O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
sábado, 30 de janeiro de 2010
De um modo geral a população é muito pacífica
e só restam as multas para o delito de embriaguêz.
Nada possuindo, nada tendo para se distrair, os
naturais recorrem em tudo, e por tudo, à bebida
fornecida grátis pela natureza, isto é, sumos de laranja,
de flores de coco, de banana, etc. fermentados por alguns
dias e bem menos prejudiciais que os álcoois da Europa.
Depois desta proibição de beber, muito recente,
e que suprime um comércio lucrativo aos colonos, o
indígena só pensa numa coisa: em beber, fugindo para
isso dos centros e escondendo-se em qualquer lado.
Daí a impossibilidade de encontrar trabalhadores. Equivale
a dizer regresso a selvajaria. O gendarme, esse está
no seu elemento: a caça ao homem. Se, por um lado,
arranjais leis especiais que os impedem de beber,
enquanto os europeus e os negros podem fazê-lo, por outro
as suas palavras, as suas afirmações perante a justiça,
tornam-se nulas, e é inconcebível que lhes digam que são
eleitores franceses, que lhes imponham escolas e patacoadas
religiosas. Singular ironia, a desta consideração hipócrita de
Liberdade, Igualdade, Fraternidade sob uma bandeira francesa,
perante o desolador espetáculo de homens que não passam de carne
para contribuições de toda a espécie e para o arbitrário gendarme.
No entanto, obrigan-nos a gritar "Viva o senhor governador, viva
a República"
Carta a Georges-Daniel de Monfreid, Tahiti, fevereiro de 1897:
Mal chegou o correio, sem nada ter recebido de Chaudet, com
a minha saúde quase de repente restabelecida, isto é, já sem ter oportunidade de morrer naturalmente, quis matar-me. Fuí esconder-me
na montanha, aonde o meu cadáver seria devorado pelas formigas.
Não tinha revólver mas possuía arsénico por mim entesourado
durante o meu eczema; a dose tería sido demasiada, ou foram
os vómitos que anularam a acção do veneno e o rejeitaram?
Não sei. Depois de uma noite de sofrimento atroz voltei, enfim, a casa.
Durante todo o mês fui assaltado por forte pressão nas têmporas,
tonturas, náuseas ao menor alimento. A resolução estava tomada para o mês de dezembro. Mas antes de morrer quis pintar uma grande tela que
trazia na cabeça e, pelo mês fora, trabalhei dia e noite numa febre inaudita.
Bolas, que não é uma tela feita como um Puvis de Chavannes, estudo ao
natural, depois um cartão preparatório, etc. Tudo isso fiz a despachar, a
ponta de pincel, numa tela de serapilheira cheia de nós e rugosidades.
O aspecto resultou, assim, terrivelmente rude. Dir-se-á que é desleixado, não acabado. É verdade que não nos julgamos bem a nós mesmos mas creio,
todavia, que esta tela não só ultrapassa em valor todas as precedentes
como não farei outra melhor nem parecida. Antes de morrer, nela empreguei
toda a minha energia, uma tal paixão doloroda e em circunstâncias tão
terríveis, uma visão de tal forma nítida e sem correções, que o apressado se anula e a vida surge. Não cheira a modelo, a oficina, a pretensas regras que
sempre violei, algumas vezes com medo. È uma tela de 4,50 x 1,70 mts,
seu título: "De onde vimos? Quem somos? Para onde vamos? Terminei
uma obra filosófica sobre este tema comparado ao Evangelho. Creio que
está bem. Se tiver força para recopiar, mandá-la-ei.
Eu trabalhava febrilmente, duvidando de que não
fosse duradoira aquela vontade. Retrato de mulher:
Vahinê no te tiarê. Trabalhava depressa e com paixão.
Foi um retrato parecido com aquilo que aperceberam
os meus olhos velados pelo coração. Acima de tudo
julgo que ficou parecido com o interior, esse fogo
forte de uma pujança contida. Trazia uma flor na orelha,
e esta ouvia-lhe o perfume. Na sua majestade, nas suas
linhas sobre-elevadas, o rosto lembrava uma frase de
Poe "Não existe beleza perfeita sem alguma singularidade
nas proporções"
Carta a Charles Morice, Tahiti, julho de 1901: Hoje estou de rastos,
vencido pela miséria e, sobretudo, pela doença de uma velhice muito
prematura. Terei tempo de terminar a minha obra? Não ouso esperá-lo.
De qualquer modo faço um último esforço indo instalar-me no próximo mês,
em Fatu-iva, ilha das Marquesas quase antropófaga. Julgo que por lá, com esse elemento tão selvagem, a completa solidão, hei-de ter antes da morte um derradeiro fogo de entusiasmo capaz de rejuvenescer a minha imaginação e arranjar uma conclusão ao meu talento.
Carta a Charles Morice, Atuona, Ilhas Marquesas, abril de 1903: Tal como
previa no trabalho que te enviei, sobre a gendarmeria nas Marquesas,
acabo de cair numa esparrela dessa mesma gendarmeria e ser condenado.
É a minha ruína e un recurso talvez nada valha. De qualquer maneira, é preciso prever tudo e antecipar-me. Bem vês como tinha razão em dizer na carta anterior que agisses depressa e com energia. Se formos vencedores,
a luta será bela e terei feito uma grande obra nas Marquesas. Muitas
iniquidades serão abolidas e vale a pena sofrer por isso. Estou de rastos mas ainda não vencido. O índio que sorri no suplício está vencido? Decididamente, o selvagem é melhor do que nós. Um dia enganaste-te
afirmando que eu não tinha razão ao dizer que era um selvagem. É uma
verdade: sou um selvagem. E os civilizados presentem-no, porque nas minhas obras nada haveria de surpreendente ou desconcertante se não
fosse o "nao-sei-quê-de-selvagem". Por isso são inimitáveis.
Carta a Georges-Daniel de Monfreid, Atuona,
Ilhas Marquesas, Abril de 1903: Acabo de ser vitima de uma tramóia
horrível. Depois de alguns factos escandalosos nas Marquesas,
escrevi ao administrador pedindo que fizesse um inquérito sobre o
caso. Não pensei que os gendarmes fossem todos coniventes, o
administrador do partido do governador, etc... Acontece que o
tenente solicitou uma decisão jurídica a um bandido de juiz, às
ordens do governador e do procurador que eu atingi, me condenou (lei de julho de 1881 sobre a imprensa) por uma carta particular, três meses
de prisão 100 francos de multa. Tenho de ir fazer um recurso ao Tahiti.
Viagem, estadia, sobretudo despesas do advogado, quanto me vão custar?
É a minha ruína e a completa destruição da minha saúde. Todas estas
preocupações me matam.
Quando o destinatário recebeu a carta já Gauguin estava morto, desde 8 de maio
de 1903.
Auto-Retrato ou Em Golgatha, 1896 - óleo sobre tela , 76 x 64 cmts.
Depois de permanecer 2 anos em França, consumido em saudade do Tahiti
e em sífilis, Paul Gauguin regresou à Oceânia para os 8 anos finais da sua vida. A experiência itinerária do NOA NOA só iria encontrar proplongamento
numas breves páginas sobre o Tahiti e as Marquesas, hoje incluídas como
capítulo autónomo do seu livro Avant et Aprés. Solitário e cego, Gauguin morreu na madrugada de 8 de maio de 1903. A sua cabana foi comprada por um leiloeiro americano. Existe ainda um dado curioso nesse desfecho.
Tempos depois, a sua última tela intitulada "Cachoeira na mata", foi leiloada
"de ponta cabeça", título: "Paisagem na neve"...
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