O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Sabem que o Tempo é, desde que nasceu, um velho
de barbas brancas. Os poetas não lhe dão outro nome:
o velho Tempo. Ninguem o pintou de outra maneira.
E como há quem tome liberdades com os velhos, uns
batem-lhe na barriga (são os patuscos), outros chegam a desafiá-lo;
outros lutam com ele, mas o diabo vence-os a todos; é de regra.
Entretanto, uma coisa é barba, outra o coração. As barbas podem
ser velhas e os corações novos; e vice-versa: há corações velhos
com barbas recentes. Não é regra, mas dá-se. Deu-se com o Tempo.
Um dia o Tempo viu uma menina de quinze anos,
bela como a tarde, risonha como a manhã, sossegada
como a noite, um composto de graças raras e finas,
e sentiu que alguma coisa lhe batia do lado esquerdo.
Olhou para ela e as pancadas cresceram. Os olhos da
menina, verdadeiros fogos, faziam arder os dele só com fitá-los.
- Que é isto? murmurou o velho.
E os beiços do Tempo entraram a tremer e o sangue
andava mais depressa, como cavalo chicoteado,
e todo ele era outro. Sentiu que era amor; mas olhou
para o oceano, vasto espelho, e achouse velho. Amaria
aquela menina a um varão tão idoso? Deixou o mar, deixou a bela,
e foi pensar na batalha de Salamina. As batalhas velhas eram para ele
como para nós os velhos sapatos. Que le importava Salamina?
Repetiu-a de memória, e por desgraça dele, viu a mesma donzela
entre os combatentes, ao lado de Temístocles. Dias depois
trepou a um píncaro, o Chimborazo; desceu ao deserto de Sinai;
morou no sol, morou na lua; em toda parte lhe aparecia a figura
da bela menina de quinze anos. Afinal ousou ir ter com ela.
- Como te chamas, linda criatura?
- Esperança é o meu nome.
-Queres amar-me?
- Tu estás carregado de anos, respondeu ela;
eu estou na flor deles. O casamento é impossível.
Como te chamas?
- Não te importe o meu nome; basta saber que te posso
dar todas as pérolas de Golconda...
- Adeus!
- Os diamantes de Ofir...
- Adeus!
- As rosas de Saarão...
- Adeus! adeus!
- As vinhas de Engaddi...
- Adeus! adeus! adeus! Tudo isso há de ser meu
um dia; um dia breve ou longe, um dia...
Esperança fugiu. O Tempo ficou olhando, calado,
até que a perdeu de todo. Abrui a boca para amaldiçoá-la,
mas as palavras que lhe saíam eram todas de bênção;
quis cuspir no lugar em que a donzela pousara os pés, mas não
pôde impedir-se de beijá-lo. Foi por esa ocasião que lhe acudiu
a idéia do almanaque. Não se usavam almanaques. Vivia-se
sem eles; negociava-se, adoecia-se, morria-se, sem se consultar
tais livros. Conhecia-se a marcha do sol e da lua; contavan-se
os meses e os anos, era, ao cabo, a mesma coisa; mas não
ficava escrito, não se numeravam anos e semanas, não se nomeavam
dias nem meses, nada; tudo ia correndo, como passarada
que não deixa vestigios no ar.
- Se eu achar um modo de trazer presente aos olhos
os dias e os meses, e o reproduzir todos os anos, para que ela veja palpavelmente ir-se-lhe a mocidade... Raciocínio de velho, mas
tudo se perdoa ao amor, ainda quando ele brota de ruínas.
O Tempo inventou o almanaque; compôs um simples livro, seco, sem margens, sem nada; tão somente os dias, as semanas, os meses e os anos.
Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu cair do céu
uma chuva de folhetos; creram a princípio que era geada
de nova espécie, depois, vendo que não, correram todos
assustados; afinal, um mais animoso pegou de um dos folhetos,
outros fizeram a mesma coisa, leram e entenderam. O almanaque
trazia a lingua das cidades e dos campos em que caía. Assim
toda a terra possuiu, no mesmo instante, os primeiros almanaques.
Se muitos povos não têm ainda hoje, se outros morreram sem os ler, é porque vieram depois dos acontecimentos que estou narrando.
Naquela ocasião o dilúvio foi universal. - Agora, sim, disse Esperança pegando no folheto que achou na horta; agora já me não engano nos dias das amigas. Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas,
com sinais de cor os dias escolhidos.
Todas tinham almanaques. Nem só elas, mas também as matronas,
e os velhos e os rapazes, juízes, sacerdotes, comerciantes, governadores,
fâmulos; era moda trazer o almanaque na algibeira. Um poeta compôs
um poema atribuindo a invenção da obra às Estações, por ordem
de seus pais, o Sol e a Lua; um astrônomo, ao contrário, provou que
os almanaques eram destroços de um astro onde desde a origem dos séculos estavam escritas as línguas faladas na terra e provavelmente nos outros planeta. A explicação dos teólogos foi outra. Um grande físico
entendeu que os almanaques eram obra da própria terra, cuias palavras,
acumuladas no ar, formaram-se em ordem, imprimiram-se no próprio ar,
convertido em folhas de papel, graças...
Não continuou; tantas e tais eram as sentenças, que a de Esperança
foi a mais aceita do povo. - Eu creio que o almanaque é o almanaque,
dizia ela rindo. Quando chegou o fim do ano, toda a gente, que trazia
o almanaque com mil cuidados, para consultá-lo no ano seguinte,
ficou espantada de ver cair à noite outra chuva de almanaques.
Toda a terra amanheceu alastrada deles; eram os do ano novo.
Guardaram naturalmente os velhos. Ano findo, outro almanaque;
assim foram eles vindo, até que Esperança contou vinte e cinco anos,
ou, como então se dizia, vinte e cinco almanaques.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Nunca os dias pareceram correr tão depressa.
Voavam as semanas, com elas os meses, e,
mal o ano começava, estava logo findo. Esse efeito
entristeceu a terra. A própria Esperança, vendo que
os dias passavam tão velozes , e não achando marido,
pareceu desanimada; mas foi só um instante.
Nesse mesmo instante apareceu-lhe o Tempo.
Aquí estou, não deixes que te chegue a velhice... Ama-me...
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Esperança respondeu-lhe com duas gaifonas,
e deixou-se estar solteira. Há de vir o noivo, pensou ela.
Olhando-se ao espelho, viu que muito pouco mudara.
Os vinte e cinco almanaques quase lhe não apagaram
a frescura dos quinde. Era a mesma linda e jovem Esperança.
O velho Tempo, cada vez mais afogueado em paixão,
ia deixando cair os almanaques, ano por ano, até que ela
chegou aos trinta e daí aos trinta e cinco.
Eram já vinte almanaques; toda a gente começava
a odiá-los, menos Esperança, que era a mesma menina
das quinze primaveras. Trinta almanaques, quarenta,
cinquenta, sessenta, cem almanaques; velhices rápidas,
mortes sobre mortes, recordações amargas e duras.
A própria Esperança, indo ao espelho, descobriu
um fio de cabelo branco e uma ruga. /
- Uma ruga! uma só!
Outras vieram, à medida dos almanaques.
Afinal a cabeça de Esperança ficou sendo um pico de neve,
a cara um mapa de linhas. Só o coração era verde
como acontecia ao Tempo; verdes ambos, eternamente verdes.
Os almanaques iam sempre caindo. Um dia, o Tempo desceu
a ver a bela Esperança; achou-a anciã, mas forte,
com um perpétuo riso nos lábios.
- Ainda assim te amo, e te peço... disse ele.
Esperança abanou a cabeça; mas, logo depois estendeu-lhe a mão.
-Va lá, disse ela; ambos velhos, não será longo o consórcio.
- Pode ser indefinido.
- Como assim?
O velho Tempo pegou da noiva e foi com ela para um espaço
azul e sem termos, onde a alma de um deu à alma do outro
o beijo da eternidade. Toda a criação estremeceu deliciosamente.
A verdura dos corações ficou ainda mais verde.
Esperança, daí em diante, colaborou nos almanaques.
Cada ano, em cada almanaque, atava Esperança uma fita verde.
Então a tristeza dos almanaques era assim alegrada por ela;
e nunca o Tempo dobrou uma semana que a esposa
não pusesse um mistêrio na semana seguinte.
Deste modo todas elas foram passando, vazias ou cheias,
mas sempre acenando com alguma coisa que enchia a alma
dos homens de paciência e de vida. Assim as semanas,
assim os meses, assim os anos.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
HORACIO PILAR - Buenos Aires, Argentina 1935 - 1999 /
Amigo incondicional dos "tempos bravos, casado,
4 filhos, universitário, artesão, jornalista, titirero, carpinteiro,
funcionário público, publicitário, empleado. Foi castigado
com desemprego, perseguições, cárceres e desterro pelo
seu localismo político e falta de solenidade. Obras publicadas:
Poemas (1959 - Ed. Mano) - 5 Poetas: González Trejo, Gorbea,
Peroni, Pilar y Sicardi (1960 - Ed. Mano) - Amor y Conocimiento
(1967 - Ed. Mano)
La delgada nostalgia / destilando sus siempres
pasajeros, sus fugaces jamases, / sus presentes
ligeros. / Y la quimera de tocar con las manos /
lo que vuela lejano. / Si la memoria confunde los
espacios, / no es olvido la ausencia, es presente
el olvido. / El ajuar del exilio / es puro sentimiento. /
Ante el recuerdo mudo / el aliento golpea con sus
puños brumosos / y la letra se apoya sobre la puerta
y entra. / de: EXILIO II - 1979
El fuego junto al muro /
por dentro de estas ruinas / con sus manos
calientes va levantando el humo / que se
derrama afuera como lana carpida. /
El resplandor sonámbulo convoca la mirada, /
su perfume dorado baja por mi garganta. /
y cristales sonoros con inquietud de chispas /
encienden los espejos del recuerdo. /
Abajo, madre brasa en frágil cáscara /
contra el aire desgaja su naranja /
en boca del vacío. Con su incesante giro lo alimentan, /
y aplacando el pensar del pensamiento /
borran la distancia sobre el tiempo /
con sus nadas ardientes. / de: EXILIO I - 1976
La casa abandonada, / mi hambrienta soledad, /
y estas ramas heladas que gané a la tormenta, /
son razones de hogar que las llamas consumen. //
Afuera, en los patios del cielo, / recrudecen los truenos
traidos por el viento, / látigos y relámpagos ruedan
entreverados, / lentas tropas de nubes cierran el horizonte. //
En busca de madera retorno hacia la noche. /
de: EXILIO I - 1976
Conhecí o Zeka Araujo a meados dos anos 80.
Nesse momento êle era diretor da galeria de
fotografia da FUNARTE / Rio de Janeiro, e
organizava exposições dos mestres,
e coletivas de novos ou desconhecidos.
Foi nessas exposições que eu "vi" o trabalho
dos artistas da fotografia conduzido pela
seleção da equipe do Zeka. Mais tarde tivemos
encontros esporádicos, sempre relacionados
as exposições que organizava, e a gente deixou
de se ver por alguns anos. Viemos a nos
reencontrar na exposição "Buena Memôria"
do fotógrafo Marcelo Brodsky,
uma rememoração dos jovens desaparecidos
durante a ditadura militar na Agentina.
Foi nesse reencontro que soubemos que ambos
fariamos exposição na mesma época,
nas galerias do Centro Cultural Recoleta de Buenos
Aires. Durante a estadia visitamos o antigo porto
chamado de "La Boca", referência a "la boca del
riachuelo", como é chamado o Rio da Prata nessa
região, e o Zeka produziú uma série de fotografias
abstratas cujo tema eram as manchas e ferrugens
dos velhos navios abandonados no cais. Essa série foi
exposta pouco depois no CCBB: Centro
Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro.
A vontade de realizar um trabalho fusionando varias
linguagens, a procura de uma poética propria,
já tinha se manifestado em conversas
nossas anteriores.Nesta segunda série, já despojado
do elemento figurativo, os navios no caso, suas
imagens deixam margem as leituras e impressões
mais pessoais do espectador. / TRIMANO
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
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