aconteceu é passado.
Precisamos pensar no que temos de fazer. Temos muito
que fazer.
Ela continuou calada, o rosto iluminado pela luz da rúa,
olhando para a frente.
- Precisamos nos vigiar contra romantismos. Este lugar
aquí é um exemplo de romantismo. Precisamos parar
com o terrorismo. Precisamos continuar evitando cair
novamente em aventureirismos revolucionários.
A moça continuava calada. Ele olho aquele rosto em que tinha pensado durante os meses em que pôde pensar
em alguma coisa que não fosse o seu trabalho.
- Você fala como um livro - ela disse - Não como ser humano.
- Desculpe. São lições que aprendí. Coisas que sei que preciso fazer. Para mim é mais real do que tudo.
- Para mim só os mortos são reais - disse ela.
- Prestamos homenagem a eles. Mas eles não são importantes.
- Olhe você falando de novo como um livro - disse ela
zangada. - Seu coração é um livro.
- Desculpe Maria. Pensei que você entendesse.
- Só entendo os mortos.
Ele sabia que não era verdade porque ela não os viu mortos
como ele viu, na chuva no olival de Jarama, no calor das casas bombardeadas de Quijorna, e na neve em Teruel.
Mas sabia que ela o culpava por estar vivo quando Vicente
não estava mais; e de repente, na parte humana ínfima
e incondicional que restara dele, e que ele não sabia que ainda guardava, sentiu-se profundamente ofendido.
- Tinha um passarinho - disse ela - Um tordo-poliglota na gaiola.
- Tinha. Eu o soltei.
- Que pessoa mais caridosa! - disse ela em zombaria.
- Os soldados são todos sentimentais?
- Sou bom soldado.
- Acredito. Falou como bom soldado. Que espécie
de soldado era meu irmão?
- Dos melhores. Mais alegre do que eu. Não fui alegre.
Falha minha.
- Mas faz auto-crítica e fala como livro.
- Seria melhor que eu fosse mais alegre. Nunca aprendi isso.
- E os alegres morreram todos.
- Não. Basilio é alegre.
- Então vai morrer - disse ela.
- Maria, não fale assim. Você fala como derrotista.
- E você fala como livro. Não toque em mim, por favor.
Você tem coração duro e detesto você.
Ele sentiu-se ofendido pela segunda vez, ele que pensara
ter um coração duro que nada podia ofender nunca mais,
a não ser a dor.
Sentou-se na cama e se inclinou para a frente.
- Levante o meu suéter - disse ele.
- Eu não.
Ele levantou o suéter nas costas e se encurvou. -
Veja, Maria. Isto não é livro.
- Não posso ver. No quero ver.
- Ponha a mão embaixo nas minhas costas.
Ele sentiu os dedos dela tocando aquele ponto afundado
onde podia caber uma bola de beisebol, a cicatriz horrenda
do ferimento em que o cirurgião tinha enfiado a mão enluvada para limpar, ferimento que ia de um lado da cintura ao outro.
Sentiu o toque dos dedos dela e se encolheu. No momento
seguinte ela o abraçava e o beijava, os lábios como uma ilha no repentino mar branco de dor que surgiu, invadindo-o,
como uma onda brilhante e insuportável.
Os lábios ainda nos dele; depois a dor de repente cessando
e ele sentado sozinho, molhado de suor, e Maria chorando
e dizendo - Oh, Enrique, me perdoe. Me perdoe, Enrique.
- Tudo bem. Nada a perdoar. Mas não foi parte de nenhum livro.
- Dói sempre?
- Só quando sou tocado ou faço movimentos bruscos.
- É a medula?
- Quase não foi afetada. Os rins também estão inteiros.
O fragmento de granada entrou de um lado e saiu pelo outro. Tem outros ferimentos mais embaixo e nas pernas.
- Me perdoe, Enrique.
- Não há o que perdoar. Mas não tem graça eu não poder
me deitar com mulher. E lamento não ser alegre.
- Podemos fazer amor quando isso aí melhorar.
- Podemos.
- E será bom.
- Será.
- E eu vou cuidar de você.
- Não. Eu vou cuidar de você. Isto aqui não me incomoda em nada. É só a dor do toque e do movimento.
Nâo me incomoda. Agora precisamos trabalhar.
Temos que sair daqui. Tudo o que tem aqui precisa ser retirado esta noite. Vamos aguardar tudo em algum outro lugar que não esteja sob vigilância e também em que
o material não se estrague. Não vamos precisar dele tão cedo. Temos muito que fazer antes de chegarmos novamente a essa etapa. Precisamos educar muitos.
Até lá esses cartuchos podem não prestar mais. O clima aqui estraga as espoletas. Precisamos sair já. Fui idiota
ficando aquí até agora. O idiota que me pôs aqui vai ter que
prestar contas ao comitê.
- Estou encarregada de levar lá esta noite. Acharam que esta casa era segura para você passar o dia hoje.
- Esta casa é um perigo.
- Então vamos sair já.
- Já deviamos ter saído.
- Me beije, Enrique,
- Só se for com muito cuidado.
Na cama, no escuro, conduzindo-se com cuidado,
os olhos fechados, os lábios dele e os dela em contato,
a felicidade sem dor, a volta para casa de repente sem dor,
a sensação de estar vivo voltando sem dor, o conforto
de ser amado e ainda sem dor; era um vazio de amar,
agora não mais vazio, e os dois jogos de lábios no escuro
encontrando-se felizes e com doçura, no escuro e no calor da casa, e sem dor, no escuro; de repente soa a sirene
cortante, despertando toda a dor do mundo. Era a sirene
real, não a do rádio. Não era uma sirene. Eram duas.
Vinham cada uma de um lado da rua.
Ele virou a cabeça e depois se levantou. Achou que a volta para casa durara pouco.
- Saia pelos fundos para o terreno baldio - disse ele.
- Depressa. Eu atiro daqui de cima para tentar enganá-los.
- Não, você sai - disse ela - Saia, por favor. Fico aquí e atiro;
assim eles pensam que você está na casa.
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