domingo, 16 de janeiro de 2011

Pombinha ergueu-se de um pulo e abriu de carreira para casa. No lugar em que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos. A mãe lavava à tina, ela chamou-a com instância, enfiando cheia de alvoroço pelo número 15. E aí sem uma palavra, ergueu a saia do vestido e expôs a D. Isabel as suas fraldas ensangüentadas - Veio? perguntou a velha com um grito arrancado do fundo d'alma. A rapariga meneou a cabeça afirmativamente, sorrindo feliz e enrubescida. As lágrimas saltaram dos olhos da lavadeira.
À proporção que alguns locatarios abandonavam a estalagem, muitos pretendentes surgiram disputando os cômodos desalugados. Delporto e Pompeo foram varridos pela fevre amarela, e três outros italianos estiveram em risco de vida. O número de hóspedes crescia, os casulos subdividiam-se em cubículos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam despejando com uma regularidade de lado procriador.
Iam-se assim os dias, e assim mais de três meses se passaram depois da noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a baiana na Rua de São João Batista, mas a mulata já não era a mesma para ele. Apresentava-se distraída, as vezes impertinente, puxando questão por da lá aquela palha.
Dois candeeiros de kerosene fumegavam, encarvoando o teto. E de uma porta ao fundo, que escondia o interior da casa com uma cortina de chita vermelha, vinha de vez em quando uma baforada de vozes roucas, que parecia morrer no caminho vencida por aquela densa atsmosfera cor de opala
A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido. Ouvira, assentada impaciente à porta de sua casa, darem oito horas, oiti e meia, nove, nove e meia. Que tería acontecido, mãe santíssima?..
Mal os carapicus sentiram a aproximação dos rivais, um grito de alarma ecoou por toda a estalagem e o rolo dissolveu-se de improviso, sem que a desordem cesasse. Cada qual correu à casa, rapidamente, em busca do ferro, do pau e de tudo que servisse para resistir e para matar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que, o velho Liborio, depois de escapar de morrer na confuão do incêndio, fugia agoniado para o seu esconderijo, seguiu-o com disfarce e observou que o miserável, mal deu luz a candeia, começou a tirar ofegante alguma coisa do seu colchão imundo.
Daí a dias, com efeito, a estalagem metia-se em obras. Adesordem do desentulho do incêndio sucedia a do trabalho dos pedreiros. Martelava-se ali de pela manhã até a noite, o que alias não impedia que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engomadeiras reunissem ao barulho das ferramentas o choroso
Chegaram às nove horas da noite. Piedade levava o coração feito em lama. Não dera palavra por todo o caminho e logo que recolheu a pequena encostouse-se à cómoda, soluçando. Estava tudo acabado! Tudo acabado! Foi a garrafa de aguardente, bebeu uma boa porção; chorou ainda, tornou a beber, depois saiú ao patio disposta a parasitar a alegria dos que se divertiam la fora.
Ao mesmo tempo, João Romão, em chinelas e camisola, passeava um para outro lado no seu quarto novo.
Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e só trocava com o amigo um ou outro monosílabo inevitável no serviço da casa. Entre os dois havia agora desses olhares de desconfiança que são abismos de constrangimento entre pessoas que moram juntas.

sábado, 25 de dezembro de 2010

detalhe

Horacio Cardo

Ilustração editorial

Xul Solar

"Casal" - aquarela - 1923

Victor Delhez

Autorretrato - aguaforte

Roberto Paez

Retrato de Ezra Pound - carvão

Luis Trimano

"Samba-Blues" - guache - (detalhe) - 1985/86 Rio de Janeiro

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Zdravko Ducmelic

"Paisagem Imaginária" - técnica mixta - 1988

Juan Carlos Distefano

"Cabalgata" - poliester sobre suporte de lona - (detalhe) - 1966

Hermenegildo Sabat

Retrato de Jean Dominique Ingres - aquarela

Juan Manuel Sanchez

"Fábrica" - óleo sobre tela

Mario Mollari

"Maternidade Indígena" - óleo sobre tela

Luis Felipe Noé

"A Perda do Paraíso" - acrílico e óleo - (detalhe) - 1988

Pascual Di Bianco

Estudo de cabeça - lápiz

Carlos Clémen

Ilustração editorial - pastel e nanquim

Ricardo Carpani

"Cabeça de homem" - óleo sobre tela

César López Claro

"La Mordaza" - linoleum - 1997

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Alberto Cedrón

Capa do disco "Fábulas" de Juan Gelman e Juan "Tata" Cedrón - nanquim e guache 1971

Antonio Seguí

"O monte Champaqui em janeiro" - óleo 1984

Lajos Szalay

"A Família" - nanquim 1966

Carlos Gorriarena

"Besa manos" - (Beija mãos) - crayón 1979/80

Jorge de la Vega

"You're Welcome" - (Seja Bem Vindo!) acrílico - 1967

Carlos Alonso

"La oreja de Van Gogh" - acrílico sobre tela - 1.20 x 1,80 mts - 1972

detalhe

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

PASQUIM / Registro

Pasquim - Ilustração: Trimano

Em 1985, "mestre" Jaguar, editor do "Pasquim", jornal tabloide que se caracterizou pela defesa da liberdade de expressão num período de violenta censura, me convidou para cuidar da edição de ilustração do jornal, que nessa nova fase, contou com projeto gráfico de Oswaldo Miranda, o "Miran", editor da revista GRÁFICA Internacional, de Curitiba A advertência do Jaguar foi: vamos chamar gente nova, vamos publicar tudo mundo, os desenhistas que carecem de espaço para mostrar os seus trabalhos. Nada de panelinhas, as panelinhas embrutecem!.. Aquí, algumas páginas produzidas naquele tempo, e o texto oportuno de Noam Chomsky. / Trimano 2010

Pasquim - Ilustração: Trimano - detalhe da cabeça do menino, sobre foto de Maureen Bisilliat

Pasquim - Ilustração: Tom Werner

10 ESTRATÊGIAS DE MANIPULAÇÃO MEDIÁTICA - NOAM CHOMSKY
1 - "A ESTRATÊGIA DA DISTRAÇÃO" / O elemento primordial do controle social, é a estratêgia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, divulgando constantemente, informações sem real importância. / A estratêgia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais nas áreas de ciência, economia, psicologia ou neurobiologia. / Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas superficiais. / Manter o público ocupado, ocupado, ocupado..., sem nenhum tempo para pensar. / Extraido de "Armas Silenciosas Para Guerras Tranqüilas"

Pasquim

2 - "CRIAR PROBLEMAS E DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES" / Éste método também é chamado: "problema - reação - solução": Se cria uma "situação" prevista para causar determinada reação no público, com a finalidade de que éste seja o demandante das medidas que se deseja impor. / Por exemplo: deixar que se desenvolva e se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos para causar a impressão de que o público é demandante da "política da segurança" com prejuizo das liberdades individuais. / Provocar uma crise económica para conseguir a aceitação como sendo "um mal necessário", o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

Pasquim - Ilustração: Cándido Portinari - crayón

Pasquim - Ilustração: Trimano / Sobre fotograma do filme "O País de São Sarué" de Vladimir Carvalho - 1971

3 - "A ESTRATÊGIA DA GRADUALIDADE" / Para fazer com que se aceite uma medida inaiceitável, basta aplicá-la gradualmente, por contagotas durante anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socio-económicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. / Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade laboral, desemprego em massa, salários que já não garantem ingressos decentes. / Tantas mudanças teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma vez só, não da forma gradual, como foi feito.

Pasquim - Ilustração: Trimano - Retrato do compositor Zé Keti - nanquim - 1985

Pasquim - detalhe

4 - "A ESTRATÊGIA DE DIFERIR" / Outra maneira de se impor uma decisão impopular é, apresentá-la como "dolorosa mas necessária", obtendo a aceitação pública no momento atual, para uma aplicação futura. / É mais fácil aceitar um sacrifício futuro, que um sacrifício imediato. Primeiro: porque o esforço não é empregado de imediato. Segundo: porque o público, a massa, costuma têr a tendência de pensar ingenuamente que: "tudo vai melhorar amanhã", e o sacrifício exigido "poderá ser evitado". / Isto da mais tempo para se acostumar com a idéia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar a hora.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pasquim - Ilustração: Käthe Kollwitz

5 - "SE DIRIGIR AO PÚBLICO COMO SE FOSSEM CRIATURAS DE POUCA IDADE" / A maior parte da publicidade dirigida ao grande público, utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximas da debilidade mental. Como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o espectador, maior a tendência em adotar um tom infantil. Porqué? Se nos dirigirmos a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, ela tenderá, por causa da sugestienabilidade, a formular uma resposta mais infantil ainda, desprovida do senso crítico de um adulto.