domingo, 7 de fevereiro de 2010

"The Sailor (David Ward) 1979-80 - óleo sobre tela - 152.4 x 61 cmts.

"Yona in Paris", 1982 - carvão sobre papel - 57.2 x 39 cmts.

"Bad Character", 1990 - óleo sobre tela - 61.2 x 51.1 cmts

Alguns Quadros Tem Livros / Retrospectiva / Kitaj na Tate Gallery - Londres 1994
"Se há livros ilustrados com pinturas, também pode haver quadros ilustrados por livros" diz Kitaj. Ele começou por colar extensos textos manuscritos nos seus quadros-puzzles do inicio da arte Pop, ha cerca de 35 anos, justificando a heresia que podia ser também um gesto neo-dadaista, com o precedente das notas de roda-pe que T.S.Elliot associara ao seu poema mais famoso "The Waste Land". Depois tomou o gosto de fazer "prefácios" para muitas das suas obras, publicados no catálogo da sua primeira exposição de 1963 na Marlborough Galeria, e também expostos em tabelas anexas.

"The Sculptor", 1992 - óleo sobre tela - 122.9 x 122.9 cmts.

"Casting", 1967-69 - detalhe - óleo sobre tela - 250.2 x 91.4 cmts.

"The Killer-Critic Assassinated by His Widower, Even", 1997 - óleo e colagem sobre tela - 152.4 x 152.4 cmts.

"His Last Painting", 1987 - óleo sobre tela - 99.7 x 62.9 cmts.

"Sunday", 1991 - óleo sobre tela - 91.7 x 152.8 cmts.

"Juan de la Cruz", 1967 - óleo sobre tela - 183 x 152.4 cmts

"Juan de la Cruz" - detalhe

A escrita não é a explicação da pintura mas pode referir as motivações com que o pintor abordou o seu tema, pode fornecer pistas sobre as referências feitas a obra de outros artistas, identificar os personagens das suas ambiciosas composições alegóricas, ou tomar o carácter de "short stories" que se juntam, com a independência de narrações paralelas, as suas últimas pinturas declaradamente autobiográficas. Os quadros tem "vidas secretas" e o pintor, que costuma apresentar-se como um "velho simbolista" apenas abre algumas das suas infindáveis portas.

"Doctor Kohn", 1978 - pastel e carvão sobre papel - 55.9 x 38.1 cmts.

"Ashmolean Drawing (Oxford) 1958 - lápiz sobre papel - 53.3 x 41.6 cmts.

"His New Freedom", 1978 - pastel e carvão sobre papel - 76.8 x 55.9 cmts.

"His New Freedom" - detalhe

"Dominie (Dartmouth) 1978 - pastel e carvão - 55.9 x 38.1 cmts

"Two Famous Writers", 1980 - detalhe - crayon sobre papel - 151.1 x 55.9 cmts

"La Pasionaria", 1969 - óleo sobre tela - 30.5 x 30.5 cmts

Kitaj asumiú o forte componente literário e erudito da sua formação intelectual e o caráter temático da sua obra, infringindo un dos mais persistentes interditos prescritos pela vontade de autonomia que marcou o modernismo formalista: o assunto é a própria pintura, apenas o jogo formal dos espaços e cores, a obra "fala" por si própria, ou pela boca do crítico. Kitaj é um pintor figurativo, e depois da morte de Bacon um dos nomes mais importantes de uma tradição que reivindica o (modernismo heróico antes do maneirismo modernista) para fazer uma pintura sobre temas de hoje (centrada nas relações humanas, na arte do passado, na vida das ideias, e na revelação de si próprio.

"Where the Railroad Leaves the Sea", 1964 - óleo sobre tela - 121.9 x152.4 cmts.

"Where the Railroad Leaves the Sea" - detalhe

"General of Hot Desire", 1968-69 - óleo sobre tela - 152.4 x 91.5 cmts.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ele reclama a posibilidade de trabalhar enquanto pintor, como um romancista ou um cineasta, criando personagens que circulam de quadro em quadro e ficções onde se condensam as grandes esperanças e desastres deste século. A política, o sexo, a condição humana, são seus temas e também os livros, os amigos, o baseball ou o cinema. Declara-se um humanista, o mesmo humanismo que o leva a apreciar e defender a pintura abstrata como um poderoso "inimigo do fascismo". Texto de apresentação da exposição retrospectiva de Ronald B. Kitaj na Tate Gallery - Londres 1994

"Bather (Wading) 1978 - pastel sobre papel - 48.5 x 22.5 cmts

"Against Slander", 1990 - óleo e crayon sobre tela - 152.4 x 152.4 cmts

"Against Slander" - detalhe

"a liberdade de conservar o desenho vivo através da vida da pintura" - R.K

"It Not,Not" 1975-76 - óleo sobre tela - 152.4 x 152.4 cmts.

"If Not, Not" - detalhe

"If Not, Not" - detalhe

"Bather (Tousled Hairl) 1978 - pastel e aguada sobre papel - 121.3 x 56.8 cmts.

"Bather (Tousled Hairl) - detalhe

"The Ohio Gang" , 1964 - óleo e crayon sobre tela - 183.1 x 183.5 cmts

"The Ohio Gang" - detalhe

domingo, 31 de janeiro de 2010

PAUL GAUGUIN / NOA NOA / Diário / Cartas do Tahiti / Ilhas Marquesas

Gauguin no ano de 1885

PAUL GAUGUIN - París 1848 / Ilhas Marquesas 1903 / Post-Impressionista. Desenvolveu as técnicas do chamado "Sintetismo", estilo de representação simbólica da Natureza, onde são utilizadas formas simplificadas e grandes campos de cores vivas chapadas, que ele fechava com uma linha negra, o que mostrava forte influência das gravuras japonesas. A sua pintura de alegorias decorativas, foi referência de varios artistas latinoamericanos como Diego Rivera. Gauguin era neto, pelo lado materno, da famosa anarquista peruana Flora Tristão, expressivo antecedente familiar. Nascido em París, mudouse com a familia, depois da ascensão de Napoleão III, para Lima no Perú, onde morou até os 7 anos. Depois de uma vida burguesa em París, como funcionário da Bolsa de Valores, aos 43 anos, abandona a Mette Gad, mulher dinamarquesa com quem casara 18 anos antes e 5 filhos, rumo ao Tahiti, com a promesa de voltar em 3 anos. NOA NOA é a experiência vivida nessa primeira aventura pictórica no Pacífico. A segunda
só virá a ser iniciada 2 anos depois do regreso a França, prolongada nos 8 anos que le restam de vida. E muito provável que as "lembranças
peruanas" tenham influenciado a sua visão do mundo e de outros
povos alem da arqui-conservadora e racista sociedade francesa, o
que determinou seu rompimento e posterior luta contra a gendarmeria colonial. Esta é a história ilustrada de Paul Gauguin no Tahiti, relatada com as
suas palavras e suas pinturas. Um verdadeiro "Diário Gráfico", lembrando o amigo Renato Alarcão. / TRIMANO - Rio de Janeiro de 2010

Mulher tahitiana na praia, 1892 - óleo sobre tela - 110 x 89 cmts.

Ha sessenta e três dias que estou a caminho e ardo na impaciência de abordar a terra desejada. A 8 de junho vislumbrámos luzes estranhas que passavam em ziguezague: pescadores. No céu sombrio recortava-se um cone preto e denteado. Contornámos Moorea para descobrir Tahiti. Horas mais tarde já se anunciava a madrugada e, muito lentamente, nos aproximámos dos recifes de Tahiti para franquear o estreito e ancorar sem contratempos na enseada. Quem muito viajou não achará nesta pequena ilha o aspecto feérico de baía do Rio de Janeiro, por exemplo. Alguns picos montanhosos aonde uma qualquer familia trepou e proliferou, pasado há muito o dilúvio. Os corais, esses também treparam e envolveram a nova ilha.

Annah, a Javanesa, 1893 (também Aita Tamari vahina Judith te Parari - A pequena Judith ainda virgem) óleo sobre tela - 116 x 81 cmts.

Retrato de Jacob Meyer de Haan (Nirvana) 1889 - óleo e têmpera sobre seda - 20 x 29 cmts.

Água Misteriosa, 1893 "Pape Moe" - aquarela - 31,8 x 21,6 cmts.

Cabeça de uma mulher negra, 1887 - pastel, 36 x 27 cmts.

Eva Bretã, 1889 - aquarela e pastel - 33,7 x 31,8 cmts.

Vincent van Gogh pintando os girasois, 1888 (período de Arlés) óleo sobre tela - 73 x 91 cmts.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Para mim os dias são cada vez melhores. Acabei por aprender muito bem a lingua e os meus vizinhos, os três do lado e os outros mais distantes, quase me olham como a um deles. Em contato quotidiano com as pedras, os meus pés descalços familiarizam-se com o chão e o meu corpo, quase sempre nu, já não receia o sol. A civilização sai aos poucos de mim e começo a pensar com simplicidade, a alimentar pouco ódio pelo meu próximo, a funcionar animalmente, livremente, com a certeza de que o amanhã é igual ao dia de hoje. Todas as manhãs o sol se ergue tranquilo, para mim como para toda a gente. Faço-me descuidado, sereno e amante.

Que Novidades Há? 1892 "Parau Api" - óleo sobre tela - 67 x 91 cmts.

Mulheres do Tahiti, 1891 (Na Praia) - óleo sobre tela, 69 x 91,5 cmts.

detalhe

O Dia dos Deuses, 1894 "Mahana no Atua" - óleo sobre tela, 66 x 87 cmts.

Gauguin no ano de 1888

Chegamos a Taravao e devolví o cavalo ao gendarme. A mulher deste (uma francesa) exclamou (sem malícia, é verdade, mas sem finura também): - O que? Leva consigo uma meretriz!.. E os seus olhos-cólera despiram a rapariga impassível, que entretanto se tornara altiva. A decrepitude observava a nova floração, a virtude da lei soprava impuramente sobre o impudor nativo mais puro, sobre a confiança, a fé. E, no céu tão belo, descobrí com dor essa nuvem suja de fumo. Envergonhei-me da raça. os meus olhos afastaram-se daquela lama - depressa esqueci - para se fixar no ouro que eu já amava, bem me lembro.

O Espirito dos Mortos Vigia, 1892 "Manao Tupapau" - óleo sobre tela - 73 x 92 cmts.

Trechos da Carta aos senhores inspectores das colonias, de passagem nas Marquesas, fim de 1902, Hivaoa, Ilhas Marquesas: Pretendo apenas pedir que examineis, vós próprios, quem são os indígenas aquí, na nossa colónia das Marquesas, e como funcionam os gendarmes perante eles. A razão é esta: de dezoito em dezoito meses, aproximadamente, e por motivos de economia, é-nos enviada a justiça. O juiz aparece apressado em julgar, nada conhecendo, nada, do que um indígena pode ser. Vendo a sua frente uma cara tatuada, diz consigo mesmo "Aquí está um facínora canibal", sobretudo quando o gendarme interessado lho afirma. O governador Edouard Petit referiu o pintor num relatório que enviou ao Ministro das Colónias, especificando que era necessário desembaraçar as ilhas "dos maus franceses" , "chegados do fim do mundo para alí esconder as infâmias da sua vida" e os "fermentos da desordem". O Juiz chega, portanto, e voluntariamente se instala na gendarmeria, aí toma as refeições, não vendo mais ninguém além do cabo da esquadra que lhe apresenta os processos com as suas apreciações "Fulano e fulano, todos bandidos etc. Veja bem senhor juiz que a não sermos severos com esta gente, acabamos todos por ser assassinados"...

Esboço de "O auto-retrato chamado "Les Misérables'" em uma carta de 8 de outubro de 1888 dirigida ao pintor Schuffenecker

Auto-retrato com Auréola, 1889 - óleo sobre madeira, 79,2 x 51,3 cmts.

Mulher com Manga, 1892 "Vahine no te Vi" - óleo sobre tela, 72,7 x 44,5 cmts.

De um modo geral a população é muito pacífica e só restam as multas para o delito de embriaguêz. Nada possuindo, nada tendo para se distrair, os naturais recorrem em tudo, e por tudo, à bebida fornecida grátis pela natureza, isto é, sumos de laranja, de flores de coco, de banana, etc. fermentados por alguns dias e bem menos prejudiciais que os álcoois da Europa. Depois desta proibição de beber, muito recente, e que suprime um comércio lucrativo aos colonos, o indígena só pensa numa coisa: em beber, fugindo para isso dos centros e escondendo-se em qualquer lado. Daí a impossibilidade de encontrar trabalhadores. Equivale a dizer regresso a selvajaria. O gendarme, esse está no seu elemento: a caça ao homem. Se, por um lado, arranjais leis especiais que os impedem de beber, enquanto os europeus e os negros podem fazê-lo, por outro as suas palavras, as suas afirmações perante a justiça, tornam-se nulas, e é inconcebível que lhes digam que são eleitores franceses, que lhes imponham escolas e patacoadas religiosas. Singular ironia, a desta consideração hipócrita de Liberdade, Igualdade, Fraternidade sob uma bandeira francesa, perante o desolador espetáculo de homens que não passam de carne para contribuições de toda a espécie e para o arbitrário gendarme. No entanto, obrigan-nos a gritar "Viva o senhor governador, viva a República"

O Mercado, 1892 "Ta Matete" - óleo sobre tela, 73 x 91,5 cmts.

Carta a Georges-Daniel de Monfreid, Tahiti, fevereiro de 1897: Mal chegou o correio, sem nada ter recebido de Chaudet, com a minha saúde quase de repente restabelecida, isto é, já sem ter oportunidade de morrer naturalmente, quis matar-me. Fuí esconder-me na montanha, aonde o meu cadáver seria devorado pelas formigas. Não tinha revólver mas possuía arsénico por mim entesourado durante o meu eczema; a dose tería sido demasiada, ou foram os vómitos que anularam a acção do veneno e o rejeitaram? Não sei. Depois de uma noite de sofrimento atroz voltei, enfim, a casa. Durante todo o mês fui assaltado por forte pressão nas têmporas, tonturas, náuseas ao menor alimento. A resolução estava tomada para o mês de dezembro. Mas antes de morrer quis pintar uma grande tela que trazia na cabeça e, pelo mês fora, trabalhei dia e noite numa febre inaudita. Bolas, que não é uma tela feita como um Puvis de Chavannes, estudo ao natural, depois um cartão preparatório, etc. Tudo isso fiz a despachar, a ponta de pincel, numa tela de serapilheira cheia de nós e rugosidades. O aspecto resultou, assim, terrivelmente rude. Dir-se-á que é desleixado, não acabado. É verdade que não nos julgamos bem a nós mesmos mas creio, todavia, que esta tela não só ultrapassa em valor todas as precedentes como não farei outra melhor nem parecida. Antes de morrer, nela empreguei toda a minha energia, uma tal paixão doloroda e em circunstâncias tão terríveis, uma visão de tal forma nítida e sem correções, que o apressado se anula e a vida surge. Não cheira a modelo, a oficina, a pretensas regras que sempre violei, algumas vezes com medo. È uma tela de 4,50 x 1,70 mts, seu título: "De onde vimos? Quem somos? Para onde vamos? Terminei uma obra filosófica sobre este tema comparado ao Evangelho. Creio que está bem. Se tiver força para recopiar, mandá-la-ei.

Mulheres do Tahiti - fotografia -1890

Eu trabalhava febrilmente, duvidando de que não fosse duradoira aquela vontade. Retrato de mulher: Vahinê no te tiarê. Trabalhava depressa e com paixão. Foi um retrato parecido com aquilo que aperceberam os meus olhos velados pelo coração. Acima de tudo julgo que ficou parecido com o interior, esse fogo forte de uma pujança contida. Trazia uma flor na orelha, e esta ouvia-lhe o perfume. Na sua majestade, nas suas linhas sobre-elevadas, o rosto lembrava uma frase de Poe "Não existe beleza perfeita sem alguma singularidade nas proporções"

A Mulher com a Flor (Vahine no te Tiare) 1891 - óleo sobre tela, 70 x 46 cmts.