domingo, 26 de fevereiro de 2012

FRANCIS BACON
A Fotografia na pintura

Bacon no ateliê

Francis Bacon - Irlanda 1909 - Espanha 1992

F. BACON - "Estudo para um retrato de Lucian Freud" - óleo 1969 - Tríptico, painel central

Retrato de Lucian Freud - foto: John Deakin

F. BACON - "Estudo para um retrato de Lucian Freud" - óleo 1964

Retrato de Henrietta Moraes - foto: John Deakin

F. BACON - "Figura em movimento" - óleo 1975

DS - Você poderia dizer por que se interessa tanto por fotografias? 
FB - Bom, acho que nosso sentido de aparência é o tempo todo
assaltado pela fotografia e pelo filme. De modo que, quando uma pessoa olha para uma coisa, ela está não só olhando-a diretamente mas também olhando-a sob o
efeito do impacto que a fotografia ou o filme já causaram nela. E 99% das vezes
acho as fotografias muito mais interessantes do que a pintura figurativa ou
abstrata. Elas sempre exercem um impacto sobre mim.
DS - Você sabe a que atribuir exatamente o que provoca
esse impacto em você? É o lado imediato da fotografia?
São a formas inesperadas que elas tomam? Seria a textura delas? 
FB - Acho que é a proximidade muito grande que elas tem
com o fato; isso me faz retornar ao fato ainda mais violentamente.
Através da foto começo a divagar sobre a imagem e meu pensamento
vai captando sua realidade mais finamente do que conseguiria apenas
com os olhos. E as fotografias não são somente pontos de referência;
muitas vezes elas são detonadoras de idéias. 
DS - Tenho a impressão de que as fotografias de Muybridge são as que você mais usa.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Eadweard Muybridge - fotografias tiradas de "The Human Figure in Motion" - 1887

Eadweard Muybridge - fotografia tirada de "The Human Figure in Motion" - 1887

K.C. Clark - fotografias tiradas de "Positioning in Radiography" - Londres 1939

Idem II

Idem III

Fotografia tirada de "Positioning in Radiography"

FB - Bom, é evidente que elas tentam fazer um inventário
dos movimentos humanos - de certo modo, valem como um dicionário.
E tal vez esse negócio meu de pintar séries tenha saido dos livros de Muybridge,
onde as fases de um movimento estão mostradas em fotografías separadas.
Eu tive um livro que me influenciou muitíssimo: o Positioning in Radiography
(A posição em radiografia), com fotos que mostram as posições do corpo a ser radiografado, e as próprias chapas de radiografia.
DS - A influência, portanto, tende a ser indireta, na medida
em que você, quando pinta, deve quase sempre estar olhando
para a fotografia de uma coisa muito diferente do assunto que está pintando.

F. BACON - "Crucificacão" - óleo 1944

F. BACON - idem II

F. BACON - idem III

Diego Velázquez - "Retrato do PapaI Inocêncio X - óleo 1650"

F. BACON - "Paisagem" - óleo e pastel 1978

Marius Maxwell - "Rinoceronte" - África Equatorial - Londres 1924

FB - Acho que você disse em algum lugar que, enquanto posava
para um retrato que eu estava tentando fazer de você, eu ficava
olhando para fotografias de animais selvagens.
DS - É verdade. Eu nunca soube como devia entender isso.
FB - Bom, uma imagem pode ser extremamente sugestiva
em relação a outra. Naquele tempo, eu andava com´a idéia
de que as texturas deveriam ser muito mais grossas e que,
por isso, a textura da pele de um rinoceronte, por exemplo,
poderia me ajudar a visualizar a textura da pele humana.   
DS - Você, é claro, usou também essas fotografias mais literalmente
em quadros de animais e de paisagens. É interessante que a imagem fotográfica que mais lhe serviú não foi científica nem jornalística, mas veio de uma obra de arte famosíssima, a fotografia da babá gritando, que está em O Encouraçado Potemkim.

Nicholas Poussin - "O Massacre dos Inocentes" - óleo, 1630-31 - (detalhe)

FB - Foi um filme que vi pouco antes de começar a pintar,
e ele me impressionou profundamente - não só o filme inteiro,
como também a sequência da escadaria de Odessa e dessa foto.
Eu tinha esperança de que ainda faria - não há aquí qualquer
sentido especial de caráter psicológico - tinha esperança de que
um dia faria o melhor quadro de grito humano que já se fez no mundo.
Não conseguí, mas ele está feito por Eisenstein, de maneira muito melhor,
e é isso aí. Na pintura, sou da opinião de que o melhor  grito humano já
feito até hoje é o de Poussin.     
DS - Em O Massacre dos Inocentes
FB - É, que está em Chantilly. Lembro que, certa vez, passei três ou quatro
meses morando com minha familia perto dalí, tentando aprender francés,
e muitas vezes fui a Chantilly, e lembro que esse quadro sempre exerceu
um efeito terrível sobre mim. Outra coisa que me fazia pensar no grito humano
era um livro que, ainda muito jovem, comprei numa livraria em París, era um livro ilustrado com lindos desenhos coloridos sobre doenças que dão na boca;
os desenhos eram lindos e mostravam a boca aberta e o interior dela; as fotos
me deixaram fascinado e acabei obcecado por elas. E depois eu vi - ou tal vez até já tivesse visto naquela época - O Encouraçado Potemkim e tentei usar a foto do
Potemkim como base sobre a qual eu também pudesse usar aquelas ilustrações
maravilhosas da boca humana. Mas nunca deu certo. 

F. BACON - "Autorretrato" - foto: cabine automática

F. BACON - "Autorretrato" - óleo 1976

F. BACON - "Autorretrato" - foto: cabine automática

F. BACON - "Autorretrato" - óleo 1979

F. BACON - "Autorretrato" - foto: cabine automática

F. BACON - "Autorretrato" - óleo 1971

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

F. BACON - "Estudo para um retrato" - óleo 1953

F. BACON - "Estudo de cabeça gritando" - óleo 1953

Sergei Eisenstein - imagem de "O Encouraçado Potemkim" - 1925

DS - Você ten usado constantemente a imagem de Eisenstein
como base e tem feito o mesmo com o Inocêncio X de Velázquez,
e tudo por meio de fotos e reproduções. Mas tem trabalhado também
em cima de reproduções de outros quadros de velhos mestres. Há
muita diferença entre trabalhar em cima da fotografia de um quadro
e trabalhar em cima de fotos instantâneas?
FB - Veja: no caso da pintura fica mais fácil de fazer,
porque o problema já foi resolvido. Mas o problema que você está levantando, evidentemente, é outro. Acho que nenhuma dessas coisas que fiz a partir
de pinturas tenha realmente funcionado.
DS - Nem mesmo algumas versões do Papa de Velázquez?
FB - Sempre achei que esse era um dos maiores quadros do mundo,
e se o usei muito foi por causa da minha obsessão. Tentei, sen nenhum
sucesso, fazer certos retratos dele - retratos distorcidos. Eu me arrependo,
porque acho que são muito idiotas.
DS - Você se arrepende de ter feito esses retratos?
FB - Bem, eu me arrependo, porque acho que o quadro era uma
obra definitiva e nada mais poderia ser feito em cima dela.
DS - Você agora parou de pintá-los, não é?
FB - Parei.
DS - Há algumas reproduções de quadros pintados por você
entre as fotos espalhadas pelo estúdio. Você olha para elas
enquanto está trabalhando?
FB - Olho sim, constantemente. Por exemplo,
estou procurando usar uma imagem que fiz mais ou menos em 1952 (83),
tentando colocá-la num espelho para que a figura apareça agachada
diante da própria imagem. Ainda não acertei, mas sempre acho que posso
trabalhar em cima de fotos de obras que fiz anos atrás, e não está ficando mau.

Rembrandt - "Autorretrato" - óleo - 30 x 24 cmts. - 1659

DS - Gostaria de perguntar se seu amor pela fotografía
faz você também gostar da reprodução em si mesma.
Sempre suspeitei que uma reprodução de Velázquez
ou de Rembrandt o impressiona mais do que o original.
FB - Bom, obviamente é muito mais confortável
pegá-las na sala de sua casa do que tirar um dia para ir à
National Gallery; mas assim mesmo estou sempre indo à
National Gallery; uma das razões é que quero ver a cor.
Mas se eu conseguisse ter Rembrandts espalhados pela sala,
não iria à National Gallery.
FB - Gostaria. São pouquíssimos os quadros que gostaria de ter,
mas Rembrandts, gostaria.

F. BACON - Segunda versão de "Pintura 1946" - óleo 1971

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

F. BACON - pintura - óleo 1946

"Estudo sobre o retrato do Papa Inocêncio X" de Velázquez - óleo 1949

"Retrato do Papa Inocêncio X"- por Diego Velázquez - (detalhe)

F. BACON - "Estudo sobre o retrato do Papa Inocêncio X" de Velázquez - óleo - 153 x 118 mts.- 1953

DS - E, no entanto, quando você finalmente conseguiu
ir a Roma, apesar de ter ficado lá dois meses, não aproveitou
a oportunidade para ver a Inocêncio X.
FB - É verdade. Mas também é verdade que naquela época
eu atravessava emocionalmente uma fase de extrema infelicidade.
E, apesar de abominar igrejas, passava a maior parte do tempo
na basílica de São Pedro, onde ficava simplesmente perambulando.
Mas a razão provável tal vez fosse o medo de ver a realidade do
Velázquez depois de ter remexido tanto nele, o medo de ver
aquele quadro maravilhoso e pensar nas besteiras que havia feito com ele.     
DS - Então nada daquilo que suspeitei tinha fundamento.
Acho que devo ter imaginado que você deveria preferir
fotografias aos originais, porque elas são menos explícitas,
mas sugestivas.
FB - Bom, minhas fotografias estão muito estragadas.
Porque as pessoas pisam nelas, amarrotam, fazem todo tipo de coisa,
e isso traz novas implicações para a imagem; por exemplo, para uma imagem de Rembrandt, implicações que não partiram de Rembrandt.

George Dyer - foto: John Deakin

F. BACON - "Retrato de George Dyer" - óleo 1966-67

F. BACON - idem II

F.BACON - idem III

DS - Até agora só falamos de seu trabalho em cima
de fotografias que já existiam e que você escolheu.
No meio dessas havia instantáneos antigos que você usava
enquanto pintava o retrato de alguém que conhecia.
Mas nos últimos anos, quando você planeja fazer o retrato
de uma pessoa, me dá a impressão de que prefere usar um
jogo de fotografias tiradas especialmente para o que tenciona fazer.
FB - Tem razão. Mesmo no caso dos amigos
que vem ao estúdio e posam, eu tiro fotos suas para os retratos,
porque prefiro trabalhar muito mais em cima delas do que
olhando para eles. Verdade seja dita: eu não poderia tentar fazer o retrato
em cima da fotografia de alguém que não conhecesse. Mas se eu conhecer,
e ainda por cima tiver a fotografia, acho que fica mais fácil trabalhar assim, mais do que com eles presentes no estúdio. Creio que, se eu estiver na presença da imagem,
não consigo me soltar tanto quanto se trabalhasse somente com a imagem
fotográfica. Pode ser simplesmente que isso se deva ao meu lado neurótico,
mas acho menos inibidor pintá-los de memória e de suas fotografias do que com
eles sentados diante de mim.
DS - Você prefere ficar sozinho?
FB - Inteiramente só. Com a lembrança deles.
DS - Por ser a lembrança mais interessante,
ou por que a presença perturba?
FB - O que eu pretendo fazer é distorcer o objeto
até um nível que está muito alem da aparência, mas,
na distorção, voltar a um registro da aparência.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

F. BACON - "Estudo para autorretrato" - óleo 1978

F . BACON - idem II

Isabel Rawsthorne - foto: John Deakin

F. BACON - "Estudo para retrato de Isabel Rawsthorne" - óleo 1966

F.BACON - idem II

F. BACON - idem III

DS - Você está dizendo que pintar é quase uma maneira
de trazer alguém de volta, que o processo de pintar é quase igual
ao processo de lembrar?
FB - É o que eu digo. E acho que os métodos por meio dos quais isso é feito
são tão artificiais que o modelo diante de você, no meu caso, inibe a artificialidade por meio da qual essa coisa pode ser trazida de volta.
DS - E se pessoas que você já pintou muitas vezes
de memória e de fotos posassem para você?
FB  - Ficaria inibido, porque, se gosto delas, não quero praticar na sua frente a violência que eu lhes faço no meu trabalho. Prefiro fazer essas violências às
escondidas, o que, na minha opinião, me permite registrar a realidade delas
com mais clareza.
DS - Em que sentido você concebe isso como uma violência?
FB - No sentido de que as pessoas acreditam - ou pelo menos
as pessoas simples - que as distorções em suas figuras são
uma violência - não importa o quanto simpatizem com você
e o quanto gostem de você.
DS - Você não acha que, por instinto, possivelmente estejam certas?
FB - É possível, é possível. Entendo perfeitamente isso. Mas
me diga, quem hoje consegue registrar uma coisa que surge
na sua frente como um fato sem danificar profundamente a
imagem?

F. BACON - "Estudo para retrato de Peter Beard - óleo 1975

F. BACON - "Estudo para um retrato" - óleo 1969

DS - Mas você não acha, já que está falando em registrar os
vários níveis de emoção de uma imagem, que, entre outras
coisas, poderia também estar expressando ao mesmo tempo
amor e hostilidade pela pessoa - que isso que você faz pode ser
não só carinho mas também agressão?
FB - Acho lógico demais. Acredito que não seja essa a maneira
como as coisas funcionam; acho que a coisa toca mais no fundo:
como pintar essa imagem para torná-la imediatamente mais real
para mim? É só isso.
DS - Tornar a imagem imediatamente mais real não equivaleria
a objetivar sentimentos contraditórios em relação ao sujeito?
FB - Bem, acho que você está abordando o problema por um
lado mais psicológico, e a maioria dos pintores, tenho a impressão,
não fazem isso. Eles podem insonscientemente estar enrolados com o que você diz, mas, conscientemente, nem um pouco.
DS - Bom, evidentemente se eles tivessem conciência disso
seria um desastre para a obra. O que eu estava tentando dizer
é que, quando o modelo ingenuamente imagina que o pintor
o está agredindo, ele instintivamente está reconhecendo um
desejo insonsciente do pintor em agredi-lo.