quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Exposição PAREDE

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Exposição PAREDE - Cartaz - Omino 71 - Itália

Exposição PAREDE - Desenho: Arjam Martins - Rio de Janeiro - Brasil - trabalho individual

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Exposição PAREDE

Exposição PAREDE - Eduardo Denne "Garrincha"

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TRIMANO - Depoimento

Série "Urbana - Passageiros de ónibus" 2010 - Sobre uma fotografia de Mario Cravo Neto

Entrevista concedida por Luis Trimano ao designer Ricardo Antunes, editor da revista virtual “ILUSTRAR” Rio de Janeiro – abril de 2010 1 - "ILUSTRAR" - Você começou a desenhar desde muito pequeno e se profissionalizou bem cedo. Como foi esse começo? / TRIMANO - A certeza de que o desenho seria a minha forma de expressão, se da por volta dos 14 ou 15 anos. Nesse período ingresso na Escola Nacional de Belas Artes. O ambiente era mais de escola de “labores” práticas, que de ateliers, de artistas, como serian Lino Spilimbergo ou Antonio Berni, que me influenciaram muito, principalmente nos primeiros tempos, quando a gente lutava para dominar os materiais Nesse período começou uma greve contra reformas de ensino, pela implantação do modelo vivo, e os alunos começaram a jogar os jesos que serviam para copiar formas académicas, pelas janelas da escola. Essa greve nunca iria acabar e me afastei. A vivência da pintura, eu devia procurar por outros caminhos. Sempre desenhando de forma obsessiva, lutando por expressar os temas que me interessavam, e andando a cidade pra cima e pra baixo “buscando”, e visitando os ateliers dos pintores, a procura de um clima de diálogo com gente que me interessase, num clima que não senti na Escola. Eu era muito influenciado por Carlos Castagnino pintor e desenhista virtuoso, muralista e ilustrador literário que tinha montado em Buenos Aires, um “atelier libre” que foi muito importante naquele momento, e formou muita gente. Empregava o método de ensino de um pintor cubista francès chamado André Lhote. Eu precissava de alguma coisa mais “instantânea”, e o desenho era a “ferramenta” perfeita, que eu poderia manejar (e depois de árduos trabalhos...) conseguir um domínio. Paralelo a este processo, ingresso na Escola Panamericana de Arte, fundada por 12 mestres da ilustração e o quadrinho, entre eles Hugo Pratt e Enrique Breccia. Isto consolidou algumas certezas, sobre questões que vinham me dando voltas, a respeito da abordagem gráfica da narrativa, e também me abriú um panorama mais amplo sobre os quadrinhos, já que vários dos artistas da escola eram quadrinistas, como Hugo Pratt. Essa vivência em que se misturam as artes plásticas e as artes gráficas, me leva, depois de organizar 4 exposições individuais de desenho em galeria, à ilustração para imprensa, onde faço uma tentativa de “fusionar” a qualidade visual que pode ser alcançada na prática das artes plásticas, e o dinamismo que adqüre o desenho impresso na página do jornal. A ilustração em preto e branco, quando a impressão era feita com clichês, sistema semelhante a xilografia. As vezes era notório o “cunho” provocado pela pressão da matriz sobre el papel. A profissionalização veio em 1967, quando publiquei a primeira ilustração no semanário portenho “Análisis”. Depois desse curto período de estréia na imprensa, em1968 emigrei para o Brasil. / 2 - "ILUSTRAR" - Quais foram as suas influências artísticas? / TRIMANO - Os primeiros contatos que tive com arte, foram, quando menino, o cinema, os comics e os quadrinhos locais, que na Argentina se chaman de “historietas”. Nos anos 60, surgiram, em Buenos Aires, muito bons desenhistas de quadrinhos, artistas plásticos/ilustradores, e gravadores. Existia uma espécie de “culto” das revistas de quadrinhos e dos desenhistas que se confundiam com seus personagens como acontece com Hugo Pratt e a sua personagem autobiográfica Colto Maltese. Naquele momento algumas pessoas investiram em idéias novas Correndo riscos de falência, e essa falência aconteceu diversas vezes... Foram os lendários “alternativos”da imprensa dos anos da ditadura militar Foi um momento excepcional e se fizeram coisas excepcionais, as posibilidades de se publicar ilustração autoral, eram bem maiores do que hoje Sobre as influências:. Em Buenos Aires e Montevideo, existe um espíritu de “humor negro”, legado dos espanhóis. Um antecedente de esse espíritu “negro” é Francisco de Goya, uma da minhas influências junto com uma gravadora expressionista alemã chamada Kathe Kollwitz. Os mestres argentinos. antes citados Spilimbergo, Berni e Castagnino O desenho de Carlos Alonso Os muralistas mexicanos Orozco, Rivera, Siqueiros e Tamayo Os desenhos de Cándido Portinari O Expressionismo Alemão As "Calaveras” e as gravuras de cordel de José Guadalupe Posadas A pintura de Emiliano Di Cavalcanti O pincel de Hugo Pratt e o pincel dos desenhistas de quadrinhos. O desenho de Hokusai e as estampas japonesas / 3 - "ILUSTRAR" - Tantas influências permitiram que você trabalhasse com quase todos os materiais. Há algo em especial que tenha preferência? / TRIMANO - Eu gosto muito do resultado preto e branco na ilustração para jornal. Não gosto da cor tal como é utilizada na imprensa atual, virou um caos. O bico de pena, uma das técnicas que destacou o meu desenho na imprensa, semelhante a gravura em metal, é uma técnica que uso desde que comecei a desenhar. Esta referência a gravura é muito interessante porque me leva a visitar o trabalho de gravadores e a gravura de um modo geral, no caso a xilografia, primeira técnica de ilustração a ser utilizada na imprensa. Nos anos 80 fiz uma série de trabalhos sobre MPB. Foram capas de disco vinil e uma série de guaches de tamanho um pouco maior que o habitual: 1,20 x 90 mts., levou por título Músicos de Rua, e foi exposta em 1985 no Museu de Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Também foi capa da revista Gráfica. Essa série, não era desenho colorido, era pintura sobre papel. Um pouco como se trabalhavam os cartões preparatórios das pinturas no século XIX. Esta técnica está relacionada também a tinta acrílica, que utilizei pintando painel mural, sobre tela , parede ou compensado. Existem duas técnicas que nos afastam das colorações do guache e da tinta acrílica, son as canetas descartáveis esferográfica e hidrográfica, cujas cores estão mais próximas das cores de fabricação industrial, que das tintas empregadas na pintura artística. Para as composições eu uso, como sistema de trabalho, a colagem de imagens retiradas de diversas fontes, que depois de feitas as montagens, serão projetadas e desenhadas artesanalmente a lápiz, nanquim ou caneta, no papel. Tenho utilizado também, a câmera digital para registros do real, que depois servirão de modelo nos desenhos e as ilustrações. A serigrafia é uma técnica dificil que tem me dado bons resultados também. A coloração da tinta serigrafica, utilizada também para fins industriais, é diferente do óleo, o acrílico e o guache. Sendo de difícil execução, os custos da tiragem serigráfica são altos, e o seu preço aumenta de acordo com o número de cores empregadas. É muito difícil para o artista arcar com os custos de uma tiragem serigrafica sem patrocinio Em 2006 fuí contratado pela firma serigráfica Arte & Naturaleza de Madrid, a realizar a impressão de 8 imagens da série ‘Estigmas”, conjunto de guaches que produzi, por volta de 1984/85, sobre textos do poeta peruano César Vallejo, e que na época foram expostos na galeria Carlos Oswald do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. / 4 - "ILUSTRAR" - Boa parte do seu trabalho são retratos ou caricaturas. O que busca ao retratar as pessoas? / TRIMANO - O retrato sempre procurou “capturar a alma” da pessoa. No retrato tenho procurado dignificar ou exaltar as qualidades humanas do retratado sem abandonar um longo trabalho que venho fazendo há anos sobre a face humana, sobre a transformação da face humana, que.me levou durante algum tempo, a me afastar do retrato, e trabalhar um caricato próximo das máscaras teatrais, ou dos “anti-retratos” do Expressionismo Alemão. Eram caricaturas grotescas e simiescas, um teatro de títeres aleijados e maléficos a se pasearem pelas páginas vigiadas pela censura. “Grafismos sombrios e bestiais para tempos sombrios e bestiais” e tentando também incorporar as variantes e mudanças do grafismo atual, incluindo a participação do computador. Quando cheguei em São Paulo, em 1968, conheci os retratos pintados a óleo por Flavio de Carvalho entre 1920 e 1950., e também os desenhos a carvão retratando a mãe no leito de morte. Expressionismo selvagem. Me impressionou a valentia com que encarava o retrato. Eu estava estudando os desenhos e as pinturas do período figurativo de Jackson Pollok, cujo trabalho, nesse momento, esteve influenciado pela arte ritual dos índios Navajos do México, e pelo muralista Clemente Orozco. Também estava olhando os retratos pintados por Francis Bacon, os mais violentos já produzidos. Bacon me provocou forte influência durante um bom tempo. Data desse período uma série de pequenos desenhos a nanquim, muito trabalhados e muito escuros que fiz nesses primeiros meses de São Paulo. Eram “sombras”, “fantasmas que se arrastavam pela Gotan-City que me pareceu Sampaulo a noite. O título De um dos desenhos dessa série foi: “O Fantasma do Viaduto”. Eu estava fazendo caricatura com os grafismos de Pollock me dando voltas. E dessa química meio maluca, me lembro que saíram desenhos bem feitos, imaginativos Entre 1968 e 1974 trabalhei intensamente como caricaturista na imprensa comercial e na imprensa alternativa, chamada de “nanica”. Nesses anos se operou uma mudança significativa na visualidade dos meios de comunicação impressos no Brasil, e o meu desenho, (que trazia um dado visual diferente), acabou se integrando e fazendo parte daquele processo. Como influêcias no gênero do retrato posso citar alguns artistas de varias epocas, que me Impressionaram e a quem seguí, numa “influência consciente” Os retratos de Rembrandt, os autorretratos de Van Gogh os apontamentos rápidos e retratos de Toulouse Lautrec, os retratos de Oskar Kokoschka, as litografias produzidas para a imprensa francesa e as caricaturas modeladas de Honoré Daumier, os retratos de populares e personagens da corte de Francisco de Goya Os retratos pintados de Francis Bacom Os retratos que Picasso fez de Dora Maar e outras mulheres Entre os contemporâneos posso citar a Ralph Steadman que utiliza um grafismo muito violento e pesado para falar de temas violentos. / 5 - "ILUSTRAR" - Uma das características do seu trabalho, em especial nos retratos, é o grafismo utilizado, se tornando quase que um elemento a parte na ilustração. Essa busca quase obsessiva pelo grafismo e pela textura reflete uma busca maior pela estética? TRIMANO - Eu acho que a figuração e a não figuração fazem parte de um mesmo contexto, mas se remetem a interesses diferentes. Eu sempre me interessei pela figuração, por representar a figura humana protagonizando suas histórias, daí o posterior interesse pela ilustração. Dentro da figuração existe abstração: quando ampliamos um detalhe qualquer de uma pintura figurativa, conseguiremos vizualizar quadros abstratos ou não figurativos, Eu tento trabalhar o elemento figurativo de maneira que não deixe de representar o que quero dizer, mas ao mesmo tempo seja um trabalho onde o plástico esteja em primeiro lugar, já que se trata de um trabalho plástico. Desta forma o conteúdo estará sendo transmitido com maior ou menor intensidade de acordo com a intensidade expressa nas imagens que ilustram. No meu caso, o interesse pelas disciplinas das artes plásticas como a pintura e a gravura, faz com que utilize elementos do desenho erudito proveniente da plástica, e não das redações de jornal ou das agencias de publicitárias, onde muita gente tem se formado a falta de boas escolas profissionalizantes, mas cujo esquema acaba sendo um esquema de linha de montagem. É difícil fugir ao automatismo trabalhando dentro de uma redação ou numa agencia de publicidade. / 6 - "ILUSTRAR" - E grande parte dos seus trabalhos são apenas a preto e branco. Acha que uma arte a preto e branco possa ser mais expressiva? / TRIMANO - O preto e branco e a cor são dois caminhos diferentes. O desenho em preto e branco Está sujeito, na maior parte dos casos, quase que exclusivamente a forma. O preto e branco se presta ao claro escuro e ao modelado de volumes. A luz, a sombra ea penumbra, os cinzas. Os climas provocados são dramáticos, austeros, lacônicos. Essa me parece ser a expressividade do preto e branco. E o realce na descrição da forma. A cor, dispensa os volumes e o desenho demasiadamente construído. A cor é essencialmente luz. Os temas muitas vezes nos determinam a coloração das composições. Em trabalhos que fiz para capas de disco da MPB a cor era muito Importante porque a temática se referia a música o carnaval e os compositores do samba. Outros temas, ligados a problemática social urbana, guerras etc. creio que exigem o preto e branco. Tanto a cor como o preto e branco são altamente expressivos, Se estiverem de acordo com o tema ilustrado. Exemplos: um fusilamento de Goya só pode ser em preto e branco. Um campo florido de Monet, só pode ser de cor plena. / 7 - "ILUSTRAR" - Muitos ilustradores consideram a ilustração como um trabalho apenas comercial, mas você já afirmou que a ilustração cumpre uma função social. Como se daria isso? / TRIMANO - Poderíamos comparar o ilustrador free-lancer ao ator não contratado. Muitas vezes me perguntei; de que vivem os atores quando não estão tabalhando para telenovelas, que são as únicas que pagam, porque ninguém vive de fazer teatro. Os atores vão fazer publicidade, vão vender apartamentos. Quem ontem interpretava um clássico, hoje está vendendo três quartos e varandão. A pessoa precissa viver,e vai se malograr por uns trocados, que tampouco vão resolver a sua situação, fazendo gingle ou anuncio de super mercado. O teatro que estudou, os sonhos de interpretar, de “ser” ator, vão pro lixo. Vi atores e artistas plásticos passarem por esta ignóbil situação de acabar na indigência ou na pobreza total. A mesma coisa podemos falar do ilustrador. Ou se considera artista, porque a ilustração (é uma vergonha ter que dize-lo) é uma arte, ou é um burocrata que marca cartão e faz o que le mandam fazer, a espera da hora da saída. Então o cara que acha que a ilustração é apenas um ganha pão, no é um artista, é um comerciário que trata de serviços onde se utiliza a ilustração. Mesmo sendo um pequeno profissional autônomo, Ele faz parte do ramo da publicidade comercial e não da arte da ilustração. Eu acho que, quando um artista tem uma preocupação social com respeito ao seu trabalho, deve evitar ao máximo a aproximação da ilustração comercial e colocar a sua ilustração a serviço de temas políticos, culturais ou educacionais, que possam ser úteis as pessoas, não vender um quadro para quem tem dinheiro, para a contemplação privada. Democratizar a imagem ilustrando temas que aculturem, não vender objetos. O ilustrador cumpre uma função social, quando o seu trabalho chega nas pessoas e provoca uma reflexão, o oposto de toda esa orgia de impactos e negócios em que se transformaram os meios. / 8 - "ILUSTRAR" - Portanto dependendo de como for usada, a ilustração pode ter de uma certa forma um papel também político? / TRIMANO - Eu creio que a intenção da editoria e o próprio veículo onde é publicada determina a eficácia da ilustração de intenção política. Não somente pela sua qualidade como desenho. Se está integrado ou desintegrado do conjunto, numa publicação dedicada a crítica da temática social. Se repete os vícios da imprensa comercial ou reivindica uma linguagem não regida por regras do mercado. ,A ilustração de comentário político, não precissa necessariamente estar publicada num veículo político partidário para ser notada ou apreciada pelo leitor. A ilustração política é uma ilustração opinativa, é também um gênero, hoje um pouco fora de contexto, de acordo com os nihilismos da moda... Um exemplo da prática deste gênero, é o ilustrador norteamericano Brad Holland, publicado regularmente durante anos pelo jornal Nova York Time, quem caracterizou o seu desenho, como ilustração de comentário político com espaço fixo na página. Espaço fixo de ilustração, não de portrait charge. Este hábito de criar um espaço fixo para o ilustrador, é incomum nas publicações brasileiras de noticias e variedades, ficando um ínfimo espaço para a ilustração autoral de comentário político, nas raras páginas ilustradas sobre estes temas. Nesse momento o ilustrador começa a ser visto como “artista plástico”. Eu acho que esta “confusão”, vem do fato do ilustrador não ser nem chargista nem caricaturista, dois gêneros tradicionais da imprensa escrita. Fora do desenho humorístico, é difícil conseguir espaço fixo de ilustração na imprensa comercial, por sinal a única que tem. Os nanicos não existem mais. A tendência é, a de assossiar a ilustração a literatura, o livro ou a revista ilustrada. Obgetos de manuseu da clase média alta (um livro custa quase 100,00$ reais), uma revista ilustrada, mais de 10,00$ reais. As pessoas olham jornal na banca, contam moedas para viajar no ônibus, ou deixam parte da compra do supermercado em cima do balcão etc. E esta é outra contradição que se me apresenta quando reivindico uma qualidade quase luxuosa (se comparando) para o trabalho publicado... Opinião, Versus, e Pasquim, foram jornais da imprensa alternativa que utilizaram principalmente desenhos em lugar de fotografias. A foto- grafia era publicada esporadicamente. Ou seja que existia uma proposta, que sempre foi muito alimentada pelo mestre Jaguar, de uma imprensa muito grafitada e desenhada, politizadíssima e divertida. Publiquei muitas ilustrações políticas em parceria com textos de Newton Carlos e Luis Carlos Maciel no período final do Pasquim. O panorama hoje é bem pobre nesse sentido. / 9 - "ILUSTRAR" - E você tem um forte interesse pela política e pelos movimentos sociais, não? / TRIMANO - A política está em tudo que fazemos. O momento que eu vivi, na Argentina e posteriormente no Brasil foi muito determinado pela atuação política, “se fazer política”. Atuar politicamente. Participar. Todo o mal acometido contra os povos dos países da América do Sul nos 70, foi demasiado traumático para todo o mundo. A única atitude que nos, artistas, podemos assumir perante toda essa monstruosidade, que aconteceu e continua acontecendo na frente dos nossos olhos, é a solidariedade a “não cumplicidade perante a violência dos fatos” Neste ponto, eu me formulo a ilustração política como um exercicio de opinião, reflexão e resistência.. Isto vai junto com a gente sem o percebermos. / 10 - "ILUSTRAR" - Você trabalhou como ilustrador e artista durante o período dos "anos de chumbo", época mais dura das ditaduras militares na Argentina e no Brasil. Como o contexto político desse período influenciou o seu trabalho? / TRIMANO - Quando saí da Argentina em 68, o governo era manejado por militares. Depois de uns meses trabalhando em São Paulo, contratado pela revista Veja, voltei para Argentina e fiquei todo o ano de 69 desenhando para "7 Dias Ilustrados” e “Panorama”, dois semanários publicados pela editora Abril de Buenos Aires. Editores de destaque da revista “Panorama” naquele momento, foram, o poeta Juan Gelman, Militante Montonero, que teve seu filho e a nora “desaparecidos”, a quem ilustrei recentemente numa extensa série intitulada “Diário” – desenhos de Luis Trimano / e 5 poemas de Juan Gelman”, exposta em 2006 e 2009, em duas galerias do Rio. E o escritor Tomás Eloy Martínez, falecido recentemente, que ficou conhecido no Brasil por seu romance “Santa Evita”, relato das peripécias necrófilas que envolveram o cadáver ampalhado de Eva Perón, durante os anos da ditadura militar denominados de “El processo”. Ambos escreveram no exílio, historiando os “tempos terríveis”, semelhantes em ideologia e métodos ao nazi-fascismo, vividos na Argentina no período. Eu tive conhecimento durante todos esses anos, em São Paulo e posteriormente no Rio de janeiro, dos horrores que aconteceram. Todo esse contexto determinou o “estado de espíritu” em que as pessoas vivemos por muitos anos, com o pensamento fixo: “neste momento pode estar acontecendo...” A violência máxima que procurei no grafismo desse anos, foi, sem dúvida, uma resposta as vivências “de chumbo” que as pessoas tiveram que sofrer. / 11 - "ILUSTRAR" - E como você tentou expressar essa fase nos seus trabalhos? Existe uma frase de um poema de Bertolt Brecht que disse: "... se cantará nos tempos difíceis? sempre se cantará nos tempos difíceis" / 12 - "ILUSTRAR" - Chegou a sofrer algum tipo de censura ou de pressão por isso? TRIMANO - A partir do AI 5, a censura se instalou em todos os meios de comunicação, principalmente na imprensa escrita e na televisão, dois importantes formadores de opinião. Qualquer pessoa que estivesse trabalhando nos veículos da imprensa comercial, recebendo ou transmitindo qualquer tipo de informação, podia ser alvo da censura. No caso da imprensa alternativa era mais duro por causa da natureza das publicações. Principalmente o tablóide “Opinião”, jornal de crítica política e firme opositor ao governo militar, um dos alvos mais visados da censura. / 13 - ILUSTRAR" - Você se considera um ilustrador que circula pelas artes plásticas ou artista plástico que também ilustra? TRIMANO - Um artista plástico que ilustra. O ilustrador que trabalha com figuração, deve ser artista plástico, do contrario não pode ser ilustrador. Não terá a prática com as técnicas nem o conhecimento do corpo humano, nem saberá como se desenham roupas e objetos. Não saberá relatar uma história com desenhos. Eu acho que o computador “aleijou” o homem nesse sentido. Hoje me parece muito difícil que as pessoas sentem para desenhar como no tempo anterior a eletrônica. Eu penso que quase toda a arte figurativa anterior ao Abstracionismo, vista de hoje, é ilustração. O Renascimento é ilustração, a “Capela Sixtina”, é uma extraordinária ilustração pintada numa superfície mural gigantesca, mas publicada em livro junto a um texto, é uma ilustração. Da mesma forma que o “Guernica” de Picasso, editado em livro junto a um texto alusivo, é uma ilustração. Para mim, um artista plástico que usa a figuração para contar uma história, é um ilustrador. Eu acho que a ilustração é o que em outras profissões, Se denominaria de “especialização”, mas, para se especializar, precissa estudar as matérias da profissão. Depois de um certo tempo ilustrando, as duas disciplinas se misturam de tal forma dentro da gente, que passamos a não senti-las mais. / 14 - "ILUSTRAR" - E como vê o atual mercado de trabalho? / TRIMANO - A imprensa alternativa, politizada, culta, participativa e completamente livre de vínculos com o lucro, na qual trabalhei muito no inicio dos 70, não existe mais. Mas a idéia dos projetos alternativos, que me acompanha desde que era adolescente, principalmente nos poemas ilustrados, é cíclica e se renova com as mudanças dos tempos. Não enxergo, neste momento, posibilidades de mercado para o meu trabalho na imprensa comercial. Eu radicalizei a minha proposta sobre o que quero fazer da ilustração. Quem sabe, como você formulou numa pergunta anterior, eu volte a ser, como foram os artistas que me influenciaram, um artista plástico que transita pela ilustração. Neste momento estou acabando de ilustrar um livro grande de Pablo Neruda: “Canto Geral”, uma história da conquista espanhola das Índias, em versos. Este trabalho deve ser exposto ainda este ano no MNBA do Rio de Janeiro E proximamente estarei começando as ilustrações do “Diário Íntimo” subtitulado “Retalhos”, de Lima Barreto, com edição programada para 2011, que será acompanhada de exposição alusiva ao escritor, e na qual serão mostrados os originais das ilustrações realizadas para os “Retalhos” e para o romance “Recordações do Escrivão Isaias Caminha”, do mesmo autor. Ambos projetos autônomos, emparentados com a literatura crítica e a poesia. Resistindo de costas ao mercado. 15 - Sente que a nova geração de diretores de arte poderiam ter uma melhor formação artística?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ENTREVISTA ABI 04 DE ABRIL DE 2010 1 – ABI – Como avalia, hoje, o espaço no mercado para ilustradores, chargistas e caricaturistas? TRIMANO– Muito precário. Temos bons artistas, na ilustração, na caricatura e na charge, mas estão sendo desaproveitados, desvalorizados e mal remunerados. Faltam editores informados e interessados em publicar ilustração. O editor é tão importante quanto o ilustrador. Não adianta um magnífico desenho se não tiver uma edição competente. No referente a charge e a caricatura, as chances de publicar são maiores, mas o espaço para ilustração autoral é praticamente nulo. Sobre o desemprego da classe: tomemos como exemplo o Salão de Humor de Piracicaba – SP, que desde a sua criação tem produzido bons desenhistas. Depois de inaugurado o Salão e outorgados os prêmios, os trabalhos são publicados na imprensa como registro do evento e os artistas são esquecidos. Não há mercado para absorver esses profissionais. Qual é o sentido, então, de se fazer um salão, mobilizando tanta gente, e premiar os mais qualificados, se posteriormente esses artistas não terão onde trabalhar? Não existem hoje publicações interessadas em ilustração como foram “Pasquim” e “Opinião” no Rio, “Raposa” em Curitiba, ou “Versus” e “Bondinho” em São Paulo, veículos alternativos de presença marcante, onde publicava gente nova de qualidade, criando um mercado que marcou época. O Brasil sempre teve fotógrafos de nível internacional, mas carece de ilustradores à altura. Por causa disto, muitos editores optam pela fotografia como solução para preencher a lacuna, mas não existe substituição. O fotógrafo “mostra”, o ilustrador “interpreta“. Um não deve invadir o campo do outro. 2 – ABI – E em especial a mídia? O que aconteceu que as ilustrações foram praticamente extintas de jornais e revistas? TRIMANO – Existem dois fatores, ao meu ver, que determinam o visual das publicações: os interesses comerciais, ligados a publicidade, cujos anúncios invadem espaços gigantescos na mídia fazendo com que as páginas dos jornais se assemelhem a propagandas de super mercado. E a moda (em todos os sentidos, inclusive na arte). Estas sugestões tem visual padronizado e criam estereótipos que induzem o leitor ao consumo fácil e rápido de conteúdos e objetos. Nesse contexto, excessivamente comercial e imediatista, a ilustração autoral não tem espaço. A imprensa, na atualidade, tem dado mais importância aos anúncios publicitários do que a publicação de matérias ilustradas, sejam elas políticas ou culturais. E a maior parte das publicações da imprensa comercial tem adotado este perfil, excluindo o ilustrador. Existem umas poucas revistas dedicadas a cultura, literatura e política, ilustradas com desenhos amadorísticos, realizados por pessoas que não são desenhistas profissionais e tampouco artistas de interesse, o que da um tom de precariedade a publicação. Esse poderia ser um mercado, mesmo restrito, para os artistas que se dedicam a ilustração autoral, se a escolha dos ilustradores fosse mais criteriosa, e se desse importância a profissionais de excelente qualidade que vivem desempregados. Já escutei disparates do tipo: -“publicar desenho é “oneroso”, é o mais grave profissionalmente é que em muitos casos não se publica ilustração para não ter que pagar o ilustrador... Sobre a importância da editoria: já me aconteceu de deixar de mandar trabalhos publicados no Brasil para exposição em revistas especializadas de fora, por causa da má edição. O trabalho se malograva pela incompetência de outros. Este controle foge a vontade do ilustrador, é tarefa do editor. Eu sinto um embrutecimento cultural muito grande na sociedade atual, um retrocesso. Se compararmos com os 70, quando a imagem foi ricamente elaborada nas artes gráficas, com projetos arriscados e diagramações interessantes nas quais o trabalho era publicado com cuidado, percebemos quanto foi perdido ou diluído em “piruetas” editoriais sem valor. Para quem viveu o idealismo desse tempo, é duro sobreviver nos gelados e nique($)lados 2.000... A partir de meados dos anos 80, com o arribo da moda denominada “besteirol”, começaram a se impor imagens baratas de consumo semelhantes a decalcomanias de banheiro, misturadas a bonecos de comics e desenhos animados. Foi a “idiotia”, o esvaziamento das imagens. Hipnotizadores do visual urbano, ignorantes dos verdadeiros antecedentes das artes gráficas no Brasil, como a revista modernista “Klaxon”, os desenhos de J. Carlos, e as xilogravuras de Oswaldo Goeldi ou Lívio Abramo. O computador veio a mudar a relação do ilustrador com os meios, e num primeiro momento chegou a excluir por completo a ilustração artesanal. Nas capas de revistas, livros e CDS se aprimorou a produção gráfica, mas a utilização excessiva do computador acabou despersonalizando o visual desses produtos. Eu defendo a idéia de que o ilustrador, em nossos dias, deve manejar tanto o desenho artesanal como o computador. Essa mistura dará como resultante uma nova forma de “olhar” a realidade. As minhas propostas de ilustração neste momento estão relacionadas as minhas primeiras referências profissionais, que foram os pintores figurativos argentinos, anteriores ao abstracionismo, que também foram ilustradores de destaque, principalmente de literatura. É improvável que eu volte a desenhar para jornalismo de acordo com os modismos imperantes, mas o trabalho de ilustração continua na área do livro, nos retratos, e nos projetos pessoais de poemas ilustrados. 3 - ABI – O desenho tornou-se, nas leis do mercado, uma arte menor? Como reverter isso? TRIMANO – O desenho, assim como a escrita manual, são inerentes ao ser humano desde a caverna. Nunca poderia ser considerado uma arte menor. O “endeusamento” da máquina, no caso, o computador, é um descaminho que sobrepõe o invento ao inventor. O mercado não passa de vulgar comércio, a gente não deve deixar “o mercado” ditar regras no conhecimento e na arte. As únicas regras que interessam a eles são as do lucro. Esse comportamento está relacionado a publicidade e nada tem a ver com ilustração, e muito menos com ilustração autoral. Aceitar que o mercado mande no trabalho de arte, que é o que vem acontecendo cada vez mais, é compactuar com o disparate. Eu creio que a única forma de reverter essa situação de precariedade, é mostrando, expondo e informando,seja na imprensa escrita, na mídia eletrônica ou em exposições coletivas onde se apresente o trabalho que vai sendo realizado, sempre que possível em espaço descompromissados com a imprensa comercial. Um exemplo do descaso dos profissionais da área para com a classe: em 2009, um grupo de 20 artistas, ilustradores e gravadores, alguns bastante conhecidos pela publicação nos meios, organizamos uma exposição coletiva no Museu Nacional de Belas Artes do Rio intitulada “Gráficos Rio”, na qual foi apresentada a nossa produção mais recente. A grande imprensa, com algumas raríssimas exceções, não tomou conhecimento. Conclusão: os órgãos da imprensa não valorizam o serviço do ilustrador, e se omitem na divulgação das exposições. Este tipo de comportamento, mostra o grau de desconhecimento e desinteresse dessa gente para com o nosso trabalho, quando dão páginas e páginas a qualquer desvario que lhês reporte audiência ou vendas astronômicas. Não interessa a qualidade, interessa apenas o lucro. 4 - ABI – Tem noticias de muitos profissionais da área que enfrentam dificuldades, exatamente por falta de campo de trabalho? TRIMANO – Alguns artistas, inclusive amigos, tiveram que se dedicar a outras atividades por causa dessa “ditadura do mercado”. Saíram ou foram saídos da imprensa... Não aceitaram a “padronização”, e também se ressentiram com a péssima remuneração. A ilustração, cujo principio é a democratização da imagem, se vê assim exposta as corridas dos ibopes e outros “comercialismos” para mal sobreviver. 5 – ABI – Quais são as suas atividades profissionais hoje, no campo do desenho? TRIMANO – Pouco tempo atrás ilustrei um livro de Machado de Assis: “Como Se Inventaram Os Almanaques”, para a editora Mercúrio de São Paulo. “A Crise da Globalização” do economista José Carlos de Assis, onde condensei ilustrações publicadas anteriormente na Folha de São Paulo e “Recordações do Escrivão Isaias Caminha” de Lima Barreto para o CNPQ. E desde 2005 trabalho nas ilustrações do “Canto Geral”, um relato da conquista da América pelos espanhóis em versos, de Pablo Neruda. Esta última série está programada para exposição em novembro e dezembro deste ano, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio. 6 – ABI – A pesar de todo esse contexto de crise, novos talentos do desenho continuam a chegar ao mercado, o que diria a eles? TRIMANO – Não existe solução para o impasse da ilustração sem editorias que dêem apoio, e o lançamento de gente nova. Que tem muita gente nova e competente sem espaço. É necessário mudar as regras desse mercado, com editores que pesquisem e publiquem os ilustradores. Um mercado (sem panelinhas) para toda essa gente que se forma e depois não tem onde trabalhar. 7 – ABI – Desde quando desenha? Como se deu sua formação? Onde buscou inspiração? TRIMANO – Comecei a desenhar muito cedo, menino ainda, e antes dos vinte anos já tinha me profissionalizado. As minhas influências foram os pintores do realismo social argentino, que também eram muralistas e ilustradores literários. São: Lino Ênea Spilimbergo, Juan Carlos Castagnino, Antonio Berni e Carlos Alonso. Esses artistas são desconhecidos no Brasil, por causa do péssimo intercambio cultural entre os dois países. Tem gente aqui que, para nossa vergonha, vive correndo atrás das últimas novidades na América do Norte ou na Europa, e não sabem o que se passa em Montevideo... Outras influências foram as aguafortes de Rembrandt, o Expressionismo Alemão, as gravuras de Käthe Kollwitz, o Muralismo Mexicano, os desenhos do japonês Hokusai, a pintura negra e as gravuras satíricas de Francisco de Goya, e as caricaturas e litografias realizadas para a imprensa francesa do século XIX por Honoré Daumier, o antecedente mais importante do nosso trabalho de hoje. Com respeito a idéia de “inspiração”, eu acho que a orientação vem do estudo de artistas anteriores a nos, com os quais nos identificamos e praticamos uma “influência consciente”, que vai determinar nosso caminho posterior. Desta forma a gente se integra num círculo onde vai completar o aprendizado técnico e harmonizar as idéias. Eu, como todo mundo, faço parte de um contexto composto por artista que eu escolhi como modelos de acordo com as minhas afinidades. Eu acho que a sua influência determina em grande parte as fontes da minha inspiração atual, que são as pessoas e os ambientes da rua. Neste sentido, ilustrar para jornalismo, que para mim foi uma experiência definitiva, agudizou este tipo de observação, ampliou a minha compreensão da realidade. A fotografia de reportagem, presença fundamental na imprensa, também teve um papel importante no meu desenho. 8 – ABI – O que o motiva a desenhar? TRIMANO – O desenho sempre foi uma necessidade premente de expressão para mim. A ilustração, quase uma “militância”. A minha participação na realidade. Uma maneira de romper com a “elitização” burguesa da imagem exercida pelo chamado mercado de arte. 9 – ABI – Qual a principal técnica utilizada? TRIMANO – No meu trabalho a forma se sobrepõe a utilização da cor. Eu provenho das artes plásticas, de modo que estudei pintura, mas emprego a cor como gráfico, não como pintor. Não utilizo as técnicas tradicionais da pintura. Não existe trabalho de pincel no meu desenho. A cor quase sempre é ácida, e nos remete as colorações das tintas industriais por causa da utilização de canetas esferográfica e hidrográfica. No desenho de preto e branco, que foi o que caracterizou as minhas Ilustrações na imprensa, anterior a explosão da cor nos jornais, sempre utilizei o lápis como base e, principalmente o bico de pena, que conserva um parentesco com a gravura em metal, e planos negros intensos chapados a pincel. O jornal multicolorido mudou a linguagem, e com raras exceções, banalizou a cor. Eu pessoalmente, como desenhista, gostava mais do jornal em preto e branco. O visual dos jornais de trinta anos atrás tinha, para mim, uma “coloração” mais próxima da gravura, pelas manchas de pretos e cinzas. Tenho empregado todas as técnicas de desenho sobre papel, menos a aquarela, que exige um talento especial. E o acrílico sobre tela ou madeira no caso do painel mural. 10 – ABI – O que faz um grande ilustrador? Qual o segredo para se tornar um profissional de destaque, diferenciado neste campo? TRIMANO – A ilustração possui regras um pouco diferentes das que regem as artes plásticas. Eu diria que um artista, antes de se tornar ilustrador, deve se formar como plástico, mesmo sendo autodidata (não me refiro a formação universitária) e também vagabundar bastante, curioseando tudo, andar no mundo. Na ilustração para jornalismo, o homem comum é o protagonista, e isto nos leva a ilustração política, ou de comentário político, existe um exemplo deste gênero, que é o desenhista e pintor norte-americano Brad Holland, cujos desenhos em preto e branco nos remetem as gravuras de Goya. O artista ilustrador de imprensa, além da obrigação de aperfeiçoar seu desenho, é levado a ampliar seus conhecimentos sobre os diversos temas que compõem o jornal, onde se mostra a realidade do mundo. Depois que a gente se conscientiza de tudo isso, começa o aprendizado do desenhista dentro do jornalismo, e o jornalismo é dinamismo, política e ação. Um ritmo bem diferente ao do estúdio, onde o trabalho é mais recolhido, meditativo. Existe muito amadorismo na ilustração brasileira. Os motivos são a falta de tradição na prática do desenho e a falta de escolas especializadas no gênero. Por causa disto, alguns desenhistas se “fizeram” nas redações, ganhando experiência na medida em que iam publicando. A sua escola era a redação, não a escola de arte. Eu também passei muito tempo trabalhando nas redações. De acordo com a situação atual, não é fácil se tornar ilustrador de destaque. O “mercado” mediocrisa o trabalho, ofusca a personalidade do ilustrador, é uma luta inglória contra a apatia instalada nessa gente. Em última instância, acho que se o artista possui uma convicção, vai realizar a sua proposta, mesmo fora dos meios. Esta é a situação no momento. A expressão e a crítica política são banidas da arte, transformada num jogo de formalismos, reciclagens, e no pior dos casos “clonagens”,de fórmulas norteamericanas e européias, ou num simples lazer de parque de diversões. Uma corrrida de falsos mitos, que eles chamam de “celebridades”, puro desvario. A minha posição é: o nosso trabalho não deve compactuar com esses modismos. Estudar e se aprofundar tanto quanto possível, sem se deixar levar por essas “micagens” ridículas do servilismo colonizado. Nos vivemos num país onde as pessoas andam sem dentes por falta de dinheiro e amassam latas nas ruas para poder comer. De modo que o artista não pode nem deve se prestar aos maniqueísmos de modas impostas por quem manda. A ilustração cumpre uma função social. Não é um divertimento da corte, é uma intervenção crítica sobre a realidade. Preservar o próprio trabalho da contaminação dessa coisa vazia e sem sentido, é o mínimo que o artista pode fazer, o único gesto digno, com mercado ou sem ele. 11 – ABI – Nesses 40 anos de atividade, em quais empressas já trabalhou? Em quais publicações esteve presente de forma mais constante? TRIMANO – Em 1968, na minha chegada ao Brasil trabalhei como caricaturista para a Folha de São Paulo, o editor chefe era Claudio Abramo, irmão do gravador Lívio, e o diretor de arte era o cartunista Zelio. Nesse momento, em meio a grandes perturbações sociais, estava se operando uma revolução nas artes gráficas no Brasil. São desse período os simiescos retratos de “personalidades” que fiz, e que alguns editores abominavam. Ainda em 68, fui contratado pela revista Veja, que estava no número 0, fiquei até 1969. Em 1972 participei do projeto dos Fascículos da Música Popular Brasileira da Editora Abril Cultural, e do jornal Opinião. Em 1973 da revista de cultura Argumento, todos esses projetos tiveram, na direção de arte, o ilustrador Elifas Andreato. Em 1974 mudei para o Rio de Janeiro onde colaborei com o Jornal do Brasil e O Globo até 1979. Nesse mesmo período fiz parte da equipe da Revista Rock e do Jornal de Música, ambas dirigidas pelo crítico da MPB, Tarick de Souza. Em 1980, Ilustrei “A Paixão Medida” de Carlos Drummond de Andrade, e uma coleção dos romances de José Lins do Rego para a editora José Olimpio. Em 1986, Jaguar me convidou para ser editor de ilustração do Pasquim com novo projeto gráfico de Oswaldo Miranda “Mirán”, editor da revista Gráfica, única publicação especializada, dedicada aos ilustradores e artistas gráficos brasileiros. De 1993 a 2003 ilustrei regularmente a edição dominical do caderno Economia da Folha de São Paulo.
O RETRATO

domingo, 19 de setembro de 2010

O retrato, na sua forma clássica representa a essência interior do sujeito do ponto de vista do artista, e não apenas a aparência externa. Disse Aristóteles: "O objetivo da arte não é apresentar a aparência das coisas, senão o seu significado interno; pois isto, e não a aparência e o detalhe externos, constitui a autentica realidade" / Os olhos são o lugar no qual é vista a informação mais completa sobre o sujeito. / Existem retratos onde não se vê o rosto do sujeito, e dessa forma o "retratado" integra-se com a ambientação para expressar a interpretação do artista. / Criar um retrato pode levar um tempo considerável, e requer geralmente varias sessões do posado. Cezánne, insistia em mais de 100 sessões dos seus retratados. Goya preferia um longo posado de um dia. Durante a Renascença, era comun, os pintores alemães como Hans Holbein, o jovem, desenharem o rosto e completar o restante da pintura sem a presença do retratado. Estar "posando" no século XVIII, poderia demorar até um ano, desde a encomenda até a entrega do retrato acabado ao cliente. A reprodução fotográfica começou a ser muito utilizada no século XX, substituindo em grande parte o modelo vivo. Edgar Degas e Toulouse Lautrec utilizavam registros fotográficos para a representação de bailarinas e cavalos em movimento. / Os enormes retratos de Chuck Close realizados a partir de fotografias de documentos de identidade, que têm como destino ser mostrados num museu, diferem da maioria dos retratos para se colocar numa casa particular ou ser levados com facilidade de um lugar para outro. / Para a execução de um retrato é essecial dominar a anatomia humana. Os rostos humanos são assimétricos, e um retratista habilidoso reproduz isto com sutis diferenças entre os lados esquerdo e direito do rosto. Os artistas tem que conhecer os ossos que ficam baixo a estrutura do tecido para fazer um retrato convincente. Alguns artistas do passado usavam manequins ou bonecos para ajudar a estabelecer e executar a pose e a roupa. O auto-retrato foi considerado como um "sub-género" dentro do retrato, e na Idade Media os artistas não assinavam a obra, mas podiam aparecer dentro da cena religiosa, como na "Adoração dos Magos" de Sandro Botticelli. / Os auto-retratos produzem-se geralmente com ajuda de um espelho, e o resultado acabado é um retrato da imagem no espelho, o inverso ao que ocorre num retrato normal em que o modelo e o artista estão sentados um frente ao outro. No auto-retrato, como no retrato em geral, observam-se duas tendências: a psicológica e a de corte. No autorretrato pessoal ou psicológico o artista explora a si mesmo, refletindo seu estado interior, por exemplo, Rembrandt van Rijn, Vincent Van Gogh e o expressionista Max Beckmann. No retrato encomendado, é frequente a "adulteração" da verdadeira essência do modelo por conta da sua vaidade ou no caso dos retratos oficiais por conta dos jogos de poder . Se projetam, desta forma, imagens de figuras públicas, que não existem na realidade, somente no retrato. / As raízes do retrato se encontram nos tempos pre-históricos. Nas civilizações antigas abundam as representações de governantes e deuses, contudo, não eram retratos que representavam a autêntica fisionomia do retratado, estavam muito estilizados, a maioria de perfil, usualmente sobre pedra, metal, argila, gesso ou cristal. A pintura de personagens destacados remonta a China em 1000 a.C. Entre os retratos mais antigos de pessoas que não eram reis nem imperadores, encontram-se os retratos funerários do distrito de Fayum, no Egito. A pintura retratística também estava bem estabelecida na antiga Grécia, e a praticavam tanto homens quanto mulheres. Os retratos de Fayum estavam pintados sobre tábua ou marfim com cores de cera e resina (encaustica) ou com têmpera e inseridos na envoltura da múmia para permanecer com o corpo através da eternidade. No Renascimento ressurgiu o retrato pessoal como tema independente, desvinculado das cenas religiosas. Os retratos assumiram um papel de destaque na sociedade ranascentista, e eram valorizados como objetos e como representação do status e do sucesso terreno. / Rembrandt se destacou como gravador e pintor de cenas bíblicas, cuyos personagens são "retratos" das pessoas comuns, e autorretratos onde vai pontuando a passagem do tempo no proprio rosto. / No século XX, o desenvolvimento da fotografia teve um efeito significativo sobre o retrato, suplantando a "cámera escura", que tinha sido usada antes como uma ajuda na pintura. Picasso realizou numerosos retratos cubistas nos quais apenas pode se reconhecer o modelo, pois estão terrivelmente deformados para conseguir uma afirmação emocional que vai muito além dos limites da caricatura normal. Os pintores expressionistas Otto Dix e Max Beckmann, produziram vigorosos retratos onde estão misturados o caricatural e o psicológico. / Nos anos 60 e 70 ocorreu um renascimento do retrato, se destacando Francis Bacon, autor de retratos-máscaras nos quais desconstrói as partes do rosto a procura do "self" do retratado, Andhy Waroll com seus retratos em polaroid pintados e os gigantescos retratos hiperrealistas de Chuck Close que chegam a ocupar uma parede inteira apenas com um rosto. TRIMANO - Rio de Janeiro - 2010