domingo, 6 de dezembro de 2020

TRIMANO ARTE VISUAL

Série O Poema Ilustrado

Ilustrações para o poema "A Última" de W. S. Merwin

hidrográfica e esferográfica

"El Barco" - Edição virtual - Monte Alto - Rio de Janeiro - 2020



 

W. S. MERWIN

Estados Unidos 1927 - Havaí 2019

Poeta norte-americano pós-modernista.

Durante o movimento anti-guerra em 1960, 

caracterizou-se por uma narrativa indireta, sem pontuação.

Nas décadas de 1980 e 1990, a sua poesia esteve

centrada na filosofia budista e na ecologia.

 

A ÚLTIMA

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "A Última" - hidrográfica e esferográfica - 2020


 

Eles decidiram estar por toda parte. Por que não?

Todos os lugares eram deles porque sim.

Eles tinham mãos de láminas e tinham o desprezo dos                                                                                        pássaros.

No caminho que fica entre as pedras, decidiram.

E então começaram a derrubar.


E eles cortaram tudo. Por que não?

Todas as coisas eram deles porque era assim que eles                                                                                   pensavam.

Ela caiu em suas próprias sombras e eles a levaram.

Alguma coisa para ter, alguma coisa para guardar.


Cortando tudo eles chegaram até a água.

E quando o dia acabou ainda restava uma de pé.

Eles foram embora e deixaram para derrubá-la no dia 

                                                                        seguinte.

A noite aninhou-se nos seus últimos galhos.

A sombra da noite juntou-se à sombra sobre a água.

A noite e a sombra formaram uma só cabeça.

E a que restava decidiu que ficaria.


Pela manhã eles cortaram o que restava.

Como as outras a última caiu em sua própria sombra.

Em sua própria sombra sobre a água.

Eles a carregaram a sombra permaneceu na água.


Eles encolheram os ombros e começaram a tentar remover

                                                                                a sombra.

Cortaram até o nível do chão a sombra continuou intacta.

Cobriram a sombra de tábuas ela apareceu por cima.

Iluminaram a sombra ela ficou mais escura mais brilhante.

Explodiram a água a sombra balançou.

Decidiram fazer uma enorme fogueira com as raízes.

Uma fumaça negra subiu entre a sombra e o sol.

A nova sombra se espalhou sem alterar a antiga.

Eles encolheram os ombros foram buscar pedras.


Voltaram e viram que a sombra estava crescendo.

Atiraram pedras sobre ela ela continuou crescendo.

Enquanto olhavam para os lados, ela continuava crescendo.

Decidiram transformar aquilo tudo em pedra.

Trouxeram mais pedras e as jogaram sobre a sombra.

A sombra se sobrepunha sem fim e continuava crescendo.

Isso foi um dia.

Na manhã seguinte aconteceu o mesmo ela continuava                                                                                    crescendo.

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "A Última" - detalhe


 

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "A Última" - hidrográfica e esferográfica - 2020


 

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "A Última" - detalhe


 

Eles tudo fizeram tudo permaneceu igual.

Resolveram retirar a água debaixo da sombra.

Retiraram e a água baixou de nível.

A sombra continuou no mesmo lugar de antes.

Continuou crescendo e se espalhou pela terra.

 Eles começaram a raspar a sombra com máquinas.

As máquinas tocavam nela ela penetrava nas máquinas.

Eles começaram a tratar a sombra a porradas.

Quando os paus atingiram a sombra ela penetrava neles.

Eles começaram a bater na sombra com os punhos.

Quando os punhos batiam na sombra ela penetrava neles.

Isto foi no outro dia.


No dia seguinte eles começaram tudo de novo ela continuou

                                                                                crescendo.

Acenderam luzes contra a sombra.

Por onde a sombra passava as luzes se apagavam.

Começaram a pisar na margem da sombra e ela agarrou

                                                                                  seus pés.

E quando a sombra agarrou seus pés eles caíram.

E quando ela alcançou seus olhos eles ficaram cegos.

A sombra cresceu sobre os que caíram e eles sumiram.

Os que podiam enxergar ficaram parados.

Os que ficaram cegos e entraram nela sumiram

suas sombras foram engolidas.

Depois os seus corpos foram engolidos.

Então os outros fugiram.

Os sobreviventes saíram pelo mundo e viveriam se a sombra

                                                                          lhes permitisse.

Foram o mais longe possível.

Os que tinham mais sorte levando suas sombras.


tradução: Nei Leandro de Castro

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "A Última" - hidrográfica e esferográfica - auto-retrato - 2020


 

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "A Última" - hidrográfica e esferográfica - 2020


 

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "A Última" - detalhe


 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

 LUIS TRIMANO ARTE VISUAL

Ilustrações para poemas de Galway Kinnel

hidrográfica e esferográfica

"El Barco" - Edição virtual - Monte Alto - Rio de Janeiro - 2020

 GALWAY KINNEL

Providence - Estados Unidos 1927

Sheffield - Estados Unidos 2014


 

RASTO DE VAPOR REFLETIDO 

NO PEQUENO TANQUE DE SAPOS

 

1

Os velhos sapos vigiam: seus

olhos turvos incham e fecham-se com a lua. Os jovens,

cabeças seguidas do início de pescoço

tremem,

na certeza de que serão corpos.

 

No pequeno tanque

a trilha de vapor de um bombardeiro rasteja,

 

Eu ouço o seu zumbido, vagando, no alto

em ozônio imaculado.

 

2

E eu ouço,

vindo das colinas, a América cantando,

seus cantos variados eu ouço:

estampidos de rifles dos delegados praticando sua pontaria

em cães vadios

á noite,

estalido de chicotes nas costas dos negros

TV gemendo com os odores do corpo humano,

praguejamento do soldado enquanto ele envenena,

queima, tritura,

e apunhala o arroz do mundo,

de boca aberta, gritando alto, pragas histéricas.

 

3

E nos arrozais na Ásia

ossos

vestindo algumas sombras

caminham por uma estrada poeirenta, sanguesugas

esmagadas nos seus calcanhares, sabendo

que a carne que um homem joga ao sol

os cães comerão

e a carne que é atirada ao ar

será agarrada por pássaros,

omoplatas lisas, sem velhas marcas de penas,

mãos cortadas de azul

por filetes erráticos de sangue,

olhos enrugados

enquanto fitam o sol à deriva que nos dá nossas vidas

semente ofuscada com o fulgor da terra gasta pelos pés.

 

Galway Kinnel

tradução: César Augusto R. de Almeida 

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "Rasto de vapor refletido no pequeno tanque de sapos" de Galway Kinnel - hidrográfica e esferográfica - 2020


 

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "Rasto de vapor refletido no pequeno tanque de sapos" de Galway Kinnel - detalhe


 

TRIMANO ARTE VISUAL - Série O Poema Ilustrado - "Rasto de vapor refletido no pequeno tanque de sapos" - de Galway Kinnel - hidrográfica e esferográfica - 2020