sábado, 30 de janeiro de 2010

Eu trabalhava febrilmente, duvidando de que não fosse duradoira aquela vontade. Retrato de mulher: Vahinê no te tiarê. Trabalhava depressa e com paixão. Foi um retrato parecido com aquilo que aperceberam os meus olhos velados pelo coração. Acima de tudo julgo que ficou parecido com o interior, esse fogo forte de uma pujança contida. Trazia uma flor na orelha, e esta ouvia-lhe o perfume. Na sua majestade, nas suas linhas sobre-elevadas, o rosto lembrava uma frase de Poe "Não existe beleza perfeita sem alguma singularidade nas proporções"

A Mulher com a Flor (Vahine no te Tiare) 1891 - óleo sobre tela, 70 x 46 cmts.

Auto-retrato dedicado ao amigo Daniel, 1897 - óleo sobre tela - 39 x 35 cmts.

Carta a Charles Morice, Tahiti, julho de 1901: Hoje estou de rastos, vencido pela miséria e, sobretudo, pela doença de uma velhice muito prematura. Terei tempo de terminar a minha obra? Não ouso esperá-lo. De qualquer modo faço um último esforço indo instalar-me no próximo mês, em Fatu-iva, ilha das Marquesas quase antropófaga. Julgo que por lá, com esse elemento tão selvagem, a completa solidão, hei-de ter antes da morte um derradeiro fogo de entusiasmo capaz de rejuvenescer a minha imaginação e arranjar uma conclusão ao meu talento.

Auto-Retrato com Cristo Amarelo, 1889 - óleo sobre tela, 38 x 46 cmts.

Carta a Charles Morice, Atuona, Ilhas Marquesas, abril de 1903: Tal como previa no trabalho que te enviei, sobre a gendarmeria nas Marquesas, acabo de cair numa esparrela dessa mesma gendarmeria e ser condenado. É a minha ruína e un recurso talvez nada valha. De qualquer maneira, é preciso prever tudo e antecipar-me. Bem vês como tinha razão em dizer na carta anterior que agisses depressa e com energia. Se formos vencedores, a luta será bela e terei feito uma grande obra nas Marquesas. Muitas iniquidades serão abolidas e vale a pena sofrer por isso. Estou de rastos mas ainda não vencido. O índio que sorri no suplício está vencido? Decididamente, o selvagem é melhor do que nós. Um dia enganaste-te afirmando que eu não tinha razão ao dizer que era um selvagem. É uma verdade: sou um selvagem. E os civilizados presentem-no, porque nas minhas obras nada haveria de surpreendente ou desconcertante se não fosse o "nao-sei-quê-de-selvagem". Por isso são inimitáveis.

Palavras do Demónio (Eva) 1892 - pastel, 76/5 x 35/5 cmts.

Quando Te Casas?, 1892 "Nafea Faa Ipoipo?" - óleo sobre tela, 101/5 x 77/5 cmts.

Rapariga de Cócoras no Tahiti, 1892 (estudo) lápiz, carvão e pastel , 53/3 x 47/8 cmts.

Carta a Georges-Daniel de Monfreid, Atuona, Ilhas Marquesas, Abril de 1903: Acabo de ser vitima de uma tramóia horrível. Depois de alguns factos escandalosos nas Marquesas, escrevi ao administrador pedindo que fizesse um inquérito sobre o caso. Não pensei que os gendarmes fossem todos coniventes, o administrador do partido do governador, etc... Acontece que o tenente solicitou uma decisão jurídica a um bandido de juiz, às ordens do governador e do procurador que eu atingi, me condenou (lei de julho de 1881 sobre a imprensa) por uma carta particular, três meses de prisão 100 francos de multa. Tenho de ir fazer um recurso ao Tahiti. Viagem, estadia, sobretudo despesas do advogado, quanto me vão custar? É a minha ruína e a completa destruição da minha saúde. Todas estas preocupações me matam. Quando o destinatário recebeu a carta já Gauguin estava morto, desde 8 de maio de 1903.

Música Bárbara, 1891/93 - aquarela sobre seda, 12 x 12 cmts.

Três Tahitianos (Conversa no Tahiti), 1899 - óleo sobre tela, 73 x 94 cmts.

Raparigas com Flores de Manga (Mulheres do Tahiti), 1899 - óleo sobre tela, 94 x 72 cmts.

A Rainha da Beleza, 1896 "Te Arii Vahine" - aquarela - 17,2 x 22,9 cmts.

Auto-Retrato ou Em Golgatha, 1896 - óleo sobre tela , 76 x 64 cmts.

Depois de permanecer 2 anos em França, consumido em saudade do Tahiti
e em sífilis, Paul Gauguin regresou à Oceânia para os 8 anos finais da sua vida. A experiência itinerária do NOA NOA só iria encontrar proplongamento
numas breves páginas sobre o Tahiti e as Marquesas, hoje incluídas como
capítulo autónomo do seu livro Avant et Aprés. Solitário e cego, Gauguin morreu na madrugada de 8 de maio de 1903. A sua cabana foi comprada por um leiloeiro americano. Existe ainda um dado curioso nesse desfecho.
Tempos depois, a sua última tela intitulada "Cachoeira na mata", foi leiloada
"de ponta cabeça", título: "Paisagem na neve"...