sexta-feira, 18 de março de 2016

CURSO DE ILUSTRAÇÃO EDITORIAL
A Ilustração Literária
LUIS TRIMANO
Ilustrações para MOBY DICK de Herman Melville
Os Diários do Mar
EL BARCO - Edição Virtual
    

MOBY DICK de Herman Melville - Editora Abril Cultural - São Paulo 1972



HERMAN MELVILLE
New York 1819-1891
Escritor e poeta
Embora tenha obtido grande sucesso no início 
de sua carreira, sua popularidade foi decaindo 
ao longo dos anos. Faleceu quase completamente
esquecido, sem conhecer o sucesso que sua mais
importante obra, o romance Moby Dick, alcançaria
no século XX. O livro, dividido em três volumes,
foi publicado em 1851 com o título A Baleia, 
e não obteve críticas favoráveis, tendo sido considerado
o principal motivo para o declínio da carreira do escritor.
Em 1839 embarcou como ajudante no navio St. Lawrence
com destino a Liverpool e, em 1841, no baleeiro Acushnet,
a bordo do qual percorreu quase todo o Pacífico. Quando
a embarcação chegou às Ilhas Marquesas, na Polinésia
Francesa, Melville decidiu abandoná-la para viver
junto aos nativos por algumas semanas. As suas aventuras
como "visitante-cativo" da tribo de canibais foram registradas
no livro Typee, de 1846.
Ainda em 1841, embarcou no baleeiro australiano Lucy Ann
e acabou por se unir a um motim organizado pelos tripulantes insatisfeitos por falta de pagamento. O resultado
foi que Melville ficou preso numa cadeia no Tahiti, da qual
fugiu pouco depois.
Todos esses acontecimentos, são descritos em seu segundo livro Omoo, de 1847. No final de 1841, embarcou como 
arpoador no Charles & Henry, na sua última viagem
em baleeiros, e retornou a Boston como marinheiro, 
em 1844, a bordo da fragata United States.
Em 4 de agosto de 1847, casou-se com Elizabeth Shaw e,
em 1849, lançou seu terceiro livro Mardi.
Em 1850, Melville e Elizabeth mudaram-se para Arrowhead,
uma quinta em Pittsfield, Massachusetts (atualmente um museu), onde Melville conheceu Nathaniel Hawthorne,
a quem dedicou Moby Dick, publicado em Londres, em 1851. O fracasso de vendas do livro, em 1852, fez com que
seu editor recusasse o manuscrito, hoje perdido, de The Isle
Of The Cross.
Herman Melville morreu em 28 de setembro de 1891, aos 72 anos, em total obscuridade.

dados extraídos da Wikipédia     

AVENTURA SEDUTORA
trechos

Meu nome é Ismael. Há varios anos, achando-me
em situação meio difícil, com os bolsos vazios 
e sem nada de interessante para fazer em minha
pequena cidade, resolvi meter-me a bordo de um navio
e correr mundo. Seria a melhor maneira de combater 
minha preguiça e estimular minha imaginação. 
Lembro-me de que, de vez em quando, era atacado por fortes crises de melancolia. Assim, nada melhor nem mais saudável do que uma longa viagem marítima. O gôsto
pela aventura também fazia parte de meu temperamento.
Correr mundo, ver rostos e paisagens novas, sempre atraiu
jovens de tôdas as nacionalidades e gostos.
________________________________________________

...Um mundo de projetos que a vida nunca permitirá
que passem da sua humilde condição de sonhos anônimos.
Todos parecem sonhar com uma mágica embarcação
que os leve sôbre as ondas da fantasia até as praias remotas de uma ilusão impossível. Alguns dêsses homens
são movidos pela curiosidade, outros pela misteriosa
atração de que já falamos, e há aquêles animados pela
vocação marítima. Mas a dose de sonho e o espírito
de aventura são comuns a todos.
  

MOBY DICK


MOBY DICK


O ARPOADOR
trecho

Naquele exato momento um grupo de marinheiros
invadiu a estalagem. Nunca poderei esquecer o aspecto pitoresco e inusitado daqueles homens, com as barbas
salpicadas de neve e capotes grossos. Pareciam mais
um bando de ursos polares.
Logo que entraram, dirigiram-se resolutamente para o balcão. Ali estava o velho Jonas, cuja função era nunca deixar vazios os copos dos marujos, que atendia a todos com a sua proverbial amabilidade.
Pessoalmente, acho muito natural que todos aquêles
marinheiros, ausentes há tanto tempo da terrinha,
tivessem uma sêde enorme. Mas a bebida não tardou
em fazer efeito e começou a fuzarca. Passaram a cantar
ou então a cabecear de sono. Só um dêles parecia alheio
à confusão. Era um homem de expressão muito séria,
que logo me agradou. Como o destino se encarregou
de torná-lo um bom camarada de viagens marítimas, 
vou descrevê-lo, embora de um modo superficial.   

MOBY DICK


quinta-feira, 17 de março de 2016

MOBY DICK


QUEEQUEG HOMEM DE CARÁTER
trecho

Que estranho tipo, meus amigos! Tinha uma cor terrosa,
mas bem escura, num rosto sulcado de pequenos 
quadradinhos negros. Era, como eu já imaginara, 
um espantoso companheiro de quarto. Pensei que
por causa de algum combate, aquêle sujeito tivesse
passado pelas mãos de um cirurgião. A princípio julguei
que aquêles quadradinhos negros fôssem esparadrapos
ou coisa parecida, mas logo a luz da vela bateu-lhe
em cheio no rosto, e vi que mais pareciam tatuagens.
Èle tinha uma cabeça mais calva do que o ôvo
de uma avestruz. Para torná-la ainda mais exótica,
caía-lhe sobre a testa uma única mecha em forma de trança.
 

MOBY DICK


MOBY DICK


O ESTRANHO CAPITÃO ACAB
trecho

Na verdade não parecia apresentar nenhum indício
de moléstia séria e nem tinha o aspecto de um convalescente. No meu modo de ver, pareceu-me um homem livrado de uma fogueira quando as chamas
já atingiam seus membros. Todo êle parecia ser feito de bronze fundido, e uma cicatriz sulcava-lhe os cabelos
grisalhos e emaranhados, atravessava em linha reta um lado do rosto e perdia-se no pescoço, por baixo do blusão de navegante.
O seu aspecto estranho e a marca lívida em seu rosto
desconcertaram-me tanto, que mal notei que a rigidez 
da sua posição era motivada por uma estranha perna branca, em que se apoiava. Eu tinha ouvido falar de que o mar lhe fornecera tal membro, e não era outra coisa
senão o osso bem polido de uma forte mandíbula
de cachalote.
Chocou-me, extraordinàriamente, a estranha posição 
adotada por êle. De cada lado do castelo de proa 
do Pequod, muito perto dos ovéns da mezena, havia uns buracos de meia polegada de profundidade nas tábuas.
Pois bem, a perna de osso de Acab estava fincada
num dêsses furos e êle permanecia firme e bem aprumado
com o seu braço direito erguido e a mão agarrada a um ovém, os olhos fixos para além do limite da proa, 
que oscilava incessantemente ao sabor das ondas. O que
havia de estranho naquele olhar? De imediato, uma energia
indomável e uma inteireza infinita como o horizonte marítimo.  
 

MOBY DICK


MOBY DICK E AS SUPERSTIÇÕES
trecho

É pouco provável, creio eu, que o ódio alimentado
por Acab ou, melhor dizendo, sua terrível idéia fixa
tivesse surgido no exato momento da amputação da sua perna. Quando se lançara armado de punhal sôbre a baleia,
não fizera mais do que deixar-se arrastar por uma repentina
animosidade. No momento em que Moby Dick cerrara
sua mandíbula torcida prendendo a perna do capitão,
êste não sentiria com tôda a certeza mais do que a dor física inevitável. Mas, então, não podia pensar direito. O pior viria
depois, quando o velho lôbo-do-mar se sentiu afastado 
do seu navio, retido em terra firme, num longo período 
de cura  onde a dor o impediu de refletir direito 
por semanas e meses inteiros. Teria mesmo enlouquecido,
como o demonstra o fato de, durante a travessia de regresso, seus oficiais terem de amarrá-lo no seu próprio
beliche... Só ao término de muitos dias pareceu serenar um pouco. E quando apareceu no convés, outra vez, para retomar o comando do seu navio, Acab, ao contrário do que supunham os tripulantes, estava convencido de que continuava louco, louco para atacar algo que só êle sabia
o que era. Aparentemente o velho capitão parecia, em certas ocasiões, sereno e normal. 
Mas, sob a máscara de uma lucidez aparente, demonstrava
maior obstinação íntima para alcançar o fim 
que se propunha.

MOBY DICK


MOBY DICK


OS MALAIOS FANTASMAS
trecho

Partiu então um leve assobio do bote: era o arpão
que Queequeg acabava de atirar. Então recebemos 
um formidável empurrão pela pôpa, enquanto que à proa
parecia que o bote se chocara bruscamente com um recife. 
A vela soltou e caiu, e um jato de vapor ardente veio até nós, enquanto algo confuso e informe, revolvendo-se violentamente, abanou a pequena embarcação como se
esta fosse de papel. Quando quisemos ver o que tinha acontecido achávamo-nos mergulhando como desesperados
no meio daquele fantástico turbilhão formado pela água, o bote virado e a baleia. E, como o arpão só conseguira roçá-la levemente, pôde escapar bem adiante de nossas próprias barbas...
A pesar do bote estar virado, verificamos satisfeitos
que não tinha sofrido avaria alguma. Nadando à sua volta,
recolhemos os remos que flutuavam a deriva e, precipitando-nos para cima da borda, saltamos, novamente,
para nossos lugares, onde ficamos sentados com água
até os joelhos. Parecíamos instalados sôbre um caprichoso
banco de coral vindo até nós das profundezas do mar.