sábado, 30 de janeiro de 2010

Auto-retrato dedicado ao amigo Daniel, 1897 - óleo sobre tela - 39 x 35 cmts.

Carta a Charles Morice, Tahiti, julho de 1901: Hoje estou de rastos, vencido pela miséria e, sobretudo, pela doença de uma velhice muito prematura. Terei tempo de terminar a minha obra? Não ouso esperá-lo. De qualquer modo faço um último esforço indo instalar-me no próximo mês, em Fatu-iva, ilha das Marquesas quase antropófaga. Julgo que por lá, com esse elemento tão selvagem, a completa solidão, hei-de ter antes da morte um derradeiro fogo de entusiasmo capaz de rejuvenescer a minha imaginação e arranjar uma conclusão ao meu talento.

Auto-Retrato com Cristo Amarelo, 1889 - óleo sobre tela, 38 x 46 cmts.

Carta a Charles Morice, Atuona, Ilhas Marquesas, abril de 1903: Tal como previa no trabalho que te enviei, sobre a gendarmeria nas Marquesas, acabo de cair numa esparrela dessa mesma gendarmeria e ser condenado. É a minha ruína e un recurso talvez nada valha. De qualquer maneira, é preciso prever tudo e antecipar-me. Bem vês como tinha razão em dizer na carta anterior que agisses depressa e com energia. Se formos vencedores, a luta será bela e terei feito uma grande obra nas Marquesas. Muitas iniquidades serão abolidas e vale a pena sofrer por isso. Estou de rastos mas ainda não vencido. O índio que sorri no suplício está vencido? Decididamente, o selvagem é melhor do que nós. Um dia enganaste-te afirmando que eu não tinha razão ao dizer que era um selvagem. É uma verdade: sou um selvagem. E os civilizados presentem-no, porque nas minhas obras nada haveria de surpreendente ou desconcertante se não fosse o "nao-sei-quê-de-selvagem". Por isso são inimitáveis.

Palavras do Demónio (Eva) 1892 - pastel, 76/5 x 35/5 cmts.

Quando Te Casas?, 1892 "Nafea Faa Ipoipo?" - óleo sobre tela, 101/5 x 77/5 cmts.

Rapariga de Cócoras no Tahiti, 1892 (estudo) lápiz, carvão e pastel , 53/3 x 47/8 cmts.

Carta a Georges-Daniel de Monfreid, Atuona, Ilhas Marquesas, Abril de 1903: Acabo de ser vitima de uma tramóia horrível. Depois de alguns factos escandalosos nas Marquesas, escrevi ao administrador pedindo que fizesse um inquérito sobre o caso. Não pensei que os gendarmes fossem todos coniventes, o administrador do partido do governador, etc... Acontece que o tenente solicitou uma decisão jurídica a um bandido de juiz, às ordens do governador e do procurador que eu atingi, me condenou (lei de julho de 1881 sobre a imprensa) por uma carta particular, três meses de prisão 100 francos de multa. Tenho de ir fazer um recurso ao Tahiti. Viagem, estadia, sobretudo despesas do advogado, quanto me vão custar? É a minha ruína e a completa destruição da minha saúde. Todas estas preocupações me matam. Quando o destinatário recebeu a carta já Gauguin estava morto, desde 8 de maio de 1903.

Música Bárbara, 1891/93 - aquarela sobre seda, 12 x 12 cmts.

Três Tahitianos (Conversa no Tahiti), 1899 - óleo sobre tela, 73 x 94 cmts.

Raparigas com Flores de Manga (Mulheres do Tahiti), 1899 - óleo sobre tela, 94 x 72 cmts.

A Rainha da Beleza, 1896 "Te Arii Vahine" - aquarela - 17,2 x 22,9 cmts.

Auto-Retrato ou Em Golgatha, 1896 - óleo sobre tela , 76 x 64 cmts.

Depois de permanecer 2 anos em França, consumido em saudade do Tahiti
e em sífilis, Paul Gauguin regresou à Oceânia para os 8 anos finais da sua vida. A experiência itinerária do NOA NOA só iria encontrar proplongamento
numas breves páginas sobre o Tahiti e as Marquesas, hoje incluídas como
capítulo autónomo do seu livro Avant et Aprés. Solitário e cego, Gauguin morreu na madrugada de 8 de maio de 1903. A sua cabana foi comprada por um leiloeiro americano. Existe ainda um dado curioso nesse desfecho.
Tempos depois, a sua última tela intitulada "Cachoeira na mata", foi leiloada
"de ponta cabeça", título: "Paisagem na neve"...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Sete Noites"

"Sete Noites"

"As Mamas de Tirésias" de Guillaume Apollinaire - 1985

I

II

III

IV

V

"O Cemitério Marinho" de Paul Valéry - 1984

"As Canções de Bilitis" de Pierre Louys - 1984

"O Nariz" e "A Terrível Vingança" de Nicolai Gógol - 1986

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

MARCEL VILLIER RIBAS ARQUITECTURA I PAISATGE DE MENORCA

Marcel Villier Ribas

PEQUENA CRONOLOGIA / 1948 - Chego ao mundo em Barcelona, na primavera / 1957-64 - Por motivos familiares (meus pais eram artistas) começo a detestar a arte e os artistas. Na minha casa só se falava nesse tema / 1962-66 - Trabalho como ourives em varios ateliers / 1964 - Conheço Jordi Batiste, Arnau Alemany e Jaune Sisa. Influenciado por eles, começo a me interessar por fotografia e cinema. Estudo na escola de cinema Aixela, dirigida por Pere Portabella (tudo isto depois de assistir Blow-Up de Antonioni) e na escola Massana / 1968 - Conheço Remei Margarit e colaboro com trabalhos fotográficos para a editora "Ciclope". Descubro a boa música, Bach, Beatles, Bob Dylan, Incredible, String Band, Música dispersa. Me reconcilio com a arte (assim é a vida). / 1970 - Conheço Josep Mascaró e logo depois começo a desenhar. Diferente de outros oficios, o desenho comporta grande economia de recursos materiais, pode ser realizado em qualquer lugar e a qualquer hora sem grandes preocupações com suportes e técnicas. / 1972 - Descubro Menorca como Colón descubriú América, por casualidade. Conheço Regan Bice, arquiteto que me ensina a enxergar a magia da arquitetura vernácula menorquina. Também conheço a Rafael Trénor, que me ajuda a sentir a poesia e a prehistória islenha, e a Susan Unger, com quem vivo a arte inspirada pela paisagem menorquina. / 1973 - Passo um ano nos Estados Unidos e Canadá onde reviso a história da arte. Descubro a arte oriental e vejo a pintura de Leonardo, Rembrandt, Picasso, Matisse, Miró, Dalí e muitos outros. / 1974 - Volto a Menorca onde resido definitavamente. Não parei de desenhar até hoje. / 1974 - 2005 - Realizo diversas exposições nos Estados Unidos, França, Alemanha, Madrid, Barcelona e Menorca. / 1980 - Nasce a minha primeira filha, Ona / 1982 - Um brilhante acontecimento: conheço Núria Gavin com quem compartilho vida e trabalho. Na nossa estreita colaboração, ela fabrica com as suas mãos o papel em que desenho. / 1988 - Nasce minha segunda filha: Cora. / 2001 - Começo a preparar o livro "Arquitetura e Paisagem de Menorca". / 2006 - Aquí, nas vossas mãos, o fruto de parte da minha vida. / MARCEL VILLIER RIBAS

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ilha do Rei - A faixa de luz se desenha no Oriente, frente a la Mola - 1990 / 28 x 37 cmts. - aquarela

Después de haber cavado este barbecho / me tomaré un descanso por la grama / y beberé del agua que en la rama / su esclava nieve aumenta en mi provecho. // Todo el cuerpo me huele a recienhecho / por el jugoso fuego que lo inflama / y la creación que adoro se derrama / a mi mucha fatiga como un lecho. // Se tomará un descanso el hortelano / y entretendrá sus penas combatido / por el salubre sol y el tiempo manso. // Y otra vez, inclinando cuerpo y mano, / seguirá ante la tierra perseguido / por la sombra del último descanso. MIGUEL HERNÁNDEZ - de: "El Rayo que no Cesa"

Santa Elisabet - 1991 / 25 x 34 cmts. - tinta sumi-e

"Porta velha III" - Sobe a hera no muro, e na parede pulsa a vida - 2000 / 21 x 28 cmts. - aquarela

Costa Norte do Passo do Touro - 1987 / 28 x 38 cmts. - tinta sumi-e

Porteira velha - 2000 / 30 x 22 cmts. - tinta sumi-e

"Na minha moradia não tem luxo nem riqueza, só beleza" - 1997 / aquarela 20,5 x 28 cmts.

Estrada - 1975 / gravura em metal 9,5 x 12 cmts.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

MOACYR FÉLIX DE OLIVEIRA - Rio de Janeiro 1926 -2005 /
Filósofo graduado na Sorbone e advogado. Foi fundador
e diretor de importantes publicações culturais, principalmente
de poesia. Integrante da chamada "Geração de 45". De 1956 a 1958,
foi responsável pela seção de poesia do jornal cultural Para Todos,
editado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), e dirigido por
Jorge Amado e Oscar Niemeyer. Em 1962 e 1963, foi organizador
e prefaciador dos três volumes da série Violão de Rua, seleção
de varios poetas em livro de bolso, feita para o Centro Popular de Cultura
(CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), interrompida pelo
golpe militar de 64. Foi também diretor, de 1963 a 1971, da Coleção
Poesia Hoje, da editora Civilização Brasileira, que juntamente com as
coleções Poesia Sempre e Poesia Viva, publicaria mais de uma centena
de poetas, em sua maioria jovens estreantes de várias partes do país,
e alguns já então se consagrando ou consagrados, como Carlos Nejar,
Paulo Mendes Campos, Affonso Romano de Sant'Anna, Mario Faustino,
Joaquim Cardoso, Dantas Motta, Nauro Machado, Geir Campos, José
Godoy Garcia, Fernando Mendes Viana, Ivan Junqueira, entre
outros. Nesse meio tempo, em 1956, foi membro do conselho diretor,
e depois, de fins de 1966 até 1972, foi diretor da coleção Perspectivas
do Homem, que compreendia mais de uma centena de livros de filosofia,
política, sociologia, estética e economia, publicada pela editora Civilização
Brasileira, então propriedade do editor Ênio Silveira. Em 1965, Moacyr Félix
foi do conselho de redação e depois secretário da famosa Revista da
Civilização Brasileira, editada por Ênio Silveira. Em 1966, tornou-se
diretor desta revista que foi um marco na história cultural do país, ajudando a
formar toda uma geração de brasileiros. No mesmo ano, foi também um dos idealizadores, junto com Ênio Silveira, da editora Paz e Terra. Durante anos,
até 1972, ocupou alí o cargo de diretor. Alí, ainda, foi secretário, desde a
fundação, e diretor, em 1969, da revista Paz e Terra, fundada em 1966 e
criada com o abjetivo de ser centro de autores e idéias favoráveis aos
valores do humanismo e à incrementação filosófica do movimento da
Teologia da Libertação. Em abril de 1986, Moacyr Félix foi protagonista
de um feito inédito. Em ligação direta do Rio de Janeiro, leu para os
tripulantes da espaçonave Myr, na órbita da Terra, o seu poema que comemorava os 25 anos da subida do primeiro cosmonauta, Yuri Gagarin,
ao espaço. Simultaneamente, seu texto era transmitido em russo para toda
a União Soviética. Foi casado desde 1952 com a sueca Brigitta Lagerblad ( a Kaj) com quem teve três filhos. / OBRA: "Cubo de Trevas" (poemas de 1944
a 1948) Rio de Janeiro - Agir, 1948 / "Lenda e Areia" - Rio de Janeiro -
revista Branca 1950 / "Itinerário de uma Tarde" - Karlshamm (Suécia),
Ragnar Lagerblad Förlag 1953 / "O Pão e o Vinho" (poemas de 1953 a 1959)
Rio de Janeiro, Antunes 1959 / "Canto Para as Transformações do Homem" -
Rio de janeiro - Civilização Brasileira 1964 / "Um Poeta na Cidade e no Tempo" - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1966 / "Canção do Exilio Aquí" - Rio
de Janeiro - Civilização Brasileira 1977 / "Invenção de Crença e Descrença" -
Rio de Janeiro - Civilização Brasileira 1978 / "Em Nome da Vida" - Rio de
Janeiro - Civilização Brasileira - São Paulo - Massao Ohno 1981 / "Neste Lençol" - Rio de Janeiro - Civilização Brasileira 1977 /
"Singular Plural" - Rio de Janeiro - Editora Record 1998 /
"Introdução a Escombros" - Rio de Janeiro - editora Bertrand do Brasil 1999

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

NO MEIO DE TUDO ISSO
A China a vender fuzis para os soldados de Pinochet. / O Afeganistão invadido pelas tropas soviéticas que matam e morrem, / entre as montanhas em que o Pentágono desenha Tróias e desastres. / O Oriente Medio servindo de pasto as maquinações da CIA. / O Camboja inteiramente ensangüentado pelo "marxismo" de Pol Pot. / Salvadorenhos são mortos pelas armas made in USA. / Argentinos, brasileiros, bolivianos e chilenos aprendem nos EUA / como torturar argentinos, brasileiros, bolivianos e chilenos.

TRIMANO - Poster poema / nanquim e cor aplicada - Editora Europa / Rio de Janeiro 1986

A ONU a reunir-se com senhores de gravata / fotografados e sempre sorrindo, sorrindo. / Há mais de vinte milhões de menores abandonados neste país / em que velhos definham lambendo o tronco das árvores, / tão áspero como a pensão dos que não têm mais nada para alugar. / A URSS financiou os que metralharam comunistas na Eritréia? / A mesma URSS que apóia uma claridão cubana e ainda adolescente / no Caribe cercado por uma escuridão de lingua inglesa? / Não sei, mas sei que a certeza se espadana no próprio anzol / das incertezas colhidas pelo coração que sofre, pensa e faz. / Sei que a imprensa mente, a televisão mutila e a liberdade morre / sob a ordem em que se tece o mando de poucos e a submissão de muitos. / E que Ronald Reagan é uma figura de gomalina e creme contra as rugas / entronizada por quatrocentos empresários que mastigam o século / em chicletes que se esticam como a corrupção nos que governam.
E eu no meio de tudo isso? E eu / na poeira de tantas perguntas sem resposta / na veia aberta para o vazio e para a história / ou sobre a colcha amarrotada pelos rodopiáres da volúpia / o tapete manchado pelo pipi da cachorrinha / a lista de impostos a pagar / e as latas da memória, usadas, tão a esmo usadas / pelos pincéis de uma bêbada lembrança?

Fotomontagem - Revista OPUS Internacional 1970/80

O que eu não posso, em meu poema, é continuar / almoçando letras de jornais e teses de doutorado / enquanto a noite nos espera com desertos / no final de cada luz em que se apaga o dia / com a fome de todas as verdades que não estavam / nas letras dos jornais e nas teses de doutorado. / O que eu não posso é continuar / perguntando "E eu com tudo isso?" / enquanto cada ato que faço me insere / na própria face de tudo isso que indago.

Fotomontagem - Revista OPUS Internacional 1970/80

O que eu não posso, aquí, é nestas ruas aceitar-me / digitado sem o perfil das minhas sombras / na sombra dos que não me vêem e se fizeram / cães de guarda do poder em que se alienam Estado e ideologias. / O que não posso é sentir-me em tudo isso e não ser / a ferida aberta na grande curva do horizonte / pelo uso dos medos que se fardam / com a escuridão acumulada nas injustiças da riqueza. / O que eu não posso é pensar tudo isso sem pensar-me / sob os vendavais de uma carta que se queima / no olho sempre aberto dos Guevaras deste século. // O que eu não posso é padecer isso tudo e não fazer-me / lenha a queimar-se no calor das praças. / Numa alegria passiva, alí, o povo é reunido / com anima enganada e ainda incônscio / de ser ele, com suas mãos e o seu suor, a força / que move nos porões da história principal / as alavancas do dia e o chão das coisas inventadas. / Mentirosos, os holofotes iluminam os atores e as atrices / das glórias de ter fingido o ser / a voz dos que são pobres, a voz dos que não têm / condições iguais de microfone e luz.
O que eu não posso é perguntar como indivíduo e não / ver a beleza da vida a singularizar-se erótica / na mulher que nada na sua quase nudez numa piscina / como se fosse, ela própria, um recado azul / para os desejos da noite em minha retina. / Perguntar por tudo isso, como poeta, e não ler / além dos diccionários o tempo que circula / o dia de amanhã sob outros mundos esboçado / para o menino que bebe o leite e perde o pão / numa cozinha do tamanho do mundo em que penso.

fotomontagem - Revista OPUS Internacional 1970/80

Não posso é perguntar assim e não marcar no mapa / o caminho, o longo caminho, o difícil caminho / das mentes que se carregam como um fósforo aceso / nos escuros. O que devo, eu sei, é sempre relembrar-me / que a utopia é necessária, que o nosso ar é o das imagens / em que a necessidade morre e o ser humano dança / entre as nuvens e com a Terra inteira nas mãos. // Porque a vida humana é um perguntar que anda / e viver, por isso mesmo, é ser a boca da luz / em que se gera o sol. Porque essencialmente somos / a fome do fogo em que ele existe / a ondular o mar, a fabricar as chuvas e a iluminar / os olhos do amanhecer que sempre volta / depois que a noite leva os mortos. // Não posso é ver tudo isso sem ver-me também / quebrado entre todas as vidas que se quebram / no dia do homem a compor-se em mil pedaços / que as atuais definições da história não definem. / O que eu não posso é deixar de recolher / em cada detalhe o vulto veloz de uma totalidade / que se apaga e que se acende, súbito clarão / de um farol a iluminar-nos em cada ato que fazemos. / E continuar, portanto, perguntando, perguntando / até que a morte não traga mais pergunta alguma / em sua eternidade oca e sem resposta alguma. MOACYR FÉLIX - de Antologia Poética / Editôra José Olimpio - Rio de Janeiro 1981

domingo, 10 de janeiro de 2010

Ontem é Hoje ou Histórias de Agora TRIMANO - Série "O Negro" - estudos de cabeças sobre fotografias de Christiano Junior / caneta esferográfica / 2001
"O objetivo claro na série O Negro, diz Trimano, é "a intenção é mostrar a história desta gente através de papéis rasgados". Na história do apagamento da memória, houve a ordem do Ministro da Fazenda Rui Barbosa em 14 de dezembro de 1890 de queima de todos os papéis, livros de matrícula, documentos cartoriais e registros fiscais relativos à escravidão existentes em órgãos de sua Pasta. Os motivos eram extirpar a "mancha negra" da escravidão, embora visassem preservar o Tesouro das reivindicações de indenização dos antigos senhores escravocratas. No entanto, o que foi apagado lá permaneceu - no pequeno gesto, no olhar trocado com a câmera, no grão da voz no seu silêncio, no fundo da alma - mas não víamos, Foi mais conveniente "queimar" a memória da "mancha negra" por razões de Estado (elas discrepariam fundamentalmente das razões da clase dominante?) do que manté-las vivas como testemunho. Porque esqueceram de perguntar aos ex-escravos se era possível esquecer as provas, ainda mais necessárias hoje. Trimano recupera a câmera discreta de Christiano Junior, com sua serena organização dos corpos e oficios dos escravos, para lançá-la no centro da "tragédia humana" brasileira: O Negro . A literatura de Joseph Conrad abordou a falência do discurso eurocêntrico e do projeto colonial europeu, Trimano trabalha esta falência como base remota, mas concreta, do atual sistema de desigualdades sociais no Brasil. A espesura da dominação no Brasil em pleno século XXI (regime de escravidão rural, imobilidade social, formas de racismo, concentração estadual de renda gerando colonialismo interno crescente, etc) ganham sua espesura histórica. Trimano converte a fotografia de Christiano Junior - mesmo se nelas os escravos aparentavam não sofrer torturas - numa espécie de diagrama da opacidade social do presente. O esforço é de montagem, cesura. A dolorida história se costura por arames farpados e ramagens de espinho. O Negro se posta como lugar do não esquecido, porque é impossível esquecer." ____________________________________________________________________________ "Em Vigiar e Punir, Michel Foulcault tratou do modo como a criminologia administrou historicamente o corpo dos condenados. Foulcault discutiu a distribuição dos corpos na arquitetura dos presídios, como panóptico, desenvolvido na Europa a partir do século XVIII. Na escravidão, os corpos eram aprisionados por objetos, extensão deles próprios, como os troncos e gargalheiras. Este foi um temário da iconografia européia do século XIX, de artistas como Debret e Rugendas. Trimano trata de modo analítico de uma prisão do corpo pela história. Foulcault e Franz Fanon trataram do indivíduo apropriado pelo medo e pela internalização dos valores e procedimentos da dominação. Por isso, cada desenho de O Negro é um lugar imaginário do corpo. Na série, Trimano intercala seus estilemas - moedas, prato vazio, o peso, os pedaços de fita gomada simulando emendar as partes rasgadas - com uma construção simbólica que se dá como alegoria, metáfora ou também desconstrução do imaginário cordial brasileiro, entre o monumento antropológico de Gilberto Freire e a crítica social de Sergio Buarque de Holanda" / PAULO HERKENHOFF - Rio de Janeiro 26 de outubro de 2004 Trechos do texto de apresentação da exposição "Série "O Negro", estudos sobre a fotografia de Christiano Junior" / Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro - 2005 ___________________________________________________________________

Cabeça I

Cabeça II

Cabeça III

Cabeça IV

Cabeça V

Cabeça VI

Cabeça VII

Cabeça VIII

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cabeça IX

Cabeça X

Cabeça XI

Cabeça XII

OS POETAS / TONINHO VAZ / BRASIL 3 biografias

foto: Fernando Angulo

ANTONIO CARLOS MARTINS VAZ (Toninho Vaz) / Curitiba 1947. É jornalista e roteirista de televisão. Começou escrevendo no Diário do Paraná, em 1969. Foi editor e colaborador de diversos jornais alternativos nos anos 70 e 80 - Anexo, Raposa, Polo Cultural, Pasquim, Nicolau. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1974. É casado com Naná Gama e Silva e tem uma filha, Maria Carolina. Trabalhou como editor de texto na Rede Globo durante quatorze anos. De 1995 a 1998 viveu em Nova York. Atualmente mora e trabalha em Santa Teresa, Rio de Janeiro / ______________________________________________________ (Estes 3 livros que escrevi na década que se encerra, retratam as vidas e as obras de dois poetas e um empresário pioneiro no cinema comercial.)
A biografia de Paulo Leminski, chamada "O Bandido que Sabia Latim, foi publicada em 2001 e está na terceita edição. A pesar de ter convivido com o personagem (meu amigo Paulo), produzí mais de 40 entrevistas ao longo de dois anos de pesquisas. Para não haver confusão, fiz uso de um código gráfico na narrativa: sempre que o texto aparece na primeira pessoa, produzindo um depoimento pessoal, a fonte aparece em itálico. / Editora Record
Este livro vai contar a história de Paulo Leminski Filho, o mais iluminado e reverenciado poeta curitibano. Esta biografia não pretende analisar o valor de sua obra e nem discutir a qualidade de seu trabalho - tarefa esta que deve ser delegada a quem de direito: os críticos literários. Aquí se pretende fornecer elementos que possam explicar a existência e a personalidade de um intelectual tão singular e criativo como Paulo Leminski, poeta responsável pela insurreição da fantasia, o autodenominado "cachorrolouco", "a besta dos pinheirais", "o ex-estranho", "o que chegou sem ser notado". / TONINHO VAZ ____________________________________________________________________
PAULO LEMINSKI FILHO / Curitiba - 1944 - 1989 / Mestiço de pai polonés e mãe negra. A sua poesia recebeu influências do haicai e dos ditados populares. Em 1958 , aos 14 anos foi para o Mosteiro de São Bento em São Paulo e lá ficou o ano inteiro. Leminski, que era amigo dos paulistas Decio Pignatari e Haroldo de Campos, que o definiú como "Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos, como se fosse um discípulo Zen do Bashô", fez a sua estreia em 1964, na revista "Invenção", dirigida por Pignatari. A música sempre esteve relacionada com a sua obra, uma de suas paixões, chegando a produzir letras em parceria com os principais compositores e intérpretes da MPB. Entre 1984 e 1986 foi tradutor de Alfred Jarry, James Joice, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett e Yukio Mishima. Leminski foi um estudioso da lingua e a cultura japonesas, e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. Alem de escritor, também era faixa preta em judó. A sua obra marcou todos os movimentos poéticos dos últimos 30 anos. "O Bandido que Sabia Latim" era, segundo o definiú Caetano Veloso "uma mistura de concretismo com beatnik". / TRIMANO - 2010
"...o pauloleminski / é um cachorro louco / que deve ser morto / a pau e pedra / a fogo e a pique / senão é bem capaz / o filhodaputa / de fazer chover / em nosso piquenique..." - P.L

foto da capa: Dico Kremer

SUMÁRIO / Prefácio: O tal das químicas / Capítulo I: A Plenos pulmões / Capítulo II: Uma luz na cidade / Capítulo III: A vida no mosteiro e além / Capítulo IV: Curitiba, por trás da neblina / Capítulo V: Com o diabo no corpo / Capítulo VI: Delírios e noites cariocas / Capítulo VII: O dia da criação / Capítulo VIII: A cruz do Pilarzinho / Capítulo IX: O poeta descalço / (O resto imortal) / Capítulo X: Perhappines _______________________________________________________________
TORQUATO NETO - Teresina / Piauí 1944 - Rio de Janeiro 1972 / Poeta e jornalista. Foi um dos mais importantes letristas do "Movimento Tropicalista", criado no inicio dos anos 60, junto com Caetano Veloso, Gilberto Gil, José Carlos Capinan e Jards Macalé. Disse: "Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido". Também participou do chamado "Cinema Marginal", junto ao cineasta Ivan Cardoso e ao artista plástico Hélio Oiticica. Em 1971, farto da opressão do regime militar e do "patrulhamento ideológico do esquerdismo", escreve a Oiticica "O chato Hélio, aquí, é que ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma. É o que eu chamo de conformismo geral, é isso mesmo, a burrice, a queimação de fumo o dia inteiro, aquí é escapismo. Em fim poesia sem poesia, papo furado, ninguém está em jogo, uma droga. Tudo parado, odeio". Torquato se matou um dia depois do seu 28 aniversário em 1972. Depois de voltar de uma festa, trancouse no banheiro e abriú o gas.