A bomba / gostaría de ter remorso
para justificar-se, mas isso lhe é vedado
A bomba / pediu ao Diabo que a batizasse
e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba / declara-se balança de justiça
arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba / tem um clube fechadíssimo
A bomba / pondera com olho neocrítico
o Prêmio Nobel
A bomba / é russuramericanenglich
mas agradam-lhe eflúvios de París
A bomba / oferece na bandeja de urânio puro,
a titulo de bonificação, átomos de paz
A bomba / não terá trabalho com as artes visuais,
concretas ou tachistas
A bomba / desenha sinais de trânsito
ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas
A bomba / não admite que ninguém
se dê ao luxo de morrer de cáncer
A bomba / vai à lua, assovia e volta
A bomba / reduz neutros e neutrinos,
e abana-se com o leque da reação em cadeia
A bomba / está abusando da glória
de ser bomba
A bomba / não se sabe quando, onde
e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável
A bomba / é vigiada por sentinelas
pávidas em torreões de cartolina
A bomba / com ser uma besta confusa /
da tempo ao homem para que se salve
A bomba / não destruirá a vida
O homem (tenho esperança) liquidará a bomba