NICCOLO CANNICI
Florença, Itália 1846-1906
Foi um pintor italiano associado aos "macchiaioli",
que pintou visões urbanas e rurais, retratando
frequentemente a interseção da paisagem urbana
e industrial com a rural e pastoral.
O propósito deste blog é o de mostrar o trabalho do ilustrador,independente das regras impostas pelo mercado,nas quatro disciplinas praticadas por mim, em diferentes momentos e veículos: A Caricatura na Imprensa,A Ilustração na Imprensa,A Ilustração Editorial e O Poema Ilustrado. Também são mostradas modalidades diferentes das mesmas propostas como: Montagens das exposições e a revalorização do painel mural, através das técnicas de reprodução digital em baner.
domingo, 18 de junho de 2017
terça-feira, 13 de junho de 2017
Naquela noite não foi possível fumar.
Todos os fumeiros de ópio do bairro chinês de Lima
estavam fechados. Meu amigo que conduzia-me
pelos dédalos soturnos da conhecida mansão amarela
da rua Hoyos, onde há numerosos pontos onde se pode
fumar, despediu-se por fim, já aporcelanadas a alma
e a pituitária, pegou o primeiro bonde e perdeu-se
madrugada adentro.
Ainda me sentia um pouco bêbado após os últimos
goles, era minha boemia de então, bebedeira indisposta
sempre por balanços ímpares, enconchada de paladares
secos, o círculo da minha cara metade de homem
a dois pontos da realidade até as três laterais do impossível!
Mas perdoai-me esses desabafos que têm ainda um odor
bélico de perdigões fundidos nas rugas.
Dizia que me sentia bêbado ao encontrar-me só, caminhando sem rumo pelos bairros asiáticos da cidade.
Tudo se tornava mais claro no meu espírito. Fiz um balanço
do que acontecera comigo. A ansiedade pousou
do lado esquerdo do peito, perfurando como uma máquina,
dando voltas e entrando fundo, transpassando-me
em todas as direções, envolvendo-me na cabeleira negra
e brilhante da minha noiva perdida para sempre.
Não conseguia dormir, era impossível. Sentia a dor tênue
da minha felicidade mutilada, cujos brilhos eram trabalhados
agora pela tristeza cerrada e irremediável, que assomavam
ocultos nos mais fundos parênteses da minha alma,
como que dizendo com misteriosa ironia que amanhã sim,
como não, outra vez, que bom...
Senti vontade de fumar. Precisava aliviar minha crise
nervosa. Segui na direção do fumeiro de Chale,
que estava próximo.
Cheguei à porta com cautela, parei para ouvir. Nada.
Após breve espera, decidi sair dali quando ouvi alguém
saltar e caminhar descalzo pela habitação. Aguardei
para ver se havia algum companheiro. Pela fechadura
da porta pude distinguir uma luz e Chale sentado,
demonstrando irritação, diante de uma lamparina
cujo verdor patogênico se uniu ao semitom melancólico
da face do chinês tingida de furor. Não havia mais ninguém.
Dado o aspecto inexpugnável de Chale, que teria acabado
de despertar de algum pesadelo, achei que era inoportuna
a minha presença e resolvi ir embora, mas o asiático abriu
uma das gavetas de uma mesa e, comandado por alguma voz interior e inexorável que se dispersava pelo corpo
inteiro num avanço resoluto, tirou de um estojo de cedro
polido, dois objetos alvos que surgiram entre as unhas
asquerosas e pungentes. Colocou-os na borda da mesa.
Eram dois pequenos blocos de mármore. Não sei por que,
desde o primeiro instante, e sem os tocar ou ver nitidamente,
as peças deram a impressão de atravessar o espaço,
caindo entre os meus dedos, produzindo a mais exata sensação do mármore.
O chinês segurou os dados novamente, enviesando no ar
olhares febris, como se estivesse num devaneio angustiado,
para que não mostrasse diante de mim as suposições
sobre a causa da sua vigília.
Examinou os dados detidamente sob a luz. Sim, dois pedaços de mármore.
Sem abandoná-los, com o cotovelo sobre a mesa,
o olhar ébrio, murmurou algum monossílabo canalha
que espetou a sua alma, lacrimejando agora de ambição
mezclada com impotência. Retirou da mesma gaveta,
incitado por uma antiga firmeza que revivia pela centésima
vez, alguns instrumentos de aço e com eles começou a modelar os mármores.
Disse antes que algumas conjeturas surgiram diante de mim.
Conhecia Chale há dois anos. O asiático era um jogador muito afamado em Lima; perdera já muito dinheiro,
mas ganhara muito mais. O que poderia significar esse tormento agora, esse episódio furibundo de artífice noturno?
E os pedaços de pedra? Por que dois e não um, três
ou mais? Eureka! Eram dois dados em elaboração.
O chinês esculpia, modelava noite adentro. Sua face forjava,
também, uma sucessão infinita de linhas. Houve momentos
em que Chale se exaltava e queria romper aqueles objetos
que iriam rolar sobre o veludo, perseguindo-se entre si,
à revelia da sorte e do azar, sob o rumor dos punhos fechados que batessem um contra o outro, até produzirem chispas.
Tal cena me interessara tanto que não quis sequér abandoná-la. Dirse-ia que se tratava de uma obra
em progresso energético e paciente. E eu aguçava a mente,
perguntando-me sobre o que perseguiria aquele doente do destino. Burilar um par de dados. E daí?
Tanto se fala em prestidigitação, fraudes secretas
ou artificios no jogo que, sem dúvida, falei a mim mesmo,
este homem prepara algo desse gênero. Mas o que mais
intrigava, como se compreenderá, era o meio usado,
em cuja correlação que devia preestabelecer entre o estilo
dos dados e as posibilidades dinâmicas das mãos. Porque
se não fosse necessária essa concorrência bilateral
de elementos, o que levava o chinês a modelar os dados?
Qualquer material seria utilizável para esse fim.
Mas neste caso, não.
Não há dúvida que os dados devem ser feitos
com determinado material, sob um peso específico,
e arestas com inclinações impalpáveis para serem lançados
com a ponta dos dedos.
Devem ser polidos com outro achatamento ou uma aspereza
quase imaterial entre a marca e os pontos,
ou entre um ângulo poliédrico e o exergo em branco
de uma das quatro faces correspondentes. É necessário
reproduzir a atitude da matéria aleatória para tornar possível
a sua sujeição e a docilidade das vibrações humanas,
sempre improvisadas, que triunfam por essa razão,
e que o mais hermético e cego dos avatares calcula.
Entretanto, era ver o asiático em sua tempestuosa lida criadora, com o cinzel em punho, picando, riscando,
partindo, revirando as condições da harmonia
entre as inatas proporções do lado e as ignoradas potências
de sua vontade mutável.
Interrompia o trabalho por instantes, observava o pedaço
de mármore e sorria, o rosto transfigurado, banhado pela luz da lamparina. Depois, mais tranquilo, trabalhava, trocava
de cinzel, fazia girar o dado, como se ensaiasse um lance,
confrontando as perspectivas com calma, e engendrando
planos.
Poucas semanas depois daquela noite, houve quem
comentasse coisas incríveis sobre fatos que aconteceram
recentemente nas casas de jogo de Lima. Dia após dia
as lendas fabulosas aumentavam. Numa tarde do último
inverno, na porta do Palais Concert, um personagem exótico
falava a um grupo de pessoas que o ouviam com atenção:
- Chale para poder ganhar esses dez soles, não jogou limpo.
Não sei como, mas o chinês manobra uma prestidigitação
misteriosa na mesa de dados. Isso não há como negar.
Observem - sublinhou o homem com uma gravidade sombria
- que os dados com que o chinês joga, jamais aparecem nas mãos de outro jogador. Falo de antecedentes inequívocos
e da minha própria observação. Os dados têm alguma coisa,
enfim, não sei...
Fiquei inquieto uma noite na sala onde Chale jogava.
Era uma casa de jogo que se dedicava aos mais extraordinários duelos de dados. Havia muita gente
em torno da mesa, a atenção de todos guiada
para o tecido ganglionado da mesa cheia de apostas,
revelou-me que essa seria uma noite agitada.
Alguns amigos entusiastas animaram-me a arriscar.
Chale estava lá. Parecia presidir a sessão, à cabeceira
da mesa, com seu semblante impassível e torturante:
duas correias pelo pescoço, caindo dos parietais,
de pelagem rala, até as clavículas lívidas; a boca desenhando a cobiça com os dois lábios, que não sorriam jamais, como se tevessem medo de revelar-se; uma camisa
de manga até o cotovelo. O grito de vida saltava de um pulso
a outro, como se buscasse as portas das mãos para escapar
de um corpo tão miserável. A lividez repugnante impregnara
as maçãs do seu rosto.
Dir-se-ia que perdera a faculdade de falar. Sinais, advérbios
quase inarticulados; interjeições arrastadas.
Oh, como queima, às vezes, a respiração branquial
daquele que está morto e no entanto permanece vivo dentro de cada um de nós!
Resolvi observar, com sutileza e atenção, as mais tênues
ondas psicológicas e mecânicas do chinês.
Era quase uma da madrugada.
Alguém apostou mais de cinco mil soles. O ar esquentou
como a água quente em ebulição. Se quisesse descrever
como estavam os rostos dos circunstantes naqueles segundos, diria que todos se baixaram e foram oprimidos
e tocados pelos dados de Chale, inflamando-se
e aguçando-se ali, até urgir e querer arrancar uma novena
de cada lado, com um ansiado riso do destino. Chale lançou
os dados com tal violência, como um par de brasas
que chispassem, e deu um grito ríspido que parecia cheirar
a carne podre.
Apalpei meu próprio corpo, e dei-me conta de que estava tremendo de medo. O que o chinês havia sentido?
Todos os fumeiros de ópio do bairro chinês de Lima
estavam fechados. Meu amigo que conduzia-me
pelos dédalos soturnos da conhecida mansão amarela
da rua Hoyos, onde há numerosos pontos onde se pode
fumar, despediu-se por fim, já aporcelanadas a alma
e a pituitária, pegou o primeiro bonde e perdeu-se
madrugada adentro.
Ainda me sentia um pouco bêbado após os últimos
goles, era minha boemia de então, bebedeira indisposta
sempre por balanços ímpares, enconchada de paladares
secos, o círculo da minha cara metade de homem
a dois pontos da realidade até as três laterais do impossível!
Mas perdoai-me esses desabafos que têm ainda um odor
bélico de perdigões fundidos nas rugas.
Dizia que me sentia bêbado ao encontrar-me só, caminhando sem rumo pelos bairros asiáticos da cidade.
Tudo se tornava mais claro no meu espírito. Fiz um balanço
do que acontecera comigo. A ansiedade pousou
do lado esquerdo do peito, perfurando como uma máquina,
dando voltas e entrando fundo, transpassando-me
em todas as direções, envolvendo-me na cabeleira negra
e brilhante da minha noiva perdida para sempre.
Não conseguia dormir, era impossível. Sentia a dor tênue
da minha felicidade mutilada, cujos brilhos eram trabalhados
agora pela tristeza cerrada e irremediável, que assomavam
ocultos nos mais fundos parênteses da minha alma,
como que dizendo com misteriosa ironia que amanhã sim,
como não, outra vez, que bom...
Senti vontade de fumar. Precisava aliviar minha crise
nervosa. Segui na direção do fumeiro de Chale,
que estava próximo.
Cheguei à porta com cautela, parei para ouvir. Nada.
Após breve espera, decidi sair dali quando ouvi alguém
saltar e caminhar descalzo pela habitação. Aguardei
para ver se havia algum companheiro. Pela fechadura
da porta pude distinguir uma luz e Chale sentado,
demonstrando irritação, diante de uma lamparina
cujo verdor patogênico se uniu ao semitom melancólico
da face do chinês tingida de furor. Não havia mais ninguém.
Dado o aspecto inexpugnável de Chale, que teria acabado
de despertar de algum pesadelo, achei que era inoportuna
a minha presença e resolvi ir embora, mas o asiático abriu
uma das gavetas de uma mesa e, comandado por alguma voz interior e inexorável que se dispersava pelo corpo
inteiro num avanço resoluto, tirou de um estojo de cedro
polido, dois objetos alvos que surgiram entre as unhas
asquerosas e pungentes. Colocou-os na borda da mesa.
Eram dois pequenos blocos de mármore. Não sei por que,
desde o primeiro instante, e sem os tocar ou ver nitidamente,
as peças deram a impressão de atravessar o espaço,
caindo entre os meus dedos, produzindo a mais exata sensação do mármore.
O chinês segurou os dados novamente, enviesando no ar
olhares febris, como se estivesse num devaneio angustiado,
para que não mostrasse diante de mim as suposições
sobre a causa da sua vigília.
Examinou os dados detidamente sob a luz. Sim, dois pedaços de mármore.
Sem abandoná-los, com o cotovelo sobre a mesa,
o olhar ébrio, murmurou algum monossílabo canalha
que espetou a sua alma, lacrimejando agora de ambição
mezclada com impotência. Retirou da mesma gaveta,
incitado por uma antiga firmeza que revivia pela centésima
vez, alguns instrumentos de aço e com eles começou a modelar os mármores.
Disse antes que algumas conjeturas surgiram diante de mim.
Conhecia Chale há dois anos. O asiático era um jogador muito afamado em Lima; perdera já muito dinheiro,
mas ganhara muito mais. O que poderia significar esse tormento agora, esse episódio furibundo de artífice noturno?
E os pedaços de pedra? Por que dois e não um, três
ou mais? Eureka! Eram dois dados em elaboração.
O chinês esculpia, modelava noite adentro. Sua face forjava,
também, uma sucessão infinita de linhas. Houve momentos
em que Chale se exaltava e queria romper aqueles objetos
que iriam rolar sobre o veludo, perseguindo-se entre si,
à revelia da sorte e do azar, sob o rumor dos punhos fechados que batessem um contra o outro, até produzirem chispas.
Tal cena me interessara tanto que não quis sequér abandoná-la. Dirse-ia que se tratava de uma obra
em progresso energético e paciente. E eu aguçava a mente,
perguntando-me sobre o que perseguiria aquele doente do destino. Burilar um par de dados. E daí?
Tanto se fala em prestidigitação, fraudes secretas
ou artificios no jogo que, sem dúvida, falei a mim mesmo,
este homem prepara algo desse gênero. Mas o que mais
intrigava, como se compreenderá, era o meio usado,
em cuja correlação que devia preestabelecer entre o estilo
dos dados e as posibilidades dinâmicas das mãos. Porque
se não fosse necessária essa concorrência bilateral
de elementos, o que levava o chinês a modelar os dados?
Qualquer material seria utilizável para esse fim.
Mas neste caso, não.
Não há dúvida que os dados devem ser feitos
com determinado material, sob um peso específico,
e arestas com inclinações impalpáveis para serem lançados
com a ponta dos dedos.
Devem ser polidos com outro achatamento ou uma aspereza
quase imaterial entre a marca e os pontos,
ou entre um ângulo poliédrico e o exergo em branco
de uma das quatro faces correspondentes. É necessário
reproduzir a atitude da matéria aleatória para tornar possível
a sua sujeição e a docilidade das vibrações humanas,
sempre improvisadas, que triunfam por essa razão,
e que o mais hermético e cego dos avatares calcula.
Entretanto, era ver o asiático em sua tempestuosa lida criadora, com o cinzel em punho, picando, riscando,
partindo, revirando as condições da harmonia
entre as inatas proporções do lado e as ignoradas potências
de sua vontade mutável.
Interrompia o trabalho por instantes, observava o pedaço
de mármore e sorria, o rosto transfigurado, banhado pela luz da lamparina. Depois, mais tranquilo, trabalhava, trocava
de cinzel, fazia girar o dado, como se ensaiasse um lance,
confrontando as perspectivas com calma, e engendrando
planos.
Poucas semanas depois daquela noite, houve quem
comentasse coisas incríveis sobre fatos que aconteceram
recentemente nas casas de jogo de Lima. Dia após dia
as lendas fabulosas aumentavam. Numa tarde do último
inverno, na porta do Palais Concert, um personagem exótico
falava a um grupo de pessoas que o ouviam com atenção:
- Chale para poder ganhar esses dez soles, não jogou limpo.
Não sei como, mas o chinês manobra uma prestidigitação
misteriosa na mesa de dados. Isso não há como negar.
Observem - sublinhou o homem com uma gravidade sombria
- que os dados com que o chinês joga, jamais aparecem nas mãos de outro jogador. Falo de antecedentes inequívocos
e da minha própria observação. Os dados têm alguma coisa,
enfim, não sei...
Fiquei inquieto uma noite na sala onde Chale jogava.
Era uma casa de jogo que se dedicava aos mais extraordinários duelos de dados. Havia muita gente
em torno da mesa, a atenção de todos guiada
para o tecido ganglionado da mesa cheia de apostas,
revelou-me que essa seria uma noite agitada.
Alguns amigos entusiastas animaram-me a arriscar.
Chale estava lá. Parecia presidir a sessão, à cabeceira
da mesa, com seu semblante impassível e torturante:
duas correias pelo pescoço, caindo dos parietais,
de pelagem rala, até as clavículas lívidas; a boca desenhando a cobiça com os dois lábios, que não sorriam jamais, como se tevessem medo de revelar-se; uma camisa
de manga até o cotovelo. O grito de vida saltava de um pulso
a outro, como se buscasse as portas das mãos para escapar
de um corpo tão miserável. A lividez repugnante impregnara
as maçãs do seu rosto.
Dir-se-ia que perdera a faculdade de falar. Sinais, advérbios
quase inarticulados; interjeições arrastadas.
Oh, como queima, às vezes, a respiração branquial
daquele que está morto e no entanto permanece vivo dentro de cada um de nós!
Resolvi observar, com sutileza e atenção, as mais tênues
ondas psicológicas e mecânicas do chinês.
Era quase uma da madrugada.
Alguém apostou mais de cinco mil soles. O ar esquentou
como a água quente em ebulição. Se quisesse descrever
como estavam os rostos dos circunstantes naqueles segundos, diria que todos se baixaram e foram oprimidos
e tocados pelos dados de Chale, inflamando-se
e aguçando-se ali, até urgir e querer arrancar uma novena
de cada lado, com um ansiado riso do destino. Chale lançou
os dados com tal violência, como um par de brasas
que chispassem, e deu um grito ríspido que parecia cheirar
a carne podre.
Apalpei meu próprio corpo, e dei-me conta de que estava tremendo de medo. O que o chinês havia sentido?
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Por que lançou os dados daquela maneira,
como se houvessem queimado o cortado as suas mãos?
Os jogadores, como é natural, diante de uma aposta tão alta
teriam ficado impressionados?
Enquanto os dados permaneceram abandonados
sobre o veludo cor de esmeralda, vieram a minha memória
os dois pedaços de mármore que vi Chale modelar
naquela noite longínqua. Os dados que via agora provinham
com certeza daquelas pedras, eram mármores alvos
e translúcidos nas bordas, com um brilho firme,
quase metálico no fundo. Belíssimos cubos de Deus!
O chinês, após a vacilação fugaz, recolheu outra vez
os dados e continuou jogando, não sem algum tremor
convalescente na têmpora que só eu percebi.
Segurou os dados, mexeu-os, voltou a lançar dois,
três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes. Na nona conseguiu
uma quina e uma sena.
Todos pareciam ter ficado mais soltos e ressucitaram,
tornaram-se mais humanos. Alguém pediu um cigarro;
tossiram. Chale pegou mil quinhentos soles. Suspirei,
engoli a saliva. Fazia calor.
Novas apostas foram feitas, e continuou a trágica disputa
da sorte contra a sorte.
Notei que a derrota de Chale não o transformara
nem um pouco, circunstância que lançava mais sombra
de mistério sobre a razão de seu imprevisto rapto de ira
anterior que não poderia atribuir-se a algum ardor nervoso, sem motivo, solapava meu espírito com crescentes ardis
sobre as possíveis relações do chinês com correntes
ou potências para além dos fatos e da realidade. Até onde
Chale poderia manipular o destino a seu favor, por meio
de uma técnica sábia e infalível no manejo dos dados?
No primeiro jogo que se seguiu ao de cinco mil soles,
valor similar foi apostado novamente. Varias pessoas
apostaram valores inferiores a quinhentas libras.
O ambiente de contenda tornou-se mais hostil
para o banqueiro.
Os dados saltaram da mão direita do asiático,
em simultâneo, dotados de um impulso parecido.
Com um instrumento de medida que pudesse registrar
as cifras inomináveis as equações humanas criadoras
de ações infinitesimais, constatou-se a simultaneidade
absolutamente matemática com que ambos os mármores
foram lançados no espaço. Poderia jurar que, ao auscultar
a relação de avanço que se desenvolvia entre esses dois dados ao iniciarem o voo, o que há de mais permanente,
vivo, pujante, inabalável e eterno em meu ser, fundidas
todas as potências da dimensão física, deu-se contra
si mesmo, e assim pude sentir no espírito o lançamento dos dois ao mesmo tempo.
Chale havia lançado os dados restringindo toda sua
escultura numa curva anatômica rara e singular, que turvou
ainda mais minha sensibilidade sugestiva. Diria que nesse
momento havia o jogador estilizado em toda a sua animalidade, subordinando-a a um pensamento e desejo
únicos naquele momento do jogo.
Com efeito, como descrever semelhante movimento
do seu flanco ossudo, apoiando-se sobre a própria
balbúrdia do silêncio suspenso entre as duas pedras
a caminho? Um ritmo semelhante das omoplatas
transfigurava-se, como se incubasse asas que logo cresciam
e saltavam para fora, diante da cegueira de todos
os jogadores que não percebiam nada disso e me deixavam
só na presença daquele espetáculo que castigava o coração!
Aquela confluência do ombro direito, calma, esperando
que a testa do chinês acabasse de fazer todo o arco
que a intuição e o cálculo mental de forças, distâncias,
obstáculos, elementos aceleradores e até o máximo
de intervenção de uma segunda potência humana moderavam, estendiam, ajustavam desde o ponto mais alto
da vontade vidente do homem até o movimento demarcado da onipotência divina...
E essa mão macilenta e ambarina, neurótica, mágica,
quase translúcida sob a luz que parecia portar e transmitir
a vertigem dos dados, que esperavam na concha das mãos,
saltando, hidrogênicos, palpitantes, cálidos, brandos,
submissos, transubstanciados, tal vez, em dois pedaços
de cera que só se deteriam num ponto do tecido estendido,
secretamente solicitado, plasmados pelos dois lados
que se ligam ao jogador... a presença completa de Chale
e toda a atmosfera de extraordinária e ineludível soberania
que se desenvolveu na sala naquele instante, envolveu
também, como um átomo no meio do fogo solar do meio-dia.
Os dados voaram perfeitos, rolaram friccionando-se, patinando, saltando isócronos, com o ritmo pulsante de dois
tambores que ritmassem o dobre da marcha
que já não podia voltar atrás, apesar do próprio Deus,
ante os olhares daquela estância solene e recolhida
como uma igreja na hora da hóstia sagrada...
Uma linha vibrante e grisada moldava cada lado ao girar.
Uma dessas linhas começou a engrossar, desdobrou-se
em manchas mais brancas do que outras; desenhou
uma sucessão de dois pontos, depois cinco, quatro, três
e plantou-se marcando a quina. O outro pedaço de mármore,
oh as costas e o flanco, o homem e a cara do jogador!
Oh o lance simultâneo dos dados! Um mármore avançou
três vezes mais de que o outro, e num processo parecido
de evolução em direção da meta insuspeitada, apresentou
também cinco pontos sobre o veludo. Que sorte!
O chinês, com a serenidade de quem interpreta um enigma
cujo significado já conhecesse há muito tempo, arrebatou
para a sua banca os cinco mil soles da rodada.
Alguém anunciou a meia voz:
Que coisa! As apostas mais altas saem sempre para Chale
ninguém consegue vencê-lo.
como se houvessem queimado o cortado as suas mãos?
Os jogadores, como é natural, diante de uma aposta tão alta
teriam ficado impressionados?
Enquanto os dados permaneceram abandonados
sobre o veludo cor de esmeralda, vieram a minha memória
os dois pedaços de mármore que vi Chale modelar
naquela noite longínqua. Os dados que via agora provinham
com certeza daquelas pedras, eram mármores alvos
e translúcidos nas bordas, com um brilho firme,
quase metálico no fundo. Belíssimos cubos de Deus!
O chinês, após a vacilação fugaz, recolheu outra vez
os dados e continuou jogando, não sem algum tremor
convalescente na têmpora que só eu percebi.
Segurou os dados, mexeu-os, voltou a lançar dois,
três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes. Na nona conseguiu
uma quina e uma sena.
Todos pareciam ter ficado mais soltos e ressucitaram,
tornaram-se mais humanos. Alguém pediu um cigarro;
tossiram. Chale pegou mil quinhentos soles. Suspirei,
engoli a saliva. Fazia calor.
Novas apostas foram feitas, e continuou a trágica disputa
da sorte contra a sorte.
Notei que a derrota de Chale não o transformara
nem um pouco, circunstância que lançava mais sombra
de mistério sobre a razão de seu imprevisto rapto de ira
anterior que não poderia atribuir-se a algum ardor nervoso, sem motivo, solapava meu espírito com crescentes ardis
sobre as possíveis relações do chinês com correntes
ou potências para além dos fatos e da realidade. Até onde
Chale poderia manipular o destino a seu favor, por meio
de uma técnica sábia e infalível no manejo dos dados?
No primeiro jogo que se seguiu ao de cinco mil soles,
valor similar foi apostado novamente. Varias pessoas
apostaram valores inferiores a quinhentas libras.
O ambiente de contenda tornou-se mais hostil
para o banqueiro.
Os dados saltaram da mão direita do asiático,
em simultâneo, dotados de um impulso parecido.
Com um instrumento de medida que pudesse registrar
as cifras inomináveis as equações humanas criadoras
de ações infinitesimais, constatou-se a simultaneidade
absolutamente matemática com que ambos os mármores
foram lançados no espaço. Poderia jurar que, ao auscultar
a relação de avanço que se desenvolvia entre esses dois dados ao iniciarem o voo, o que há de mais permanente,
vivo, pujante, inabalável e eterno em meu ser, fundidas
todas as potências da dimensão física, deu-se contra
si mesmo, e assim pude sentir no espírito o lançamento dos dois ao mesmo tempo.
Chale havia lançado os dados restringindo toda sua
escultura numa curva anatômica rara e singular, que turvou
ainda mais minha sensibilidade sugestiva. Diria que nesse
momento havia o jogador estilizado em toda a sua animalidade, subordinando-a a um pensamento e desejo
únicos naquele momento do jogo.
Com efeito, como descrever semelhante movimento
do seu flanco ossudo, apoiando-se sobre a própria
balbúrdia do silêncio suspenso entre as duas pedras
a caminho? Um ritmo semelhante das omoplatas
transfigurava-se, como se incubasse asas que logo cresciam
e saltavam para fora, diante da cegueira de todos
os jogadores que não percebiam nada disso e me deixavam
só na presença daquele espetáculo que castigava o coração!
Aquela confluência do ombro direito, calma, esperando
que a testa do chinês acabasse de fazer todo o arco
que a intuição e o cálculo mental de forças, distâncias,
obstáculos, elementos aceleradores e até o máximo
de intervenção de uma segunda potência humana moderavam, estendiam, ajustavam desde o ponto mais alto
da vontade vidente do homem até o movimento demarcado da onipotência divina...
E essa mão macilenta e ambarina, neurótica, mágica,
quase translúcida sob a luz que parecia portar e transmitir
a vertigem dos dados, que esperavam na concha das mãos,
saltando, hidrogênicos, palpitantes, cálidos, brandos,
submissos, transubstanciados, tal vez, em dois pedaços
de cera que só se deteriam num ponto do tecido estendido,
secretamente solicitado, plasmados pelos dois lados
que se ligam ao jogador... a presença completa de Chale
e toda a atmosfera de extraordinária e ineludível soberania
que se desenvolveu na sala naquele instante, envolveu
também, como um átomo no meio do fogo solar do meio-dia.
Os dados voaram perfeitos, rolaram friccionando-se, patinando, saltando isócronos, com o ritmo pulsante de dois
tambores que ritmassem o dobre da marcha
que já não podia voltar atrás, apesar do próprio Deus,
ante os olhares daquela estância solene e recolhida
como uma igreja na hora da hóstia sagrada...
Uma linha vibrante e grisada moldava cada lado ao girar.
Uma dessas linhas começou a engrossar, desdobrou-se
em manchas mais brancas do que outras; desenhou
uma sucessão de dois pontos, depois cinco, quatro, três
e plantou-se marcando a quina. O outro pedaço de mármore,
oh as costas e o flanco, o homem e a cara do jogador!
Oh o lance simultâneo dos dados! Um mármore avançou
três vezes mais de que o outro, e num processo parecido
de evolução em direção da meta insuspeitada, apresentou
também cinco pontos sobre o veludo. Que sorte!
O chinês, com a serenidade de quem interpreta um enigma
cujo significado já conhecesse há muito tempo, arrebatou
para a sua banca os cinco mil soles da rodada.
Alguém anunciou a meia voz:
Que coisa! As apostas mais altas saem sempre para Chale
ninguém consegue vencê-lo.
O Chinês, repeti a mim mesmo, não há dúvida,
tem o domínio completo dos dados que ele mesmo
esculpiu, é dono e senhor dos mais indecifráveis
designios do destino, eles o obedecem incondicionalmente.
Os mais poderosos jogadores enfureceram-se
e queixaram-se de Chale, após a última jogada. A sala
inteira se agitou num arroubo de despeito; o protesto
amordaçado dessa massa de seres que fora golpeada
pela sombra invencível do destino, encarnada na figura
fascinante de Chale, esteve a ponto de se transformar
num banho de sangue. Um só grande infortúnio pode mais
do que milhares de triunfos dispersos, e os atrai e prende
às suas entranhas enfurecidas até serem untados
com azeite incandescente e funéreo. Todos esses homens
sentiam-se feridos com a última vitória do chinês, e todos
lhe haviam arrancado a vida aos trancos. Eu mesmo -
incitado pelo despeito - odiei o Chale com todo rancor
naquele instante.
Seguiu-se uma rodada de dez mil soles. Todos tremeram
de espectativa, medo e uma misericórdia infinita,
como se fôssemos presenciar algo grandioso. A tragédia
se revolvia, sôfrega, ao longo da pele. As pálpebras
tremeram, quase vertendo lágrimas puras. Os rostos
tornaram-se azul-violáceos de incerteza. Chale jogou
os dados. E só com este lance, duas cenas surgiram
sobre o veludo. Que sorte!
Percebi alguém abrindo caminho ao meu lado, afastando-me
para chegar até a mesa, pressionando-me de forma brutal,
como se uma energia irresistível e fatal impulsionasse
o intruso a tal procedimento. Quem estava ao meu lado
sofreu a mesma humilhação provocada pelo desconhecido.
O chinês em vez de recolher o dinheiro que ganhara
revelou o maior desprezo, e como que movido
por um recurso, virou o rosto imediatamente em direção
do novo concorrente. Chale mudou de fisionomia.
Os olhares dos homens chocaram-se, como dois bicos
de ave que se tocassem no ar.
O forasteiro era um homem alto e de proporção harmoniosa;
um grande crânio numa cabeça munida de um maxilar
inferior que repousava recolhido e armado
por uma dentadura capaz de mastigar cabeças e troncos
inteiros. O declive das bochechas alargava-se de cima
para baixo. Os olhos pequenos recuavam para logo
acometer em insuspeitas investidas; as pupilas sem cor
pareciam duas conchas vazias; a pele bronzeada,
cabelos soltos, nariz adunco, testa agitada.
Parecia provocante, detentor de sugestões sedutoras.
O homem causava uma apreensão mortificante,
apesar da beleza. Qual era sua origem? Não revelava
nenhuma. aquele peregrino não posuia nenhuma pátria étnica.
Tinha um inegável traço mundano de jogador
irrepreensível, com seu vestir correto, a distinção
e o desenfado requerido pelos seus modos.
Logo que esse personagem ocupou seu espaço
na mesa de jogo, todo o gás envenenado de embriagês
e cobiça que respirávamos na sala se dissipou
de imediato.
Que oxigênio secreto trazia aquele homem? Se pudesse
descrever o ar, diria que era sereno e agradavelmente azul.
Recobrei a consciência, entre um sopro fresco
de renovação sanguínea e alívio.
Senti que me libertava de algo. Houve um remanso
no semblante de todos. O poder de Chale e todas as suas posturas de sortilégio terminaram.
Contudo, alguma coisa começara agora, uma sensação
de curiosidade primeiro, depois de penosa inquietação
provocada, sem dúvida, pela presença do novo jogador.
Sim, pois, ele trazia um propósito esmagador,
algum desígnio inexplicável.
O asiático estava transformado, desde que viu
o desconhecido não voltou a encará-lo. Eu podia
jurar que ficou com medo e que nele, mais do que em qualquer outro, o efeito repulsivo e a aversão
que o homem despertava, foi muito maior para dissimular.
Chale o odiava, sentia temor. Essa é a palavra: tinha medo.
Além do mais, ninguém havia visto o cavalheiro
naquela casa de jogo. Chale nem sequer o conhecia,
por essa razão odiava a sua presença.
O apostador começou a respirar com dificuldade,
como se estivesse asfixiado. Arquejava olhando fixamente
o chinês que parecia triturado por aquele olhar, destruído,
reduzindo a carvão barato toda a sua personalidade moral,
a confiança em si mesmo, a sua beligerância triunfadora.
Chale, perplexo como um menino pego em flagrante,
movia os dedos na concha da sua mão direita hesitante,
como se desejasse que caíssem impotentes.
O círculo, aos poucos começou a convergir os olhares
para o forasteiro que ainda não pronunciara nenhuma
palavra. Fez-se silêncio.
Por fim, o recém-chegado disse, dirigindo-se ao chinês:
- Quanto tem em sua banca?
Chale piscou fazendo um trejeito apocalíptico e ridículo
de desamparo, como se fosse receber uma bofetada
mortal. Virando-se, balbuciou algo, sem saber o que dizia.
- Está tudo aquí.
A banca contabilizava mais ou menos cinquenta mil soles.
O desconhecido mencionou a soma, retirou um valor igual
da sua carteira e com superioridade dispôs sobre a mesa,
efetuando sua aposta diante do espanto dos circunstantes.
O chinês mordeu os lábios e, evitando sempre o rosto
do adversário, mexeu os seus cubos de mármore.
Ninguém quis acompanhar a aposta ousada e monstruosa.
O único apostador solitário, sem ninguém que, absolutamente ninguém senão o chinês, pudesse admoestá-lo, tirou do bolso o seu revólver, e aproximou-o
da cabeça de Chale, com o dedo no gatilho.
Ninguém, repito, percebeu essa espada de Dámocles
que ficou suspensa sobre a vida do asiático. Pelo contrário,
todos viram o perigo pendente sobre a fortuna
do desconhecido, pois a sua derrota estava determinada.
Lembrei o que antes sussurraram na sala:
- As apostas mais altas vão sempre para Chale. Ninguém
consegue ganhar dele.
Era sorte? Conhecimento? Não sei. Mas agora eu era
o único que previa a vitória do chinês.
Ele lançou os dados. Oh o flanco e a costa, o ombro
e o semblante do jogador! De novo, e com mais eloquência,
repete-se diante dos meus olhos e da minha alma,
o espetáculo magnífico, a curva anatômica, a polarização
de toda a vontade que dirige, doma e subjuga
os mais inextricáveis designios do destino. De novo essa
partida simultânea dos dados diante dos mesmos termos
aleatórios da aposta. Abri os olhos para verificar se a sorte
iria agraciar mais uma vez aquele jogador exímio.
Os mármores rolaram, rolaram.
O revólver aguardava. O apostador não olhava os dados:
mirava apenas, fixo, implacavelmente terrível, a testa
do asiático.
Diante do desafio, que ninguém notava, do revólver
contra o par de dados que pintaria o número se unindo
à invencível sombra do destino, encarnada na figura
de Chale, qualquer um poderia assegurar que eu
permanecia ali. Mas não, não estava.
Os dados pararam. A morte e o destino deixaram todos
boquiabertos.
Dois ases!
O chinês começou a chorar como uma criança.
tradução: Jorge Simões
tem o domínio completo dos dados que ele mesmo
esculpiu, é dono e senhor dos mais indecifráveis
designios do destino, eles o obedecem incondicionalmente.
Os mais poderosos jogadores enfureceram-se
e queixaram-se de Chale, após a última jogada. A sala
inteira se agitou num arroubo de despeito; o protesto
amordaçado dessa massa de seres que fora golpeada
pela sombra invencível do destino, encarnada na figura
fascinante de Chale, esteve a ponto de se transformar
num banho de sangue. Um só grande infortúnio pode mais
do que milhares de triunfos dispersos, e os atrai e prende
às suas entranhas enfurecidas até serem untados
com azeite incandescente e funéreo. Todos esses homens
sentiam-se feridos com a última vitória do chinês, e todos
lhe haviam arrancado a vida aos trancos. Eu mesmo -
incitado pelo despeito - odiei o Chale com todo rancor
naquele instante.
Seguiu-se uma rodada de dez mil soles. Todos tremeram
de espectativa, medo e uma misericórdia infinita,
como se fôssemos presenciar algo grandioso. A tragédia
se revolvia, sôfrega, ao longo da pele. As pálpebras
tremeram, quase vertendo lágrimas puras. Os rostos
tornaram-se azul-violáceos de incerteza. Chale jogou
os dados. E só com este lance, duas cenas surgiram
sobre o veludo. Que sorte!
Percebi alguém abrindo caminho ao meu lado, afastando-me
para chegar até a mesa, pressionando-me de forma brutal,
como se uma energia irresistível e fatal impulsionasse
o intruso a tal procedimento. Quem estava ao meu lado
sofreu a mesma humilhação provocada pelo desconhecido.
O chinês em vez de recolher o dinheiro que ganhara
revelou o maior desprezo, e como que movido
por um recurso, virou o rosto imediatamente em direção
do novo concorrente. Chale mudou de fisionomia.
Os olhares dos homens chocaram-se, como dois bicos
de ave que se tocassem no ar.
O forasteiro era um homem alto e de proporção harmoniosa;
um grande crânio numa cabeça munida de um maxilar
inferior que repousava recolhido e armado
por uma dentadura capaz de mastigar cabeças e troncos
inteiros. O declive das bochechas alargava-se de cima
para baixo. Os olhos pequenos recuavam para logo
acometer em insuspeitas investidas; as pupilas sem cor
pareciam duas conchas vazias; a pele bronzeada,
cabelos soltos, nariz adunco, testa agitada.
Parecia provocante, detentor de sugestões sedutoras.
O homem causava uma apreensão mortificante,
apesar da beleza. Qual era sua origem? Não revelava
nenhuma. aquele peregrino não posuia nenhuma pátria étnica.
Tinha um inegável traço mundano de jogador
irrepreensível, com seu vestir correto, a distinção
e o desenfado requerido pelos seus modos.
Logo que esse personagem ocupou seu espaço
na mesa de jogo, todo o gás envenenado de embriagês
e cobiça que respirávamos na sala se dissipou
de imediato.
Que oxigênio secreto trazia aquele homem? Se pudesse
descrever o ar, diria que era sereno e agradavelmente azul.
Recobrei a consciência, entre um sopro fresco
de renovação sanguínea e alívio.
Senti que me libertava de algo. Houve um remanso
no semblante de todos. O poder de Chale e todas as suas posturas de sortilégio terminaram.
Contudo, alguma coisa começara agora, uma sensação
de curiosidade primeiro, depois de penosa inquietação
provocada, sem dúvida, pela presença do novo jogador.
Sim, pois, ele trazia um propósito esmagador,
algum desígnio inexplicável.
O asiático estava transformado, desde que viu
o desconhecido não voltou a encará-lo. Eu podia
jurar que ficou com medo e que nele, mais do que em qualquer outro, o efeito repulsivo e a aversão
que o homem despertava, foi muito maior para dissimular.
Chale o odiava, sentia temor. Essa é a palavra: tinha medo.
Além do mais, ninguém havia visto o cavalheiro
naquela casa de jogo. Chale nem sequer o conhecia,
por essa razão odiava a sua presença.
O apostador começou a respirar com dificuldade,
como se estivesse asfixiado. Arquejava olhando fixamente
o chinês que parecia triturado por aquele olhar, destruído,
reduzindo a carvão barato toda a sua personalidade moral,
a confiança em si mesmo, a sua beligerância triunfadora.
Chale, perplexo como um menino pego em flagrante,
movia os dedos na concha da sua mão direita hesitante,
como se desejasse que caíssem impotentes.
O círculo, aos poucos começou a convergir os olhares
para o forasteiro que ainda não pronunciara nenhuma
palavra. Fez-se silêncio.
Por fim, o recém-chegado disse, dirigindo-se ao chinês:
- Quanto tem em sua banca?
Chale piscou fazendo um trejeito apocalíptico e ridículo
de desamparo, como se fosse receber uma bofetada
mortal. Virando-se, balbuciou algo, sem saber o que dizia.
- Está tudo aquí.
A banca contabilizava mais ou menos cinquenta mil soles.
O desconhecido mencionou a soma, retirou um valor igual
da sua carteira e com superioridade dispôs sobre a mesa,
efetuando sua aposta diante do espanto dos circunstantes.
O chinês mordeu os lábios e, evitando sempre o rosto
do adversário, mexeu os seus cubos de mármore.
Ninguém quis acompanhar a aposta ousada e monstruosa.
O único apostador solitário, sem ninguém que, absolutamente ninguém senão o chinês, pudesse admoestá-lo, tirou do bolso o seu revólver, e aproximou-o
da cabeça de Chale, com o dedo no gatilho.
Ninguém, repito, percebeu essa espada de Dámocles
que ficou suspensa sobre a vida do asiático. Pelo contrário,
todos viram o perigo pendente sobre a fortuna
do desconhecido, pois a sua derrota estava determinada.
Lembrei o que antes sussurraram na sala:
- As apostas mais altas vão sempre para Chale. Ninguém
consegue ganhar dele.
Era sorte? Conhecimento? Não sei. Mas agora eu era
o único que previa a vitória do chinês.
Ele lançou os dados. Oh o flanco e a costa, o ombro
e o semblante do jogador! De novo, e com mais eloquência,
repete-se diante dos meus olhos e da minha alma,
o espetáculo magnífico, a curva anatômica, a polarização
de toda a vontade que dirige, doma e subjuga
os mais inextricáveis designios do destino. De novo essa
partida simultânea dos dados diante dos mesmos termos
aleatórios da aposta. Abri os olhos para verificar se a sorte
iria agraciar mais uma vez aquele jogador exímio.
Os mármores rolaram, rolaram.
O revólver aguardava. O apostador não olhava os dados:
mirava apenas, fixo, implacavelmente terrível, a testa
do asiático.
Diante do desafio, que ninguém notava, do revólver
contra o par de dados que pintaria o número se unindo
à invencível sombra do destino, encarnada na figura
de Chale, qualquer um poderia assegurar que eu
permanecia ali. Mas não, não estava.
Os dados pararam. A morte e o destino deixaram todos
boquiabertos.
Dois ases!
O chinês começou a chorar como uma criança.
tradução: Jorge Simões
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