terça-feira, 3 de abril de 2012

Atlas da Guerra Civil Espanhola - Cruz de San Fernando, formada por 4 punhais, que Franco se outorgou a si mesmo em maio de 1939, no primeiro aniversário da "Victória".


General Franco - Enciclopédia Abril


General Franco - detalhe


MEU CORAÇÃO É UM QUINTAL
a Maria Teresa León


A terra não é redonda:
é um quintal quadrado
onde giram os homens
sob um céu de estanho


sonhei que o mundo era
um redondo espetáculo
embrulhado no céu,
com cidades e campos
em paz, com trigos e beijos,
com rios, montes e lagos
mares onde navegam
corações e barcos.
mas o mundo é um quintal.
um quintal onde giram
os homens sem espaço.

Atlas da Guerra Civil Espanhola - Bandeira do CNT organização anarquista catalã


Atlas da Guerra Civil Espanhola - O poeta Miguel Hernández, soldado nas frentes de Teruel, Extremadura, Andaluzia e Levante, comisário de atividades culturais e propaganda, arengando aos combatentes. Feito prisioneiro, morreu no Reformatório de Adultos de Alicante em 1942


Atlas da Guerra Civil Espanhola - Os prisioneiros que escaparam de serem fusilados, foram recluidos em cárceres e campos de concentração, e utilizados como mão de obra barata.


MARCOS ANA - Colonia Penal de Burgos


as vezes quando subo
a minha janela, apalpo
com meus olhos a vida
de luz que eu vou sonhando.
e então eu digo "O mundo
é alguma coisa mais que um quintal
e estas lajes terríveis
onde estou a me consumir".
e escuto colinas livres,
vozes nos álamos,
a conversa azul do rio
que singe meu patíbulo.
"e a vida" me dizem
os aromas, o canto
vermelho dos pintassilgos,
a música no copo
branco e azul do dia.
o riso de um garoto...


Mas é sonhar desperto:
minha grade é o costado
dum sonho que da ao campo.
amanheço e já tudo
- fora dos sonhos - é quintal.
um quintal onde giram
os homens sem espaço.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Vincent Van Gogh - "A ronda dos prisioneiros" - óleo 1890 - (interpretação de uma gravura de Gustavo Doré)


tantos séculos faz já
que nasci emparedado,
que me esquecí do mundo,
de como canta a árvore,
da paixão que escende
o amor nos labios,
se as portas estão sem chaves
e outras mãos, sem pregos!
eu acredito já que tudo
- fora do sonho - é um quintal


Um quintal sob um céu
de cova, desgarrado,
que esfaqueiam e limitam
muros e pára-raios.


Já nem o sonho me leva
rumo a meus anos livres.
Já tudo, tudo, tudo
- até o sonho - é um quinta.
Um quintal onde gira
meu coração, pregado;
meu coração nu;
meu coração clamando;
meu coração, que tem
a forma gris de um quintal.


um quintal onde giram
os homens sem descanso
tradução: Eliseo Escobar

MARCOS ANA - Campanha pela anistia dos presos políticos espanhois durante a ditadura franquista - Japão


MARCOS ANA - Campanha pela anistia dos presos políticos espanhois durante a ditadura franquista - Inglaterra


Atlas da Guerra Civil Espanhola - Estatísticas sobre os mortos na guerra e vítimas da repressão.


Atlas da Guerra Civil Espanhola - João Miró - Cartaz solicitando ajuda para a Repúbica Espanhola


MARCOS ANA - Campanha mundial pela anistia dos presos políticos espanhois durante a ditadura franquista - Suiça


ROMANCE DAS DOZE MENOS UM QUARTO
(Noite velha na prisão de Burgos)


Camaradas, as doze,
todos os pulsos na hora;


Que soem como os sinos
em um sino, somente;
que fundam os corações
num coração e todos
os galhos do pulso sejam
árvores de luz na sombra.


Amigos, todos de pé:
sobre as montanhas vermelhas
de nosso sangue sem pulsos,
a voz erguida na boca.
Se alguém sentisse que tem
as asas do pulso rotas,
que as repare! as doze
todos os pulsos na hora





Atlas da Guerra Civil Espanhola - Voluntários das Brigadas Internacionais


Atlas da Guerra Civil Espanhola - Cartaz de propaganda do Partido Obrero de Unificación Marxista


quinta-feira, 29 de março de 2012

ouvi arrieiros da Alba!
ouvi pastores da aurora!
para conduzir o dia
com dura canção de rios;
que nas mãos criadoras
vão firmes as bengalas;
ir apartando as horas
derrubando a esfera
onde o tempo nos destroça.
tem que fazer nós a alma,
deixar pegadas nas rochas
esconder a espuma, o junco.
a breve luz das folhas
onde se dorme a lua...

Atlas da Guerra Civil Espanhola

Atlas da Guerra Civil Espanhola

Ser carvão vertiginoso,
pedra viva. monte o rio,
coração de cada coisa!
Camaradas, as doze
todos os pulsos em hora
se areia tem os teus;
se há gretas na tus voz, já rouca
de bater contra o muro;
amigo, se desfaleces
como uma erva apagada,
bebe na artéria sonora
de tua bandeira, na ferida
de teu povo, em cada pingo
de seu sangue fusilado.
desperta o raio dormido
que em teu coração repousa

Capa de antologia - Buenos Aires, Argentina 1963

MARCOS ANA - cartaz do pintor Juan Carlos Castagnino, anunciando 0 grande ato de acolhida ao poeta no ginásio Luna Park de Buenos Aires - 1963

Cartaz dos plásticos argentinos homenageando Marcos Ana, com motivo da sua passagem por Buenos Aires, Argentina em 1963

Camaradas, as doze,
todos os pulsos en hora;

Almas de aço incendiado
que ao mesmo vento rebolas
forjam o dia na bigorna
da dor, com forte aroma
de amanheceres que ninguém
poderá nos arrancar. não há tromba
de paredões, nem balas
nem foguetes, nem cordas
capaz de nos fazer de bois;
nosso pescoço não se dobra

olhai aqui, olhai para nos,
enquanto os muros soluçam,
cruzar o ano cantando,
rompendo a noite espanhola,
acariciando os ombros
dum crepúsculo sem costa.
olhai aqui, olhai para nos,
enquanto os muros soluçam,
sempre em pé, sem joelhos,
como carvalhos de gloria

camaradas, as doze,
todos os pulsos em hora.

tradução: Eliseo Escobar

MARCOS ANA - México 1960 - primeira edição dos "Poemas do Cárcere" com capa de Pablo Picasso

domingo, 11 de março de 2012

 MOEBIUS - França 1938 - 2012
Fotografia Documental
PIERRE (Fatumbi) VERGER

P.VERGER - "Autorretrato no espelho"

PIERRE (Fatumbi) VERGER - França 1902 - Brasil 1992
Antropólogo e fotógrafo, Verger destacou-se com mestria
na fotografia em preto e branco, muitos anos antes da "ditadura"
da foto-color como única opção, imposta pelos laboratórios,
e que acabou banalizando a imagem fotográfica. Verger percorreu
do inicio dos anos 30 até o final dos anos 40, os cinco continentes.
Durante esses vinte anos, gostava de descobrir, fosse a pé, 
de bicicleta, de ônibus ou de barco, as estradas, caminhos, florestas
e portos do planeta de preferencia em regiões geografica e culturalmente
distantes das sociedades ocidentais. Finalmente, após ter visto muitos países e culturas diferentes, encontrou a sua calma em um lugar chamado Boa Terra.
Esse era o nome pelo qual se chamava, na Bahia de antigamente, a sua capital,
Salvador. Muitas vezes se referiú a esta terra como a que reunia o que mais o impressionou: a constante lembrança da África, presente na cidade.
Em 1932 partiu para as ilhas do Pacífico, do Tahiti até a Ilha de Páscoa,
passando por muitas ilhas também visitadas pelo seu coterráneo Paul
Gauguin. Em 1934 integrou uma equipe para fazer uma volta ao mundo,
visitando os Estados Unidos, o Canal de Panamá, Japão, China e Filipinas.
Em contato com as milenares culturas orientais e suas filosofias de vida,
chegou a pensar por um determinado momento, a seguir a religião
budista. Mas ainda não satisfeito, continuou o seu caminho, sempre sem
maiores compromissos com os valores pregados pela sua cultura de origem.
Trocava constantemente as suas fotos por alimentação, hospedagem
ou transporte, colaborando nessas condições com diversos jornais da Europa
e da América Latina como: "Paris-Soir" 1937 - "Match" 1938 - "Argentina Libre", 
"Mundo Argentino" 1941-42 - "O Cruzeiro" 1946 - 1950. Viveu durante
décadas em Salvador, Bahia, retratando seu povo e os rituais da religião
afro-brasileira. Pesquisador profundo desse plano, chegou a ser investido
da função hierárquica de "babalaô" sacerdote de Ifá
trechos extraidos do texto "Uma Biografia Diferente" de Angela Lühnning
Diretora da Fundação Pierre Verger  

P. VERGER - "Rivière Noire" (LA) Vietnã 1938

P. VERGER - "Iforas (Adrar Dos) Mali 1935-36

P. VERGER - "Mercado" - Luang Probang, Laos 1938

sábado, 10 de março de 2012

P.VERGER - "Estrada de ferro" - Washington, Estados Unidos 1937

P. VERGER - "Charleston" - Estados Unidos 1934

P. VERGER - "Casamentos" - Pequim, China 1934

P. VERGER - "Infernillo" - La Paz, Bolivia 1942 - 1946

Lhe escrevo de Ketu, que agora é um pouco a minha cidade natal.
Há um mês, me tornei fatumbi (Ifá me trouxe de novo ao mundo).
Bem, sou obrigado a ser discreto sobre mais assunto.
Devo ou não dizer? (...)
Ketu é muito interessante, tal vez porque é muito isolada,
durante quatro meses somente consegue comunicação
com o resto do Daomé, nos outros oito meses, a região fica cortada
pela subida das águas de Orineme e os pántanos do Holli,
onde alguns kilómetros de estrada pelas suas condições não permitem
a passagem senão na estação seca.
Vivo em pleno vilarejo, saudado pelo título de babalaó,
do qual carrego no pulso esquerdo o bracelete de pérolas,
que me foi amarrado por meu oluwo; e o exibo tão orgulhosamente
quanto uma recente condecoração do "mérito agrícola".
A aldeia tem um aspecto um pouco abandonado, com casas em ruínas
e tetos caídos, os carneiros e cabras pastam por toda a parte e, à noite,
parecem tornar-se mais enraivecidos. Atormentados pelas centenas
de orixás aos quais eles serão sacrificados.
Eles se precipitam, berrando como furiosos pelas ruas.
Este aspecto da aldeia em ruínas é enganador, raramente vi aldeias
tão vivas. Quando a noite cai, as pessoas se juntam perto de uma pequena
feira noturna - muito animada, iluminada por centenas de pequenas
luminárias trêmulas dos vendedores agachados atrás de sua mercadoria.
Um verdadeiro balé de saudações, reverências, flexões dos joelhos,
inclinações de cabeça - muito variados - com desfile de panos coloridos
adornados à moda antiga. Todas as noites acontece uma festa
em algum lugar, na aldeia ou em uma fazenda dos arredores...
carta de Pierre Verger a Roger Bastide. Ketu - 16 de abril de 1953

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

É num caminhão que eu "embarco" para a Bahia.
Sua carta me chega em bom momento e tonifica ainda
o estado de entusiasmo e euforia em que me encontro.
Estou no maravilhoso momento que é para mim o da partida.
Experimento um sentimento que é o da libertação.
Em contraste com muitos dias de spleen provocados pela
dificuldade que tenho em me separar das coisas.
Cinco meses foram suficientes para criar ligações.
Minha estada aquí foi muito feliz.
Para voltar ao Recife eu pude, fora do meio dos cultos africanos,
estabelecer relações amigáveis em ambientes que eu não fiz mais
que ladear sem penetrá-los. Uma performance difícil para um filho
da "burguesia" europeia. Tornei-me amigo de pessoas de condições
muito modestas. Esta amizade nasceu durante uma viagem em cima
da carga de um caminhão durante uma turnê pelo interior de Pernambuco.
Moços negros de frete, participantes de um grupo de dançarinos
de bumba-meu boi, cheios de talento, divertidos, bebedores e bêbados,
lembram, em grande estilo, os cómicos da Idade Média. Tornamo-nos
"muito amigos". Eu os espero. Dois dentre eles vão me ajudar a carregar
as bagagens até o caminhão... E sinto que haverá numerosas libações
de aguardente. Fiz ontem, como despedida, a minha turnê pelos "altos"
(versão local das favelas do Rio) que rodeiam a cidade. Adeuses,
que me apertam o coração...
carta de Pierre Verger a Métraux, Recife, 24 de outubro de 1947

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"

P. VERGER - "Os povos"