sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

F. BACON - "Estudo para um retrato" - óleo 1953

F. BACON - "Estudo de cabeça gritando" - óleo 1953

Sergei Eisenstein - imagem de "O Encouraçado Potemkim" - 1925

DS - Você ten usado constantemente a imagem de Eisenstein
como base e tem feito o mesmo com o Inocêncio X de Velázquez,
e tudo por meio de fotos e reproduções. Mas tem trabalhado também
em cima de reproduções de outros quadros de velhos mestres. Há
muita diferença entre trabalhar em cima da fotografia de um quadro
e trabalhar em cima de fotos instantâneas?
FB - Veja: no caso da pintura fica mais fácil de fazer,
porque o problema já foi resolvido. Mas o problema que você está levantando, evidentemente, é outro. Acho que nenhuma dessas coisas que fiz a partir
de pinturas tenha realmente funcionado.
DS - Nem mesmo algumas versões do Papa de Velázquez?
FB - Sempre achei que esse era um dos maiores quadros do mundo,
e se o usei muito foi por causa da minha obsessão. Tentei, sen nenhum
sucesso, fazer certos retratos dele - retratos distorcidos. Eu me arrependo,
porque acho que são muito idiotas.
DS - Você se arrepende de ter feito esses retratos?
FB - Bem, eu me arrependo, porque acho que o quadro era uma
obra definitiva e nada mais poderia ser feito em cima dela.
DS - Você agora parou de pintá-los, não é?
FB - Parei.
DS - Há algumas reproduções de quadros pintados por você
entre as fotos espalhadas pelo estúdio. Você olha para elas
enquanto está trabalhando?
FB - Olho sim, constantemente. Por exemplo,
estou procurando usar uma imagem que fiz mais ou menos em 1952 (83),
tentando colocá-la num espelho para que a figura apareça agachada
diante da própria imagem. Ainda não acertei, mas sempre acho que posso
trabalhar em cima de fotos de obras que fiz anos atrás, e não está ficando mau.

Rembrandt - "Autorretrato" - óleo - 30 x 24 cmts. - 1659

DS - Gostaria de perguntar se seu amor pela fotografía
faz você também gostar da reprodução em si mesma.
Sempre suspeitei que uma reprodução de Velázquez
ou de Rembrandt o impressiona mais do que o original.
FB - Bom, obviamente é muito mais confortável
pegá-las na sala de sua casa do que tirar um dia para ir à
National Gallery; mas assim mesmo estou sempre indo à
National Gallery; uma das razões é que quero ver a cor.
Mas se eu conseguisse ter Rembrandts espalhados pela sala,
não iria à National Gallery.
FB - Gostaria. São pouquíssimos os quadros que gostaria de ter,
mas Rembrandts, gostaria.

F. BACON - Segunda versão de "Pintura 1946" - óleo 1971

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

F. BACON - pintura - óleo 1946

"Estudo sobre o retrato do Papa Inocêncio X" de Velázquez - óleo 1949

"Retrato do Papa Inocêncio X"- por Diego Velázquez - (detalhe)

F. BACON - "Estudo sobre o retrato do Papa Inocêncio X" de Velázquez - óleo - 153 x 118 mts.- 1953

DS - E, no entanto, quando você finalmente conseguiu
ir a Roma, apesar de ter ficado lá dois meses, não aproveitou
a oportunidade para ver a Inocêncio X.
FB - É verdade. Mas também é verdade que naquela época
eu atravessava emocionalmente uma fase de extrema infelicidade.
E, apesar de abominar igrejas, passava a maior parte do tempo
na basílica de São Pedro, onde ficava simplesmente perambulando.
Mas a razão provável tal vez fosse o medo de ver a realidade do
Velázquez depois de ter remexido tanto nele, o medo de ver
aquele quadro maravilhoso e pensar nas besteiras que havia feito com ele.     
DS - Então nada daquilo que suspeitei tinha fundamento.
Acho que devo ter imaginado que você deveria preferir
fotografias aos originais, porque elas são menos explícitas,
mas sugestivas.
FB - Bom, minhas fotografias estão muito estragadas.
Porque as pessoas pisam nelas, amarrotam, fazem todo tipo de coisa,
e isso traz novas implicações para a imagem; por exemplo, para uma imagem de Rembrandt, implicações que não partiram de Rembrandt.

George Dyer - foto: John Deakin

F. BACON - "Retrato de George Dyer" - óleo 1966-67

F. BACON - idem II

F.BACON - idem III

DS - Até agora só falamos de seu trabalho em cima
de fotografias que já existiam e que você escolheu.
No meio dessas havia instantáneos antigos que você usava
enquanto pintava o retrato de alguém que conhecia.
Mas nos últimos anos, quando você planeja fazer o retrato
de uma pessoa, me dá a impressão de que prefere usar um
jogo de fotografias tiradas especialmente para o que tenciona fazer.
FB - Tem razão. Mesmo no caso dos amigos
que vem ao estúdio e posam, eu tiro fotos suas para os retratos,
porque prefiro trabalhar muito mais em cima delas do que
olhando para eles. Verdade seja dita: eu não poderia tentar fazer o retrato
em cima da fotografia de alguém que não conhecesse. Mas se eu conhecer,
e ainda por cima tiver a fotografia, acho que fica mais fácil trabalhar assim, mais do que com eles presentes no estúdio. Creio que, se eu estiver na presença da imagem,
não consigo me soltar tanto quanto se trabalhasse somente com a imagem
fotográfica. Pode ser simplesmente que isso se deva ao meu lado neurótico,
mas acho menos inibidor pintá-los de memória e de suas fotografias do que com
eles sentados diante de mim.
DS - Você prefere ficar sozinho?
FB - Inteiramente só. Com a lembrança deles.
DS - Por ser a lembrança mais interessante,
ou por que a presença perturba?
FB - O que eu pretendo fazer é distorcer o objeto
até um nível que está muito alem da aparência, mas,
na distorção, voltar a um registro da aparência.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

F. BACON - "Estudo para autorretrato" - óleo 1978

F . BACON - idem II

Isabel Rawsthorne - foto: John Deakin

F. BACON - "Estudo para retrato de Isabel Rawsthorne" - óleo 1966

F.BACON - idem II

F. BACON - idem III

DS - Você está dizendo que pintar é quase uma maneira
de trazer alguém de volta, que o processo de pintar é quase igual
ao processo de lembrar?
FB - É o que eu digo. E acho que os métodos por meio dos quais isso é feito
são tão artificiais que o modelo diante de você, no meu caso, inibe a artificialidade por meio da qual essa coisa pode ser trazida de volta.
DS - E se pessoas que você já pintou muitas vezes
de memória e de fotos posassem para você?
FB  - Ficaria inibido, porque, se gosto delas, não quero praticar na sua frente a violência que eu lhes faço no meu trabalho. Prefiro fazer essas violências às
escondidas, o que, na minha opinião, me permite registrar a realidade delas
com mais clareza.
DS - Em que sentido você concebe isso como uma violência?
FB - No sentido de que as pessoas acreditam - ou pelo menos
as pessoas simples - que as distorções em suas figuras são
uma violência - não importa o quanto simpatizem com você
e o quanto gostem de você.
DS - Você não acha que, por instinto, possivelmente estejam certas?
FB - É possível, é possível. Entendo perfeitamente isso. Mas
me diga, quem hoje consegue registrar uma coisa que surge
na sua frente como um fato sem danificar profundamente a
imagem?

F. BACON - "Estudo para retrato de Peter Beard - óleo 1975

F. BACON - "Estudo para um retrato" - óleo 1969

DS - Mas você não acha, já que está falando em registrar os
vários níveis de emoção de uma imagem, que, entre outras
coisas, poderia também estar expressando ao mesmo tempo
amor e hostilidade pela pessoa - que isso que você faz pode ser
não só carinho mas também agressão?
FB - Acho lógico demais. Acredito que não seja essa a maneira
como as coisas funcionam; acho que a coisa toca mais no fundo:
como pintar essa imagem para torná-la imediatamente mais real
para mim? É só isso.
DS - Tornar a imagem imediatamente mais real não equivaleria
a objetivar sentimentos contraditórios em relação ao sujeito?
FB - Bem, acho que você está abordando o problema por um
lado mais psicológico, e a maioria dos pintores, tenho a impressão,
não fazem isso. Eles podem insonscientemente estar enrolados com o que você diz, mas, conscientemente, nem um pouco.
DS - Bom, evidentemente se eles tivessem conciência disso
seria um desastre para a obra. O que eu estava tentando dizer
é que, quando o modelo ingenuamente imagina que o pintor
o está agredindo, ele instintivamente está reconhecendo um
desejo insonsciente do pintor em agredi-lo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

FB - Pode ser. O que você está dizendo Wilde já disse: você
mata a coisa que ama. Pode ser isso, não sei. Se as distorções
que, a meu ver, às vezes imprimem maior força a uma imagem
seriam ou não uma forma de agressão, essa é uma idéia
muito questionável. Não acho que elas sejam uma agressão.
Você pode dizer que é uma agressão se considerá-las como
uma ilustração. Mas não no caso de considerá-las como aquilo
que imagino seja arte. A pessoa tem sua própria maneira de
transmitir o sentimento e a sensação da vida, e só existe uma
maneira de fazer isso. se a maneira é boa, eu não sei, mas é levada 
às últimas conseqüências.
Extraido do livro "A brutalidade do Fato - Entrevistas com Francis Bacon
de DAVID SYLVESTER

F. BACON - "Estudo para retrato de George Dyer" - óleo 1967

F. BACON - "Estudo para um retrato de Muriel Belcher" - óleo 1966

F. BACON - "Estudo para um retrato de Lucien Freud" - óleo 1965

F. BACON - "Estudo para um retrato de Lucien Freud" - óleo 1965

F. BACON - "Retrato" - óleo 1962

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

HOMENAGEM

TRIMANO - "Combatente" - nanquim - ilustração para o poema "Consternados, raivosos" de Mario Benedetti

A VIDA E AS VIDAS DE APOLÔNIO



Álvaro Caldas


Um balanço da trajetória política e existencial de Apôlonio de Carvalho, que abrange mais de 60 anos da sangrenta e conturbada história do século passado, mostra que este velho e apaixonado militante comunista, que morreu com 93 anos, percorreu o mundo, lutou em várias frentes e experimentou diversas vidas, todas unidas pelo fio da luta pelo socialismo. Cidades como Rio, Madri, Paris, Praga, Moscou e Argélia, foram palco das andanças deste obstinado e otimista cavaleiro da Ordem dos Comunistas, armado com as teorias de Marx e as táticas de Lênin, líder da revolução soviética que marcou a ferro e fogo sua geração.


Ainda que tenha perdido algumas batalhas e não alcançado o poder, Apolônio emerge deste acerto de contas com a História, em seu centenário de nascimento, com a aura e a postura de um vencedor. A ele poderiam ser entregues as batatas, como no conto de Machado de Assis. Apolônio era antes de tudo um sonhador, sempre pronto, até os últimos dias, para reiniciar de novo, com uma invejável disposição de lutar por estas batatas que a história aproximou e afastou de suas mãos.


Seu perfil mostra que ele foi mais do que um disciplinado quadro do Partido. Tinha alma de poeta, a dimensão mítica de um revolucionário romântico, uma rara e extinta espécie que floresceu entre as guerras e morreu nos anos 70 do século passado. Viveu e se formou entre os comunistas, passou trinta anos contido dentro do PCB, do levante militar contra Vargas, em 35, que lhe valeu a primeira prisão, então jovem tenente, à opção pela luta armada, em 1967.


Junto com Mário Alves e Jacob Gorender, divergiu e rompeu com o Partido, num momento dramático de enfrentamento contra a ditadura. Esperança talvez seja a palavra para entender sua visão de mundo. Está em Hannah Arendt que "a condição humana tem como características a pluralidade, a diversidade e a esperança, que provém da permanente capacidade que têm os homens de começar algo novo.” Foi a compreensão deste fenômeno que o salvou da morte intelectual - da física ele se livrou por conta própria, graças a sua coragem e a ajuda do destino.


É claro que foi também a Renée, uma jovem de 17 anos que ele conheceu num hospital que cuidava de combatentes feridos em Marselha. Uma noite lhe coube a missão de levar em casa a bela e improvisada enfermeira. O jovem e galante Apolônio entrou num café, pediu duas taças de vinho e declarou sua paixão à tímida Renée, que sorriu desconfiada e foi sua mulher a vida inteira


Em seu livro “Um belo domingo”, (Nova Fronteira, 1982),em que intercala a narrração de sua passagem pelo campo de Buchenwald comuma devastadora crítica dos seus anos de militância partidária, o espanhol Jorge Semprun, que foi “Federico Sanchez”, destaca o relevante papel de um grupo de veteranos comunistas que combateram na Espanha e na resistência francesa. “Foi no campo da guerra, civil ou não, que os comunistas se mostraram mais eficientes. Chegaram mesmo a ser brilhantes.”O gauche Apolônio, que foi “Lima”, “tenente-coronel Edmond” e “Jean Pierre Casal” num de seus passaportes, pertence a esta geração de veteranos comunistas.


No verão de 1970, aos 58 anos, então dirigente do PCBR, quando entrou na ofi-cina de torturas do DOI-Codi, na rua Barão de Mesquita, tinha clara consciência de que poderia morrer. Suportou três dias de tortura, nu, de capuz, algemado, deitado e amarrado, submetido a choques elétricos e pancadas. Houve um momento em que respirou e pediu para chamar o comandante. Pensaram que ele fosse falar. Entrou na sala o coronel Nei Antunes, comandante da PE. E Apolônio fez uma digressão sobre a Convenção de Genebra, o respeito devido aos prisioneiros de guerra,sustentando que se encontrava nesta condição. O oficial se irritou, saiu e a sessão continuou,com a aplicação de Pentotal, o chamado soro da verdade, droga introjetada por via endovenosa.


Depois de longos momentos de flutuação de consciência e perda da memória, salvou-se graças a uma imensa vontade de viver,conforme deixou gravado em depoi-mento .Preso no mesmo janeiro de 70, Mário Alves, secretário-geral do PCBR, foi empalado e assasssinado na mesma salada oficina de torturas do DOI Codi. A localização de seu corpo constitui um dos desafios para testar o verdadeiro alcance da Comissão da Verdade.


Banido para a Argélia em junho de 70, Apolônio retornou com a anistia e participou da criação do PT. No centenário do personagem, sua vida está à disposição para novos livros e para roteiristas de cinema. O velho comunista Apolônio possuía o dom da sedução, uma face humana e suave, e foi uma das figuras mais marcantes da esquerda brasileira.


Álvaro Caldas é escritor, professor da PUC Rio e autor de Tirando o Capuz e Balé da Utopia.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

LASAR SEGALL - BRASIL

Retrato de Lasar Segall

LASAR SEGAL -  Vilna, Lituania - Russia 1891 /
São Paulo, Brasil 1957. Pintor, gravador e escultor
de origem judaica. Entre 1905 e 1910 cursa estudos
nas escolas de arte de Berlim e Dresden. Em 1912,faz a sua primeira viagem ao Brasil. Expõe em São Paulo e Campinas. Retorna a Europa. Em 1914 passa a interessarse pelo Expressionismo. Em 1919, em Dresden, funda com Otto Dix (1891-1969),e outros artistas, o "Dresdner Sezessione Gruppe". Volta ao Brasil. Em 1923 fixa residência em São Paulo. Considerado como um representante das vanguardas auropeias, teve papel de destaque na Semana de Arte Moderna de 1922. A sua pintura mostra duas fases definidas. No período europeu,
 e mais tarde, já morando no Brasil, as lembranças sombrias dos tempos de guerra, éxodos e navios de imigrantes,  é tratada em tons cinzas, azuis, ocres. Na fase brasileira aparece a cor de forma vibrante,
e a temática passa a ser a paisagem de São Paulo, e os retratos,
muitos deles a lápiz, virtuosos.   

SEGALL - "Autorretrato" - óleo 1909

SEGALL - "Duas amigas" - óleo 1914

SEGALL - "Gestante" - óleo 1919

SEGALL - "Mulato" - óleo 1924

SEGALL - "Bananal" - -óleo 1927

SEGALL - "Retrato de Mario de Andrade" - óleo 1927

SEGALL - "O bebedouro" - aquarela 1927