O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
domingo, 30 de outubro de 2016
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Minhas projeções de naturezas-mortas com uma lente-
espelho tinham uma aparência emblemática: objetos
vistos de frente, uma totalidade unificadora com fortes realces e sombras, um pano de fundo escuro
e profundidade restrita - todas características impostas
pelas limitações do equipamento. Como vimos, os artistas
encontraram meios de superar essas limitações fazendo a "colagem" de varios elementos numa pintura maior -
mas esses elementos ainda são vistos de frente
e em close-up. São as habilidades composicionais dos artistas que nos convencem de que tudo está situado num espaço coerente.
Quando as lentes convencionais se tornaram grandes
o bastante e de qualidade boa o suficiente para serem usadas no lugar de um espelho côncavo (em algum ponto
do século XVI), um artista ja escolado no uso da projeção
de lente-espelho veria uma nítida vantagem: um campo
de visão mais amplo. Vários artistas fizeram essa transição,
mas ela é vista com a máxima clareza na obra
de Caravaggio. Ele usou a lente com tamanha imaginação
que seu exemplo cedo exerceu influência pela Europa
afora, com jovens artistas fazendo peregrinações à Itália
para contemplar seus quadros e aprender com seus seguidores, os caravaggisti.
David Hockney
espelho tinham uma aparência emblemática: objetos
vistos de frente, uma totalidade unificadora com fortes realces e sombras, um pano de fundo escuro
e profundidade restrita - todas características impostas
pelas limitações do equipamento. Como vimos, os artistas
encontraram meios de superar essas limitações fazendo a "colagem" de varios elementos numa pintura maior -
mas esses elementos ainda são vistos de frente
e em close-up. São as habilidades composicionais dos artistas que nos convencem de que tudo está situado num espaço coerente.
Quando as lentes convencionais se tornaram grandes
o bastante e de qualidade boa o suficiente para serem usadas no lugar de um espelho côncavo (em algum ponto
do século XVI), um artista ja escolado no uso da projeção
de lente-espelho veria uma nítida vantagem: um campo
de visão mais amplo. Vários artistas fizeram essa transição,
mas ela é vista com a máxima clareza na obra
de Caravaggio. Ele usou a lente com tamanha imaginação
que seu exemplo cedo exerceu influência pela Europa
afora, com jovens artistas fazendo peregrinações à Itália
para contemplar seus quadros e aprender com seus seguidores, os caravaggisti.
David Hockney
Eis outra comparação entre dois quadros em ambas
extremidades da Renascença, que mostra a extraordinária
transformação que ocorreu na pintura: o detalhe embaixo
é de A Morte da Virgem de Giotto, data de 1310-1.
Compare as asas, em particular. As de Giotto são uma invenção imaginativa (ele provavelmente não vira um anjo
na vida real!). Parecem muito bonitas, mas são estilizadas
comparadas às de Caravaggio, que parecem muito mais
"fotográficas". Por seu método de trabalho, é provável
que Caravaggio tivesse algum tipo de asas reais
a sua frente - tal vez um par de asas de águia. Sabemos
que ele só pintava diretamente do modelo ("É incapaz
de pintar sem modelos" foi uma crítica contemporânea
a sua obra). O mesmo, é claro, poderia ser dito sobre
qualquer fotógrafo (até bem recentemente, ou seja) -
os computadores modificaram o que costumava ser
um requisito fundamental da fotografia.
David Hockney
extremidades da Renascença, que mostra a extraordinária
transformação que ocorreu na pintura: o detalhe embaixo
é de A Morte da Virgem de Giotto, data de 1310-1.
Compare as asas, em particular. As de Giotto são uma invenção imaginativa (ele provavelmente não vira um anjo
na vida real!). Parecem muito bonitas, mas são estilizadas
comparadas às de Caravaggio, que parecem muito mais
"fotográficas". Por seu método de trabalho, é provável
que Caravaggio tivesse algum tipo de asas reais
a sua frente - tal vez um par de asas de águia. Sabemos
que ele só pintava diretamente do modelo ("É incapaz
de pintar sem modelos" foi uma crítica contemporânea
a sua obra). O mesmo, é claro, poderia ser dito sobre
qualquer fotógrafo (até bem recentemente, ou seja) -
os computadores modificaram o que costumava ser
um requisito fundamental da fotografia.
David Hockney
Este é o Baco Enfermo, de 1594. Caravaggio
certamente posuiu espelhos - eles são mencionados
em listas de seus pertences - e muitos estudiosos
admitem que ele os tenha usado. Mas os historiadores
em geral interpretaram relatos contemporâneos
de forma como que ele usava espelhos "para pintar retratos"
como uma alusão a que ele pintava a si próprio.
Mas se ele usava uma lente-espelho, pintava outra pessoa.
Para ter pintado essa figura, Caravaggio tal vez tenha usado
a técnica de montagem, captando o modelo em pedaços
e os reunindo depois.
David Hockney
certamente posuiu espelhos - eles são mencionados
em listas de seus pertences - e muitos estudiosos
admitem que ele os tenha usado. Mas os historiadores
em geral interpretaram relatos contemporâneos
de forma como que ele usava espelhos "para pintar retratos"
como uma alusão a que ele pintava a si próprio.
Mas se ele usava uma lente-espelho, pintava outra pessoa.
Para ter pintado essa figura, Caravaggio tal vez tenha usado
a técnica de montagem, captando o modelo em pedaços
e os reunindo depois.
David Hockney
Duas pinturas de bebedores. Em cada caso,
a versão da esquerda é a imagem correta,
com o modelo segurando o copo com a mão
esquerda; a da direita é uma "imagem especular".
O que é interessante para mim é como a pintura
à direita parece mais natural e harmoniosa,
o modelo parece mais confortável. Acredito
que assim seja antes de tudo porque eles eram
na verdade destros - eles só se mostram canhotos
porque foram invertidos por uma lente.
A maioria das pessoas ergue um copo com a mão
direita; copos e taças são dispostos à direita
nas refeições; revolucionários erguem o punho direito;
soldados saúdam com a mão direita. Giotto e outros
artistas antigos pintavam as pessoas tal como as viam,
bebendo com a mão direita. Será uma coincidência
que no fim do século XVI, quando acredito terem sido
usadas pela primeira vez por pintores, haja um súbito
acúmulo de bebedores canhotos?
Este fenômeno aparece com Caravaggio e se estende
por 40 anos aproximadamente, quando espelhos planos
de boa qualidade reverteram outra vez as imagens.
David Hockney
a versão da esquerda é a imagem correta,
com o modelo segurando o copo com a mão
esquerda; a da direita é uma "imagem especular".
O que é interessante para mim é como a pintura
à direita parece mais natural e harmoniosa,
o modelo parece mais confortável. Acredito
que assim seja antes de tudo porque eles eram
na verdade destros - eles só se mostram canhotos
porque foram invertidos por uma lente.
A maioria das pessoas ergue um copo com a mão
direita; copos e taças são dispostos à direita
nas refeições; revolucionários erguem o punho direito;
soldados saúdam com a mão direita. Giotto e outros
artistas antigos pintavam as pessoas tal como as viam,
bebendo com a mão direita. Será uma coincidência
que no fim do século XVI, quando acredito terem sido
usadas pela primeira vez por pintores, haja um súbito
acúmulo de bebedores canhotos?
Este fenômeno aparece com Caravaggio e se estende
por 40 anos aproximadamente, quando espelhos planos
de boa qualidade reverteram outra vez as imagens.
David Hockney
Observando a Vocação de São Mateus (1599-1602),
de Caravaggio, imagino-o como um diretor de filme,
iluminação, figurino, gestos - tudo terá sido encenado
cuidadosamente.
É nítido que a janela na parede dos fundos não é
uma fonte de luz. Foi pintada para evitar os problemas
de contraluz, dificuldades familiares a todo operador
de câmara moderno. Em vez disso, há uma fonte única
de luz, bem forte, da direita. Um quadro montado com
iluminação cuidadosa - levaria certo tempo para fazê-lo.
David Hockney
de Caravaggio, imagino-o como um diretor de filme,
iluminação, figurino, gestos - tudo terá sido encenado
cuidadosamente.
É nítido que a janela na parede dos fundos não é
uma fonte de luz. Foi pintada para evitar os problemas
de contraluz, dificuldades familiares a todo operador
de câmara moderno. Em vez disso, há uma fonte única
de luz, bem forte, da direita. Um quadro montado com
iluminação cuidadosa - levaria certo tempo para fazê-lo.
David Hockney
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Caravaggio é, de fato, um mestre em montar "a cena",
narrando a história no espaço da pintura - não em muita
profundidade. O olho vaga de lá para cá na superficie
da pintura, no plano adentro. A parede estabelece
profundidade como fixa.
Compare esse quadro com a Flagelação de Cristo
(ano 1450), de Piero della Francesca. Piero não é um diretor
com atores a sua frente do modo que é Caravaggio.
Ele mexe braços e pernas de acordo com seu conhecimento
das leis da geometria e perspectiva, do modo como sabe
serem as figuras, não do modo como as vê.
David Hockney
narrando a história no espaço da pintura - não em muita
profundidade. O olho vaga de lá para cá na superficie
da pintura, no plano adentro. A parede estabelece
profundidade como fixa.
Compare esse quadro com a Flagelação de Cristo
(ano 1450), de Piero della Francesca. Piero não é um diretor
com atores a sua frente do modo que é Caravaggio.
Ele mexe braços e pernas de acordo com seu conhecimento
das leis da geometria e perspectiva, do modo como sabe
serem as figuras, não do modo como as vê.
David Hockney
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Em fevereiro de 2000, com a ajuda de meus assistentes
David Graves e Richard Schmidt, comecei a prender
com percevejos fotocópias coloridas de pinturas
na parede de meu estúdio na Califórnia.
Via isso como um modo que me conferisse uma visão
de conjunto da história da arte ocidental e como um auxílio
na seleção de imagens para o livro. Quando terminamos,
o mural tinha 70 pés (21,3 m) de comprimento e percorria
500 anos de forma mais ou menos cronológica, com a Europa setentrional em cima e a Europa meridional embaixo.
Ao começarmos a juntar as páginas do livro, fizemos
também experimentos com diversas combinações
de espelhos e lentes para ver se conseguíamos recriar
os métodos tal vez utilizados pelos artistas do Renascimento
As projeções que fizemos encantaram todos os que vieram
ao estúdio, mesmo aqueles de câmara em punho.
Os efeitos pareciam incríveis, porque não eram eletrônicos.
As imagens que projetamos eram nítidas, em cores
que se moviam. Ficou óbvio que poucos sabem muita coisa
sobre óptica, mesmo os fotógrafos. Na Europa medieval,
"aparições" projetadas seriam tidas como mágicas;
como descobri, as pessoas continuam a achar isso
hoje em dia.
David Hockney
David Graves e Richard Schmidt, comecei a prender
com percevejos fotocópias coloridas de pinturas
na parede de meu estúdio na Califórnia.
Via isso como um modo que me conferisse uma visão
de conjunto da história da arte ocidental e como um auxílio
na seleção de imagens para o livro. Quando terminamos,
o mural tinha 70 pés (21,3 m) de comprimento e percorria
500 anos de forma mais ou menos cronológica, com a Europa setentrional em cima e a Europa meridional embaixo.
Ao começarmos a juntar as páginas do livro, fizemos
também experimentos com diversas combinações
de espelhos e lentes para ver se conseguíamos recriar
os métodos tal vez utilizados pelos artistas do Renascimento
As projeções que fizemos encantaram todos os que vieram
ao estúdio, mesmo aqueles de câmara em punho.
Os efeitos pareciam incríveis, porque não eram eletrônicos.
As imagens que projetamos eram nítidas, em cores
que se moviam. Ficou óbvio que poucos sabem muita coisa
sobre óptica, mesmo os fotógrafos. Na Europa medieval,
"aparições" projetadas seriam tidas como mágicas;
como descobri, as pessoas continuam a achar isso
hoje em dia.
David Hockney
Fica perfeitamente claro que alguns artistas
usaram a óptica diretamente e outros não,
embora após 1500 quase todos pareçam ter sido
influenciados pelas tonalidades, sombreado e cores
encontradas na projeção óptica. Brueguel, Bosch,
Grünewald de pronto vêm à cabeça como artistas
que não se envolveram no uso direto da óptica.
Mas terão visto pinturas e desenhos feitos com ela,
e tal vez até mesmo algumas projeções, como aprendizes,
provavelmente copiaram obras com efeitos ópticos.
Insisto em repetir que a óptica não faz marcas, não é capaz
de fazer pinturas. Pinturas e desenhos são feitos pela mão.
Tudo o que estou dizendo é que, bem antes do século XVII,
quando acreditamos que Vermeer estivesse usando uma câmara escura, os artistas dispunham de uma ferramenta
e a utilizavam de forma antes desconhecida pela história da arte.
David Hockney
usaram a óptica diretamente e outros não,
embora após 1500 quase todos pareçam ter sido
influenciados pelas tonalidades, sombreado e cores
encontradas na projeção óptica. Brueguel, Bosch,
Grünewald de pronto vêm à cabeça como artistas
que não se envolveram no uso direto da óptica.
Mas terão visto pinturas e desenhos feitos com ela,
e tal vez até mesmo algumas projeções, como aprendizes,
provavelmente copiaram obras com efeitos ópticos.
Insisto em repetir que a óptica não faz marcas, não é capaz
de fazer pinturas. Pinturas e desenhos são feitos pela mão.
Tudo o que estou dizendo é que, bem antes do século XVII,
quando acreditamos que Vermeer estivesse usando uma câmara escura, os artistas dispunham de uma ferramenta
e a utilizavam de forma antes desconhecida pela história da arte.
David Hockney
Se Ingres usou uma câmara lúcida
para desenhar retratos, terá usado também
dispositivos ópticos para sua pintura?
Tome por exemplo, o belo retrato de madame
Leblanc, pintado em 1823, mais de 15 anos antes
da invenção da fotografia química.
Veja como é de uma precisão realista o tecido
com motivos decorativos. Que diferença para o estudo
de cortina, por Cézanne, um quadro certamente
feito a olho. Mas e olho (e coração) estão em ação aqui,
pode-se ver claramente como o quadro foi construído.
David Hockney
para desenhar retratos, terá usado também
dispositivos ópticos para sua pintura?
Tome por exemplo, o belo retrato de madame
Leblanc, pintado em 1823, mais de 15 anos antes
da invenção da fotografia química.
Veja como é de uma precisão realista o tecido
com motivos decorativos. Que diferença para o estudo
de cortina, por Cézanne, um quadro certamente
feito a olho. Mas e olho (e coração) estão em ação aqui,
pode-se ver claramente como o quadro foi construído.
David Hockney
A câmara lúcida não é facil de usar.
Basicamente, trata-se de um prisma numa vareta
que cria a ilusão de uma imagem
daquilo que esteja na frente dele
sobre um pedaço de papel embaixo.
Essa imagem não é real - não se acha de fato no papel,
somente parece estar ali. Quando se olha pelo prisma
a partir de um único ponto, pode-se ver a pessoa
ou objetos em frente e o papel embaixo ao mesmo tempo.
Se você usa a câmara lúcida para desenhar,
pode ver também a sua mão e o lápiz fazendo marcas
no papel. Mas somente você, sentado na posição certa,
é capaz de ver essas coisas, ninguém mais.
Por ser portátil, a câmara lúcida é perfeita para desenhar
paisagens. Mas em um retrato é mais difícil. Você deve
usá-la rápidamente, pois assim que o olho se move
a imagem realmente desaparece.
Um artista hábil seria capaz de fazer rápidas notações,
marcando os pontos-chave das feições da pessoa.
Com efeito, esse é um processo normal de medição
que se dá na cabeça de um bom desenhista,
mas que em geral leva muito mais tempo.
Depois de feitas essas notações, tem início
o trabalho pesado de observar do natural e traduzir
as marcas numa forma mais completa. Eu próprio tentei
usar a câmara lúcida durante um ano, desenhando
centenas de retratos com ela.
David Hockney
Basicamente, trata-se de um prisma numa vareta
que cria a ilusão de uma imagem
daquilo que esteja na frente dele
sobre um pedaço de papel embaixo.
Essa imagem não é real - não se acha de fato no papel,
somente parece estar ali. Quando se olha pelo prisma
a partir de um único ponto, pode-se ver a pessoa
ou objetos em frente e o papel embaixo ao mesmo tempo.
Se você usa a câmara lúcida para desenhar,
pode ver também a sua mão e o lápiz fazendo marcas
no papel. Mas somente você, sentado na posição certa,
é capaz de ver essas coisas, ninguém mais.
Por ser portátil, a câmara lúcida é perfeita para desenhar
paisagens. Mas em um retrato é mais difícil. Você deve
usá-la rápidamente, pois assim que o olho se move
a imagem realmente desaparece.
Um artista hábil seria capaz de fazer rápidas notações,
marcando os pontos-chave das feições da pessoa.
Com efeito, esse é um processo normal de medição
que se dá na cabeça de um bom desenhista,
mas que em geral leva muito mais tempo.
Depois de feitas essas notações, tem início
o trabalho pesado de observar do natural e traduzir
as marcas numa forma mais completa. Eu próprio tentei
usar a câmara lúcida durante um ano, desenhando
centenas de retratos com ela.
David Hockney
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Os três pequenos desenhos de Ingres que vemos acima,
são todos obviamente a olho. Os traços são "tateados",
há sinais de hesitação. Minha expressão "tateio" sugere
incerteza - "Onde é exatamente a posição correta?,
ele parece perguntar. Note a diferença entre a manga
à direita (feita de modo convencional, a olho) com os traços do próximo retrato, desenhado com confiança e traços contínuos. Aí não há "tateio" - aliás, mais uma vez
o desenho assume o ar do traço decalcado de Warhol.
Parece ter sido feito com certa velocidade. Todos os traços
desenhados têm uma velocidade que em geral pode ser
deduzida: têm um princípio e um fim, e portanto representam
o tempo bem como o espaço. Mesmo o decalque de uma
fotografia contém mais "tempo" que a fotografia original
(que representa somente uma fração de segundo), porque
a mão leva tempo para fazê-lo.
David Hockney
são todos obviamente a olho. Os traços são "tateados",
há sinais de hesitação. Minha expressão "tateio" sugere
incerteza - "Onde é exatamente a posição correta?,
ele parece perguntar. Note a diferença entre a manga
à direita (feita de modo convencional, a olho) com os traços do próximo retrato, desenhado com confiança e traços contínuos. Aí não há "tateio" - aliás, mais uma vez
o desenho assume o ar do traço decalcado de Warhol.
Parece ter sido feito com certa velocidade. Todos os traços
desenhados têm uma velocidade que em geral pode ser
deduzida: têm um princípio e um fim, e portanto representam
o tempo bem como o espaço. Mesmo o decalque de uma
fotografia contém mais "tempo" que a fotografia original
(que representa somente uma fração de segundo), porque
a mão leva tempo para fazê-lo.
David Hockney
O retrato acima, está reproduzido exatamente
do mesmo tamanho que a imagem real.
Embora não seja considerado um dos melhores
desenhos de Ingres dessa época, é muito útil
para nossos propósitos, pois contem uma série
de pistas visuais que sugerem ter ele usado
a câmara lúcida - um instrumento feito para os artistas
em 1806, sobretudo como um dispositivo de medida
para o desenho - para criá-lo.
Você irá deparar com a expressão "fazer a olho",
ao longo desse livro. Com isso me refiro ao modo
como o artista se senta na frente de um modelo
e desenha ou pinta um retrato usando apenas sua mão
e olho e nada mais, observando a figura e tentando
depois recriar a semelhança no papel ou na tela.
Ao fazê-lo, ele "tateia" a forma que vê diante de si.
Mas a presteza dos traços de Ingres nesse desenho
não parece ter sido tateada. De tão precisa e exata
que é a forma. Imagino que ele tenha traçado primeiro
a cabeça, observando a senhora por uma câmara lúcida
e fazendo algumas notações no papel, fixando a posição
do cabelo, dos olhos, das narinas e das comissuras da boca
(note as profundas sombras). Isso tal vez lhe tenha tomado
alguns minutos. Depois, terminou de desenhar o rosto
pela observação, a olho - a delicadeza do retrato sugere
que gastou uma hora ou duas fazendo isso. Mais tarde,
tal vez depois do almoço, fez as roupas, mas para isso
há provavelmente de ter movido sua câmara lúcida
ligeiramente.
É agora que notamos que a cabeça da senhora
parece muito grande se comparada aos ombros e mãos.
Se Ingres moveu sua câmara lúcida para incluir as roupas,
uma ligeira mudança teria ocorrido, o que explica
a diferença na escala que notamos.
David Hockney
do mesmo tamanho que a imagem real.
Embora não seja considerado um dos melhores
desenhos de Ingres dessa época, é muito útil
para nossos propósitos, pois contem uma série
de pistas visuais que sugerem ter ele usado
a câmara lúcida - um instrumento feito para os artistas
em 1806, sobretudo como um dispositivo de medida
para o desenho - para criá-lo.
Você irá deparar com a expressão "fazer a olho",
ao longo desse livro. Com isso me refiro ao modo
como o artista se senta na frente de um modelo
e desenha ou pinta um retrato usando apenas sua mão
e olho e nada mais, observando a figura e tentando
depois recriar a semelhança no papel ou na tela.
Ao fazê-lo, ele "tateia" a forma que vê diante de si.
Mas a presteza dos traços de Ingres nesse desenho
não parece ter sido tateada. De tão precisa e exata
que é a forma. Imagino que ele tenha traçado primeiro
a cabeça, observando a senhora por uma câmara lúcida
e fazendo algumas notações no papel, fixando a posição
do cabelo, dos olhos, das narinas e das comissuras da boca
(note as profundas sombras). Isso tal vez lhe tenha tomado
alguns minutos. Depois, terminou de desenhar o rosto
pela observação, a olho - a delicadeza do retrato sugere
que gastou uma hora ou duas fazendo isso. Mais tarde,
tal vez depois do almoço, fez as roupas, mas para isso
há provavelmente de ter movido sua câmara lúcida
ligeiramente.
É agora que notamos que a cabeça da senhora
parece muito grande se comparada aos ombros e mãos.
Se Ingres moveu sua câmara lúcida para incluir as roupas,
uma ligeira mudança teria ocorrido, o que explica
a diferença na escala que notamos.
David Hockney
Ingres, em cima, e Holbein e Warhol embaixo.
Compare os traços das roupas de Ingres e Holbein.
São feitos depressa e sem hesitação, e parecem diferir,
em estilo, dos rostos. Os desenhos são confiantes e "precisos". Acompanhe os traços na manga de Holbein.
São executados rapidamente, de uma vez, como se
decalcados, acompanhando as dobras e conferindo volume.
Os traços no maço de dinheiro de Wahrol são análogos,
nada de alterações, cada qual em posição que parece
correta. Cada artista, claro, possuía um "toque" diferente.
Ingres, um mestre do lápiz, revela as mais sutis variações;
Warhol, quase nenhuma. A meu ver, entretanto, pode ser notada uma similaridade em todos esses desenhos.
David Hockney
Compare os traços das roupas de Ingres e Holbein.
São feitos depressa e sem hesitação, e parecem diferir,
em estilo, dos rostos. Os desenhos são confiantes e "precisos". Acompanhe os traços na manga de Holbein.
São executados rapidamente, de uma vez, como se
decalcados, acompanhando as dobras e conferindo volume.
Os traços no maço de dinheiro de Wahrol são análogos,
nada de alterações, cada qual em posição que parece
correta. Cada artista, claro, possuía um "toque" diferente.
Ingres, um mestre do lápiz, revela as mais sutis variações;
Warhol, quase nenhuma. A meu ver, entretanto, pode ser notada uma similaridade em todos esses desenhos.
David Hockney
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