quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

FB - É o que eu digo. E acho que os métodos por meio dos quais isso é feito
são tão artificiais que o modelo diante de você, no meu caso, inibe a artificialidade por meio da qual essa coisa pode ser trazida de volta.
DS - E se pessoas que você já pintou muitas vezes
de memória e de fotos posassem para você?
FB  - Ficaria inibido, porque, se gosto delas, não quero praticar na sua frente a violência que eu lhes faço no meu trabalho. Prefiro fazer essas violências às
escondidas, o que, na minha opinião, me permite registrar a realidade delas
com mais clareza.
DS - Em que sentido você concebe isso como uma violência?
FB - No sentido de que as pessoas acreditam - ou pelo menos
as pessoas simples - que as distorções em suas figuras são
uma violência - não importa o quanto simpatizem com você
e o quanto gostem de você.
DS - Você não acha que, por instinto, possivelmente estejam certas?
FB - É possível, é possível. Entendo perfeitamente isso. Mas
me diga, quem hoje consegue registrar uma coisa que surge
na sua frente como um fato sem danificar profundamente a
imagem?

F. BACON - "Estudo para retrato de Peter Beard - óleo 1975

F. BACON - "Estudo para um retrato" - óleo 1969

DS - Mas você não acha, já que está falando em registrar os
vários níveis de emoção de uma imagem, que, entre outras
coisas, poderia também estar expressando ao mesmo tempo
amor e hostilidade pela pessoa - que isso que você faz pode ser
não só carinho mas também agressão?
FB - Acho lógico demais. Acredito que não seja essa a maneira
como as coisas funcionam; acho que a coisa toca mais no fundo:
como pintar essa imagem para torná-la imediatamente mais real
para mim? É só isso.
DS - Tornar a imagem imediatamente mais real não equivaleria
a objetivar sentimentos contraditórios em relação ao sujeito?
FB - Bem, acho que você está abordando o problema por um
lado mais psicológico, e a maioria dos pintores, tenho a impressão,
não fazem isso. Eles podem insonscientemente estar enrolados com o que você diz, mas, conscientemente, nem um pouco.
DS - Bom, evidentemente se eles tivessem conciência disso
seria um desastre para a obra. O que eu estava tentando dizer
é que, quando o modelo ingenuamente imagina que o pintor
o está agredindo, ele instintivamente está reconhecendo um
desejo insonsciente do pintor em agredi-lo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

FB - Pode ser. O que você está dizendo Wilde já disse: você
mata a coisa que ama. Pode ser isso, não sei. Se as distorções
que, a meu ver, às vezes imprimem maior força a uma imagem
seriam ou não uma forma de agressão, essa é uma idéia
muito questionável. Não acho que elas sejam uma agressão.
Você pode dizer que é uma agressão se considerá-las como
uma ilustração. Mas não no caso de considerá-las como aquilo
que imagino seja arte. A pessoa tem sua própria maneira de
transmitir o sentimento e a sensação da vida, e só existe uma
maneira de fazer isso. se a maneira é boa, eu não sei, mas é levada 
às últimas conseqüências.
Extraido do livro "A brutalidade do Fato - Entrevistas com Francis Bacon
de DAVID SYLVESTER

F. BACON - "Estudo para retrato de George Dyer" - óleo 1967

F. BACON - "Estudo para um retrato de Muriel Belcher" - óleo 1966

F. BACON - "Estudo para um retrato de Lucien Freud" - óleo 1965

F. BACON - "Estudo para um retrato de Lucien Freud" - óleo 1965

F. BACON - "Retrato" - óleo 1962