domingo, 21 de abril de 2013

CANTO GERAL - Referência


CANTO GERAL - Rreferência


CANTO GERAL - Referência: pintura azteca


CANTO GERAL - Referência: pintura azteca


CANTO GERAL - Referência: pintura azteca


CANTO GERAL - Referência


CANTO GERAL - Rreferência: cordilheira


CANTO GERAL - Referência: cordilheira



terça-feira, 16 de abril de 2013

GONZALO CÁRCAMO - CHILE
"Thapa Kunturi: ninho do condor"
Texto e ilustrações


GONZALO CÁRCAMO nasceu em 1954 em Los Angeles, no Chile.
Artista plástico e caricaturista, colabora como ilustrador
para editoras de livros, revistas e jornais do Brasil, do Chile e da Espanha.
Publicou "Modelo vivo, natureza-morta" (Paulus), "Aquarelas e variações
sobre Paraty (Luna), "Lorotas da cobra Gabi", "A fantasia do urubu Beleza" (Melhoramentos) e "O amigo fiel" (Berlendis).
Para escrever Thapa Kunturi, Cárcamo buscou inspiração nos troperos
que transitam na cordilheira dos Andes.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


A cordilheira dos Andes ten sido cenário de muitas histórias
inspiradoras, repletas de emoção e perigo, algumas vividas por aventureiros
que transitam por trilhas estreitas nas alturas entre imponentes montanhas
nevadas, onde um paso em falso seria suficiente para se precipitar
irremediavelmente no abismo.
O conto "Thapa Kunturi" está situado na época pré-hispânica,
ou pré-colombiana, que quer dizer antes do chamado descobrimento
da América por Cristóvão Colombo, em 1492.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


Nos vales e escarpados andinos,
pastavam lhamas de cores variadas con sua
longa pelagem de lã, tão integradas à paisagem
que quase se confundiam com ela.
Mansos como ovelhas, os animais
acabaram sendo domesticados pelos índios
e criados em rebanhos. Serviam como meio
de transporte de carga, como alimento
e proporcionavam lã para tecer roupas
que permitissem suportar o frio intenso
que morde a pele na montanha.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


Inesperadamente, sentiu uma
agitação entre umas rochas perto de
onde estava, o que atraiu a sua atenção.
Algo parecia escavar o solo, provocando
um grande alvoroço.
De repente, surgiu pulando
entre os penhascos um estranho filhote
de pássaro de cor esbranquiçada.
O bicho parecia um tufo de algodão
desvairado que tentava, a qualquer custo,
escapar do focinho de um pequeno
gato-montês que não lhe deu trégua
até conseguir abocanhá-lo num pulo voraz
- NHAC!

Cárcamo - "Thapa Kunturi - ninho do condor"


O filhote de escassas penas, batizado
de Khuna pelo menino, em pouco tempo
conseguia correr, ainda que desengonçado,
e seguir os passos do seu protetor Wuayna
Chacha.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


domingo, 14 de abril de 2013

Não passou muito tempo e um incidente
no lago Titicaca veio turvar a alegria do menino.
Certa manhã, enquanto Wuayna Chacha
se divertia pescando no lago com seus amigos,
uma enorme sombra escureceu a balsa de
totora. Um enorme pássaro preto descia
como um raio dos céus.
Wintata, apavorada, mal teve tempo de 
pular nas águas do lago, mas o pequeno Khuna
acabou sendo apanhado pelas garras do pássaro,
que o levou pelos ares até desaparecer
entre os picos da montanha.

Cárcamo - "Thapa Kunduri: ninho do condor"


Num instante a figura luminosa
reapareceu, rastejando sinuosa como
um réptil e irradiando um brilho
pulsante até sumir numa pequena
cavidade entre as rochas.
Atraído pela curiosidade, o menino 
desceu vagarosamente até achar a fenda
na montanha onde tinha visto a luz
cintilante aparecer.
De repente, Wintata recuou,
apavorada. Alguma coisa resplandecia
no interior da estreita caverna.
Wuayna Chacha estremeceu;
não conseguiu resistir a curiosidade
e, como que puxado por um fio invisível,
se esgueirou pela fenda até conseguir
alcançar o centro da caverna.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


Ele não podia imaginar que
a pequena figura que carregava seria capaz
de provocar tamanho alvoroço na aldeia.
As crianças acharam que fosse um
vaga-lume gigante e se aproximaram
excitadas, dando gritos de entusiasmo
e admiração.
Alguns adultos manifestaram certa
hostilidade; as mulheres cobriam o rosto
ou olhavam de longe, amedrontadas.
A presença do misterioso objeto deixou
a comunidade enfeitiçada e confusa.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


O homem de olhar impiedoso e vestidura
reluzente ergueu um braço e mostrou
uma moeda brilhante na ponta dos dedos.
Então guardou-a entre as mãos, agitando-as
agilmente. Depois estendeu os punhos
fechados e separados à sua frente e,
com voz gutural e gestos breves, pediu
a Wuayna Chacha que escolhesse 
uma das mãos.
Sem compreender as palavras,
apenas pressentindo o que ele desejava,
o menino apontou com receio
a mão esquerda do estranho.
Ligeiro como um prestidigitador,
o homem juntou as mãos para disfarçar
a trapaça e depois abriu-as lentamente,
expondo a moeda na mão direita. Revelava
assim o infortúnio ao menino, declarando
que ele acabara de perder a aposta e,
portanto, devia ceder o passo

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


O menino baixou a cabeça, desolado.
Sua memória o levou de volta à aldeia
em torno do lago, onde tinha sido tão feliz,
onde tivera a breve companhia de Khuna.
Lembrou o momento em que salvou
a vida da sua inseparável Wintata,
tingindo a face do filhote logo após
o nascimento com corante de tecido
para evitar que integrasse o rebanho
de lhamas brancas, reservadas como
oferenda aos deuses. Fez isso porque
nunca assimilara muito bem o princípio
dos rituais com sacrifícios.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


quinta-feira, 11 de abril de 2013

O frio ficou intenso, e um nó na garganta
parecia sufocá-lo. Wuayna Chacha teve certeza
de que seria incapaz de abandonar a sua amiga
fiel nessa hora.
Desarmado, o menino olhou pela última vez
a imponente cordilheira dos Andes. Tampou
os olhos de Wintata com a mão, apoiou o pé
na parede rochosa da montanha e num impulso
impetuoso se lançõu no abismo.
Um condor, que acompanhava atento
os movimentos de Wuayna Chacha, rapidamente
abriu as asas e mergulhou no precipício,
evitando assim a queda fatal do menino
e de sua lhama.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


O condor retomou o vôo
num giro magistral em direção ao céu
e planou no topo da cordilheira
para depois arremeter num rasante
sobre o lago Titicaca.
Ao chegar bem perto da superfície,
abriu as garras  e libertou
seus amedrontados prisioneiros,
que caíram nas águas do lago
com grande estrondo.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


Assustado, Wuayna Chacha acordou
com um frio chuvisco caindo em seu rosto.
Era tarde, o tempo tinha virado,
e uma nuvem cinzenta passava derramando
uma breve chuva na montanha.
Depois de espantar o sono, tratou de refletir
sobre o que tinha se passado, levantou-se e correu
para dar um abraço forte e demorado em Wintata,
que continuou a ruminar serenamente
alguma gramínea fresca que acabara de arrancar
entre as pedras da montanha.
Wuayna Chacha olhou para o céu e viu que o sol
voltara a acender em matizes púrpura o esplendor
do crepúsculo no topo da majestosa cordilheira.
Uma brisa suave e perfumada soprou em seu rosto,
devolvendo-lhe um sentimento de paz e felicidade
que confortou o seu coração.
O menino esfregou os olhos e sacudiu a cabeça
algumas vezes antes de retornar a sua aldeia.

Cárcamo - "Thapa Kunturi: ninho do condor"


sábado, 6 de abril de 2013

CANADÁ
Máscaras Dos Povos Nativos

Máscaras dos indios canadenses



As máscaras dos nativos da Costa Noroeste do Canadá, enraizadas numa cultura rica em estética e oralidade, cosmologia e mitologia, mas sem uma língua escrita, servem para transmitir estórias, mitos, história, conhecimentos e até propriedades, de geração a geração.
As várias nações, embora divididas em famílias e linhagens diversas, compartilham um ancestral comum a todos, e uma cosmologia na qual o universo é composto por vários domínios: do céu, das águas, da terra, e do mundo dos espíritos - habitados por humanos, animais e pássaros, e seres míticos.  
Muitos mitos elaboram as fronteiras porosas entre esses domínios e o constante intercâmbio entre eles, especialmente no passado remoto quando alguns seres míticos casaram com humanos, certos humanos receberam poderes ou conhecimentos especiais, ou animais se transformaram em seres humanos e fundaram uma linhagem, grupo, ou nação. Estes acontecimentos, registrados em canções, danças, estórias, esculturas e pinturas servem para explicar as relações entre as várias nações e também entre os humanos e o mundo natural ou espiritual. 
Suas várias versões são de propriedade de indivíduos, famílias, ou grupos, que os representam periodicamente na cerimônia principal destas nações, o potlatch.Nestes eventos, há canções e dançarinos que usam as mascaras para representar os ancestrais, mitos e seres míticos do grupo, em rituais que podem exigir anos de treinamento.  Todos os nomes, brazões, direitos e propriedades são mostrados ou descritos, todas as canções são cantadas, e todas as máscaras são dançadas.
Os convidados dos potlatchsão testemunhas dos direitos de uso destas canções, estórias, danças e máscaras, do uso de territórios específicos (um certo rio para pescar, os frutinhos de uma certa área, por exemplo)assim como a transferência de direitos por causa de morte, casamento, etc.
Desta forma, as máscaras são documentos que corporificam divisões tribais, mitologia, assim como os direitos dos seus donos.  São posses importantes que podem ser adquiridos por herança ou casamento entre ou dentro das tribos e grupos, embora sejam destruídas e reconstituídas a cada tanto.  As máscaras dos artistas nativos contemporâneos renovam as velhas tradições ao mesmo tempo em que introduzem novos materiais e temas da vida moderna.
tradução: Karen Giffin

Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses -- "Máscara da baleia assassina" -- "Esta máscara , um dos emblemas secundários do clan do lobo, do povo Tlingit, é usada nas cerimónias pelos efes."


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses -- "O Vento" -- "Acredita-se que cada vento tem uma personagem individual. Aquí todas as 4 são representadas numa única máscara."


Máscaras dos indios canadenses


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos indios canadenses -- "O espírito que controla o tempo" -- "Um dos poucos espíritos aos quais as pessoas comuns possam pedir favores. Já que o tempo pode mudar rapidamente em qualquer momento, nosso povo acredita que este espírito é trapaceiro."


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses


Máscaras dos índios canadenses -- "Máscara de águia" -- "A águia é uma ave ancestral do meu clan, e apresenta as características universais de orgulho, beleza e ferocidade. Por causa da sua habilidade em voar muito alto, acreditamos que a águia possa comunicar com os espíritos do céu."


sexta-feira, 22 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

You-Tube - documentário
ENDGAME 
Plano para Escravidão Global
de Alex Jones

Um dos primeiros documentários sobre o globalismo.
O radialista Alex Jones denuncia os planos para a nova
ordem mundial, uma revolução civilizatória em acelerado
processo de implantação. 
Para quem ainda não acompanha o desenvolvimento
desse plano macabro de dominação global - que está
em curso bem debaixo dos olhos de uma população 
anestesiada pela vulgaridade e pelo consumo.
comentário da You-Tube

ESTADOS UNIDOS
2 horas ~19 minutos - 30 segundos

Trimano - Ilustração para "Contra Revolução Permanente" de Newton Carlos - Jornal- "Pasquim"


terça-feira, 12 de março de 2013

CHAVEZ

TRIMANO - "O Bar" I - mural


"O Bar" - II



Chaves: o legado e desafios: Boaventura de Sousa Santos

publicado no blog de Leonardo Boff

07/03/2013
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS é um grande amigo do Brasil, sociólogo  entre Coimbra e Austin (USA), um dos fundadores do Forum Social Mundial. É um dos mais destacados pensadores do processo de globalização pensado a partir do Grande Sul onde estão as principais vítimas desse processo mais que tudo de expoliação capitalista econômico-financeira. Há muitas controvérsias sobre o falecido Presidente da Venezuela Hugo Chaves, carismático e popular. Era um dos poucos no mundo que dizia a verdade sobre como funciona o Capitalismo e como não está em nada interessado em tomar medidas contra o aquecimento global. Era um opositor declarado do imperialismo norte-americano e ocidental, coisa que quase ninguém do nosso lado assume. Prefere enquadar-se mesmo a contra-gosto. Estive muitas vezes na Venezuela, antes de Chavez e pude ver favelas, como a de Belen, uma das piores que encontrei no mundo. A oligarquia dominava e era altamente corrupta e anti-social. Publicamos este artigo de Boaventura de Sousa Santos que esteve muitas vezes na Venezuela e que nos dá um quadro objetivo do que foi o carisma de Chavez e os desafios que se apresentam para o futuro. LBoff
********************
Morreu o líder político democrático mais carismático das últimas décadas. Quando acontece em democracia, o carisma cria uma relação política entre governantes e governados particularmente mobilizadora, porque junta à legitimidade democrática uma identidade de pertença e uma partilha de objetivos que está muito para além da representação política. As classes populares, habituadas a serem golpeadas por um poder distante e opressor (as democracias de baixa intensidade alimentam esse poder) vivem momentos em que a distância entre representantes e representados quase se desvanece. Os opositores falarão de populismo e de autoritarismo, mas raramente convencem os eleitores. É que, em democracia, o carisma permite níveis de educação cívica democrática dificilmente atingíveis noutras condições. A difícil química entre carisma e democracia aprofunda ambos, sobretudo quando se traduz em medidas de redistribuição social da riqueza. O problema do carisma é que termina com o líder. Para continuar sem ele, a democracia precisa de ser reforçada por dois ingredientes cuja química é igualmente difícil, sobretudo num imediato período pós-carismático: a institucionalidade e a participação popular.
Ao gritar nas ruas de Caracas “Todos somos Chávez!” o povo está lucidamente consciente de que Chávez houve um só e que a revolução bolivariana vai ter inimigos internos e externos suficientemente fortes para pôr em causa a intensa vivência democrática que ele lhes proporcionou durante catorze anos. O Presidente Lula do Brasil também foi um líder carismático. Depois dele, a Presidenta Dilma aproveitou a forte institucionalidade do Estado e da democracia brasileiras, mas tem tido dificuldade em complementá-la com a participação popular. Na Venezuela, a força das instituições é muito menor, ao passo que o impulso da participação é muito maior. É neste contexto que devemos analisar o legado de Chávez e os desafios no horizonte.
O legado de Chávez
Redistribuição da riqueza. Chávez, tal como outros líderes latino-americanos, aproveitou o boom dos recursos naturais (sobretudo petróleo) para realizar um programa sem precedentes de políticas sociais, sobretudo nas áreas da educação, saúde, habitação e infraestruturas que melhoraram substancialmente a vida da esmagadora maioria da população. Alguns exemplos: educação obrigatória gratuita; alfabetização de mais de um milhão e meio de pessoas, o que levou a UNESCO a declarar a Venezuela como “território libre de analfabetismo”; redução da pobreza extrema de 40% em 1996 para 7.3% hoje; redução da mortalidade infantil de 25 por 1000 para 13 por mil no mesmo período; restaurantes populares para os sectores de baixos recursos; aumento do salário mínimo, hoje o salário mínimo regional mais alto, segundo la OIT. A Venezuela saudita deu lugar à Venezuela bolivariana.
A integração regional. Chávez foi o artífice incansável da integração do subcontinente latino-americano. Não se tratou de um cálculo mesquinho de sobrevivência e de hegemonia. Chávez acreditava como ninguém na ideia da Pátria Grande de Simón Bolívar. As diferenças políticas substantivas entre os vários países eram vistas por ele como discussões no seio de uma grande família. Logo que teve oportunidade, procurou reatar os laços com o membro da família mais renitente e mais pró-EUA, a Colômbia. Procurou que as trocas entre os países latino-americanos fossem muito para além das trocas comerciais e que estas se pautassem por uma lógica de solidariedade, complementaridade económica e social e reciprocidade, e não por uma lógica capitalista. A sua solidariedade com Cuba é bem conhecida, mas foi igualmente decisiva com a Argentina, durante a crise da dívida soberana em 2001-2002, e com os pequenos países das Caraíbas.
Foi um entusiasta de todas as formas de integração regional que ajudassem o continente a deixar de ser o backyard dos EUA. Foi o impulsionador da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), depois ALBA-TCP (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América- Tratado de Comércio dos Povos) como alternativa à ALCA (Área de livre Comércio das Américas) promovida pelos EUA, mas também quis ser membro do Mercosul. CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) são outras das instituições de integração dos povos da América Latina e Caribe a que Chávez deu o seu impulso.
Anti-imperialismo. Nos períodos mais decisivos da sua governação (incluindo a sua resistência ao golpe de Estado de que foi vítima em 2002) Chávez confrontou-se com o mais agressivo unilateralismo dos EUA (George W. Bush) que teve o seu ponto mais destrutivo na invasão do Iraque. Chávez tinha a convicção de que o que se passava no Médio-Oriente viria um dia a passar-se na América Latina se esta não se preparasse para essa eventualidade. Dai o seu interesse na integração regional. Mas também estava convencido de que a única maneira de travar os EUA seria alimentar o multilateralismo, fortalecendo o que restava da Guerra Fria. Daí, a sua aproximação à Rússia, China e Irão. Sabia que os EUA (com o apoio da União Europeia) continuariam a “libertar” todos os países que pudessem contestar Israel ou ser uma ameaça para o acesso ao petróleo. Daí, a “libertação” da Líbia, seguida da Síria e, em futuro próximo, do Irão. Daí também o “desinteresse” dos EUA e EU em “libertarem” o país governado pela mais retrógrada ditadura, a Arábia Saudita.
O socialismo do século XXI. Chávez não conseguiu construir o socialismo do século XXI a que chamou o socialismo bolivariano. Qual seria o seu modelo de socialismo, sobretudo tendo em vista que sempre mostrou uma reverência para com a experiência cubana que muitos consideraram excessiva? Conforta-me saber que em várias ocasiões Chávez tenha referido com aprovação a minha definição de socialismo: “socialismo é a democracia sem fim”. É certo que eram discursos, e as práticas seriam certamente bem mais difíceis e complexas. Quis que o socialismo bolivariano fosse pacífico mas armado para não lhe acontecer o mesmo que aconteceu a Salvador Allende. Travou o projeto neoliberal e acabou com a ingerência do FMI na economia do país; nacionalizou empresas, o que causou a ira dos investidores estrangeiros que se vingaram com uma campanha impressionante de demonização de Chávez, tanto na Europa (sobretudo em Espanha) como nos EUA. Desarticulou o capitalismo que existia, mas não o substituiu. Daí, as crises de abastecimento e de investimento, a inflação e a crescente dependência dos rendimentos do petróleo. Polarizou a luta de classes e pôs em guarda as velhas e as novas classes capitalistas, as quais durante muito tempo tiveram quase o monopólio da comunicação social e sempre mantiveram o controlo do capital financeiro. A polarização caiu na rua e muitos consideraram que o grande aumento da criminalidade era produto dela (dirão o mesmo do aumento da criminalidade em São Paulo ou Joanesburgo?).
O Estado comunal. Chávez sabia que a máquina do Estado construída pelas oligarquias que sempre dominaram o país tudo faria para bloquear o novo processo revolucionário que, ao contrário dos anteriores, nascia com a democracia e alimentava-se dela. Procurou, por isso, criar estruturas paralelas caracterizadas pela participação popular na gestão pública. Primeiro foram as misiones e gran misiones, um extenso programa de políticas governamentais em diferentes sectores, cada uma delas com um nome sugestivo (Por. ex., a Misíon Barrio Adentro para oferecer serviços de saúde às classes populares), com participação popular e a ajuda de Cuba. Depois, foi a institucionalização do poder popular, um ordenamento do território paralelo ao existente (Estados e municípios), tendo como célula básica a comuna, como princípio, a propriedade social e como objetivo, a construção do socialismo. Ao contrário de outras experiências latino-americanas que têm procurado articular a democracia representativa com a democracia participativa (o caso do orçamento participativo e dos conselhos populares setoriais), o Estado comunal assume uma relação confrontacional entre as duas formas de democracia. Esta será talvez a sua grande debilidade.

Os desafios para a Venezuela e o continente
A partir de agora começa a era pós-Chávez. Haverá instabilidade política e económica? A revolução bolivariana seguirá em frente? Será possível o chavismo sem Chávez? Resistirá ao possível fortalecimento da oposição? Os desafios são enormes. Eis alguns deles.
A união cívico-militar. Chávez assentou o seu poder em duas bases: a adesão democrática das classes populares e a união política entre o poder civil e as forças armadas. Esta união foi sempre problemática no continente e, quando existiu, foi quase sempre de orientação conservadora e mesmo ditatorial. Chávez, ele próprio um militar, conseguiu uma união de sentido progressista que deu estabilidade ao regime. Mas para isso teve de dar poder económico aos militares o que, para além de poder ser uma fonte de corrupção, poderá amanhã virar-se contra a revolução bolivariana ou, o que dá no mesmo, subverter o seu espírito transformador e democrático.
O extractivismo. A revolução bolivariana aprofundou a dependência do petróleo e dos recursos naturais em geral, um fenómeno que longe de ser específico da Venezuela, está hoje bem presente em outros países governados por governos que consideramos progressistas, sejam eles o Brasil, a Argentina, o Equador ou a Bolívia. A excessiva dependência dos recursos está a bloquear a diversificação da economia, está a destruir o meio ambiente e, sobretudo, está a constituir uma agressão constante às populações indígenas e camponesas onde se encontram os recursos, poluindo as suas águas, desrespeitando os seus direitos ancestrais, violando o direito internacional que obriga à consulta das populações, expulsando-as das suas terras, assassinando os seus líderes comunitários. Ainda na semana passada assassinaram um grande líder indígena da Sierra de Perijá (Venezuela), Sabino Romero, uma luta com que sou solidário há muitos anos. Saberão os sucessores de Chávez enfrentar este problema?
O regime político. Mesmo quando sufragado democraticamente, um regime político à medida de um líder carismático tende a ser problemático para os seus sucessores. Os desafios são enormes no caso da Venezuela. Por um lado, a debilidade geral das instituições, por outro, a criação de uma institucionalidade paralela, o Estado comunal, dominada pelo partido criado por Chávez, o PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela). Se a vertigem do partido único se instaurar, será o fim da revolução bolivariana. O PSUV é um agregado de várias tendências e a convivência entre elas tem sido difícil. Desaparecida a figura agregadora de Chávez, é preciso encontrar modos de expressar a diversidade interna. Só um exercício de profunda democracia interna permitirá ao PSUV ser uma das expressões nacionais do aprofundamento democrático que bloqueará o assalto das forças políticas interessadas em destruir, ponto por ponto, tudo o que foi conquistado pelas classes populares nestes anos. Se a corrupção não for controlada e se as diferenças forem reprimidas por declarações de que todos são chavistas e de que cada um é mais chavista do que o outro, estará aberto o caminho para os inimigos da revolução. Uma coisa é certa:  se há que seguir o exemplo de Chávez, então é crucial que não se reprima a crítica. É necessário abandonar de vez o autoritarismo que tem caracterizado largos sectores da esquerda latino-americana.
O grande desafio das forças progressistas no continente é saber distinguir entre o estilo polemizante de Chávez, certamente controverso, e o sentido político substantivo da sua governação, inequivocamente a favor das classes populares e de uma integração solidária do subcontinente. As forças conservadoras tudo farão para os confundir. Chávez contribuiu decisivamente para consolidar a democracia no imaginário social. Consolidou-a onde ela é mais difícil de ser traída, no coração das classes populares. E onde também a traição é mais perigosa. Alguém imagina as classes populares de tantos outros países do mundo verter pela morte de um líder político democrático as lágrimas amargas com que os venezuelanos inundam as televisões do mundo? Este é um património precioso tanto para os venezuelanos como para os latino-americanos. Seria um crime desperdiçá-lo.


Coimbra, 6 de Março de 2013

domingo, 10 de março de 2013

ANIA VALLE - CUBA
colages

Ania Valle


ANIA VALLE - Havana 1977.
Artista multimidia.
Formada em dança e artes visuais.
Em 1977, residindo ainda em Cuba,
participou do projeto "Danza Abierta",
que explorava as técnicas de dança,teatro,
video e dança performance.
também utiliza a fotografia como meio.
Disse: "Meu trabalho se desenvolve
entre técnicas de escultura ou obgetos
instalativos, a foto virtual, a colagem e o video arte.
O tema que abordo, é a identidade e os suportes
culturais dentro do fenómeno da imigração.
Mora no Brasil desde 1999.