O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu cair do céu
uma chuva de folhetos; creram a princípio que era geada
de nova espécie, depois, vendo que não, correram todos
assustados; afinal, um mais animoso pegou de um dos folhetos,
outros fizeram a mesma coisa, leram e entenderam. O almanaque
trazia a lingua das cidades e dos campos em que caía. Assim
toda a terra possuiu, no mesmo instante, os primeiros almanaques.
Se muitos povos não têm ainda hoje, se outros morreram sem os ler, é porque vieram depois dos acontecimentos que estou narrando.
Naquela ocasião o dilúvio foi universal. - Agora, sim, disse Esperança pegando no folheto que achou na horta; agora já me não engano nos dias das amigas. Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas,
com sinais de cor os dias escolhidos.
Todas tinham almanaques. Nem só elas, mas também as matronas,
e os velhos e os rapazes, juízes, sacerdotes, comerciantes, governadores,
fâmulos; era moda trazer o almanaque na algibeira. Um poeta compôs
um poema atribuindo a invenção da obra às Estações, por ordem
de seus pais, o Sol e a Lua; um astrônomo, ao contrário, provou que
os almanaques eram destroços de um astro onde desde a origem dos séculos estavam escritas as línguas faladas na terra e provavelmente nos outros planeta. A explicação dos teólogos foi outra. Um grande físico
entendeu que os almanaques eram obra da própria terra, cuias palavras,
acumuladas no ar, formaram-se em ordem, imprimiram-se no próprio ar,
convertido em folhas de papel, graças...
Não continuou; tantas e tais eram as sentenças, que a de Esperança
foi a mais aceita do povo. - Eu creio que o almanaque é o almanaque,
dizia ela rindo. Quando chegou o fim do ano, toda a gente, que trazia
o almanaque com mil cuidados, para consultá-lo no ano seguinte,
ficou espantada de ver cair à noite outra chuva de almanaques.
Toda a terra amanheceu alastrada deles; eram os do ano novo.
Guardaram naturalmente os velhos. Ano findo, outro almanaque;
assim foram eles vindo, até que Esperança contou vinte e cinco anos,
ou, como então se dizia, vinte e cinco almanaques.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Nunca os dias pareceram correr tão depressa.
Voavam as semanas, com elas os meses, e,
mal o ano começava, estava logo findo. Esse efeito
entristeceu a terra. A própria Esperança, vendo que
os dias passavam tão velozes , e não achando marido,
pareceu desanimada; mas foi só um instante.
Nesse mesmo instante apareceu-lhe o Tempo.
Aquí estou, não deixes que te chegue a velhice... Ama-me...
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Esperança respondeu-lhe com duas gaifonas,
e deixou-se estar solteira. Há de vir o noivo, pensou ela.
Olhando-se ao espelho, viu que muito pouco mudara.
Os vinte e cinco almanaques quase lhe não apagaram
a frescura dos quinde. Era a mesma linda e jovem Esperança.
O velho Tempo, cada vez mais afogueado em paixão,
ia deixando cair os almanaques, ano por ano, até que ela
chegou aos trinta e daí aos trinta e cinco.
Eram já vinte almanaques; toda a gente começava
a odiá-los, menos Esperança, que era a mesma menina
das quinze primaveras. Trinta almanaques, quarenta,
cinquenta, sessenta, cem almanaques; velhices rápidas,
mortes sobre mortes, recordações amargas e duras.
A própria Esperança, indo ao espelho, descobriu
um fio de cabelo branco e uma ruga. /
- Uma ruga! uma só!
Outras vieram, à medida dos almanaques.
Afinal a cabeça de Esperança ficou sendo um pico de neve,
a cara um mapa de linhas. Só o coração era verde
como acontecia ao Tempo; verdes ambos, eternamente verdes.
Os almanaques iam sempre caindo. Um dia, o Tempo desceu
a ver a bela Esperança; achou-a anciã, mas forte,
com um perpétuo riso nos lábios.
- Ainda assim te amo, e te peço... disse ele.
Esperança abanou a cabeça; mas, logo depois estendeu-lhe a mão.
-Va lá, disse ela; ambos velhos, não será longo o consórcio.
- Pode ser indefinido.
- Como assim?
O velho Tempo pegou da noiva e foi com ela para um espaço
azul e sem termos, onde a alma de um deu à alma do outro
o beijo da eternidade. Toda a criação estremeceu deliciosamente.
A verdura dos corações ficou ainda mais verde.
Esperança, daí em diante, colaborou nos almanaques.
Cada ano, em cada almanaque, atava Esperança uma fita verde.
Então a tristeza dos almanaques era assim alegrada por ela;
e nunca o Tempo dobrou uma semana que a esposa
não pusesse um mistêrio na semana seguinte.
Deste modo todas elas foram passando, vazias ou cheias,
mas sempre acenando com alguma coisa que enchia a alma
dos homens de paciência e de vida. Assim as semanas,
assim os meses, assim os anos.
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