domingo, 20 de junho de 2010

Interior / Nova Iorque - janeiro 23 de 1987

William S. Burroughs - 1953

Bill Burroughs - Nova Iorque 1953

"E para seguir o hábito de Japhy de sempre se ajoelhar com uma perna só e fazer uma pequena prece para o acampamento que deixávamos, para aquele em Sierra, e para os outros em Marin, e a pequena prece de gratidão que ele fizera para o barraco de Sean no dia que zarpou, quando estava descendo a montanha com minha mochila nas costas, voltei-me e ajoelhei na trilha e disse: "Obrigado, barraco". E depois acrescentei: "Blá", com um sorrisinho, porque eu sabia que aquele barraco e aquela montanha compreenderian o que aquilo significava, e virei e continuei seguindo a trilha que me conduziria de volta a este mundo." / JACK KEROUAC Tradução de Ana Ban / final do livro "Os Vagabundos Iluminados" - L&PM

William Burroughs - 1961

Jack Kerouac - 1953

sábado, 19 de junho de 2010

CANÇÃO / "O peso do mundo / é o amor / Sob o fardo da solidão, / sob o fardo da insatisfação // o peso / o peso que carregamos / é o amor. / Quem poderia negá-lo? / Em sonhos / nos toca / o corpo, / em pensamentos / constrói / um milagre, / na imaginação / aflige-se / até tornar-se / humano - // sai para fora do coração / ardendo de pureza - / pois o fardo da vida / é o amor" / ALLEN GINSBERG

Gary Snyder 1963

GARY SNYDER / São Francisco 1930 /
Poeta e tradutor associado a geração Beat.
Budista e ativista ambiental. Ficou famoso
ao ser retratado como o personagem Japhy
Ryder no livro "Os Vagabundos Iluminados"
de Jack Kerouac. Snyder durante toda a sua
vida teve estreita ligação com a natureza,
vivendo no meio selvagem, onde praticou sua
filosofia Zenpor durante longos anos, retratada
em seus poemas. É tradutor de poetas chineses.
OBRAS: "Os Velhos Caminhos" 1977 - Primeira Edição -
São Francisco - Livros "City Lights" / "Esquerda da Chuva" -
poemas inspirados no antigo provérvio chinés "Não há nada
que você próprio faça, que não possa ser deixado fora da chuva" -
Viagens 1947-1985 / "Perigo nos Picos" - poemas - ativismo -
Zen-Budismo e contracultura

William Burroughs - 1953

Allen Guinsberg e o grupo de poetas beat / Tanger - Marrocos 1961

Interior / Nova Iorque 1984

Autorretrato no espelho - quarto de hotel / em tránsito - 1985

sexta-feira, 18 de junho de 2010

OS POETAS / ALLEN GINSBERG / A QUEDA DA AMÉRICA
SETEMBRO NA ESTRADA DE JESSORE
Milhões de criancinhas de ventres inchados / Olhando pro céu, olhos arregalados / Estrada de Jessore - casebre de bambu / Cagam no chão nem têm onde pôr o cu
Milhões de pais morrendo / Milhões de irmãs sofrendo / Milhões de mães a parir / Milhões de irmãs sem ter pra onde ir
Um milhão de tias não têm o que comer / Um milhão de tios a vê-las a morrer / Avõs aos milhões doentes sem cura / Avós aos milhões afundando na loucura
Milhões de filhas na lama de pé no chão / Milhões de crianças tragadas pela inundação / Um milhão de meninas vomitam agoniadas / Milhões de famílias sozinhas desesperadas

"Irak" 2003 - foto: Arko Datta

quinta-feira, 17 de junho de 2010

"Chile" 1973 - foto: David Burnett

"Tangdaar, Kasjmir" 2005 - foto Arko Datta

Mil novecentos e setenta e um tanta gente / na estrada de Jessore sob um sol inclemente / Quem não consegue fugir pra Calcutá / Do Paquistão Oriental acaba morrendo por lá
Táxi setembro carroça de carvão nessa estrada / Por esqueletos de boi rumo a Jessore sendo puxada / pista sulcada de chuva, campos inundados / Árvores sujas de bosta, casebres plástico nos telhados
Úmidas caminhadas Famílias ao léu / Meninos mudos mirrados só a cabeça cresceu / Veja crânios ossudos & olhos redondos silentes / Anjos negros esfomeados disfarçados de gente
Mãe de cócoras mostra os filhos chorosa / Pernas magrinhas parecem freiras idosas / corpinhos miúdos mãos à boca em prece / Há cinco meses que comida por lá não aparece
ao lado da panela vazia numa esteira deitado / O pai levanta os braços ele está desesperado / Vêm lágrimas aos olhos cansados de sua mulher / A dor faz a mãe Maya chorar & sofrer

"Etiópia" 1984 - foto: Kamp Korem

"Liberia" 2003 - foto: Chris Hondros

"Afeganistão" 2001 - foto: Ron Havis

Duas crianças juntas na sombra paradas / Me olham fixamente permanecem caladas / Uma vez por semana, leite arroz e lentilhas / É tudo que a guerra dá às crianças suas filhas
Ao pai falta comida dinheiro e trabalho também / O arroz dura quatro dias é comer enquanto tem / As crianças passam três dias sem se alimentar / e depois vomitam quando comem se não comem devagar
Na estrada de Jessore ajoelhada a minha frente / Mulher chorando disse em bengali ajuda a gente / O cartão de identidade foi rasgado sem querer / Meu marido foi na agência mas ninguém quer atender
Eu estava ocupada o neném pegou o cartão / Agora não querem mais dar comida pra nós não / Trago aquí na minha bolsa os pedaços guardados / Uma brincadeira de criança e estamos desamparados

"Irak" 2004 - foto: Karim Ben Khelifa

"India" 2005 - foto: Adrian Fisk

"India" 2005 - foto: Adrian Fisk

Dois policiais cercados por milhares de meninhos / Esperam anciosos pra ganhar alguns pãezinhos / Os policiais têm apitos & porretes pra impor respeito / & manter a desciplina Mas os garotos não têm jeito
O menorzinho de todos sai da fila de repente / Fura o cerco dos guardas e fica bem lá na frente / Dois irmãos seguem o exemplo também saem do lugar / Os guardas saem correndo atrás possessos a apitar
Por que é que essas crianças estão aqui amontoadas / Rindo brincando correndo & trocando cotoveladas / Por que esperam tão alegres & com tanta tensão e esperança / É por aqui nessa Casa distribuem pão pras crianças
O homem da Casa do pão vai à porta & dá um grito / Milhares de meninos & meninas repetem o que foi dito / É alegria? é uma prece? "Hoje não tem mais pão" / É um grito de "Hurra!" se eleva da multidão
Voltam correndo pros barracos onde ficam à espera os pais / E os pequenos mensageiros avisam que pão não tem mais / Acabou o pão do governo! no casebre apertado / & o bebé está doente, está muito desarranjado.
Desnutrição afeta crânios os torna pequeninos / Desinteria esvazia ao mesmo tempo todos os intestinos / Enfermeira mostra cartão Está faltando Enterostrep / Precisa de suspensão ou então Chlorostrep
Campos de refugiados clínica improvisada / Recém-nascido no colo da mãe escaveirada / O outro tem uma semana nem parece gente não / Vai morrer de Reumatismo Gastrenterite Intoxicação
Setembro em Jessore Num jinriquixá / 50.000 almas num dos campos eu vi lá / Cabanas de bambu totalmente inundadas / Esgoto a céu aberto famílias esfomeadas
Os caminhões com a comida estão ilhados com a enchente, / Angélica máquina americana vem correndo que é urgente! / O embaixador Bunker estará muito ocupado? / Vendo criancinhas metralhadas por soldados?

"Irak" 2004 - foto: Karim Ben Khelifa

"Irak" 2003 - foto: Karim Ben Khelifa

"Irak" 2005 - foto: Chris Hondros

Os helicópteros da USAID por onde andarão? / Traficando heroína lá nas matas do Sião. / E nossa Força Aérea gloriosa, onde andará a voar? / Nos céus do norte do Laos, soltando bombas sem parar?
Onde o Exército de Ouro de nosso grande Presidente? / Onde a Marinha bilionária piedosa e Valente? / Nos trazemos remédios agasalho alimento? / Lançando sobre o Vietnã Napalm e mais sofrimento?
Onde as nossas lágrimas? Quem chora por tanta maldade? / Pra onde irão todas essas familias na tempestade? / Em Jessore as crianças fecham os olhos a pensar: / Quando Nosso Pai morrer onde é que vamos morar?
A quem iremos rezar pedindo carinho e comida? / Quem vai trazer pão pra esta casa inundada e fedida? / Milhões de crianças na chuva sem amor! / Milhões de crianças chorando de dor!

"Vietnã" 1968 - foto: Philip Jones Griffiths

"Vietnã" 1968 - foto: Don McCullin

Ó línguas do mundo denunciai esta dor que não vemos / Ó vozes do mundo clamai pelo Amor que não sabemos / Ó sinos de dor elétrica, dobrai com insistência / Despertai na mente da América ó sinos a conciência
Quantas seremos nós pobres crianças perdidas? / De quem são filhas estas que vemos perderem suas vidas? / Que valem nossas almas se não mais nos importarmos? / Cantemos canções & choremos se ousamos -
Chora no chão do lado da casa onde o esgoto é derramado / Dorme dentro dos canos largados no campo enlameado / espera ao lado do poço. Maldito seja este mundo / onde bebés passam fome deitados num catre imundo!
Foi isso que no passado a mim mesmo causei? / Que hei de fazer? ao Poeta Sunil perguntei. / Não lhes dar nenhum dinheiro e então seguir em frente? / Ao prazer de minha carne devo tornar-me indiferente?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Zuid-Chinese-Zee" 1971 - foto: Philip Jones Griffiths

"Oorlof Op de Stille Oceaan" 1944 - foto: W.Eugene Smith

"Ku Klux Klan" 1955 - foto: W.Eugene Smith

De nossas cidades e carros devemos nos esquecer? / Com nosso dinheiro em Marte o que poderemos fazer? / Quantos milhões em Nova Iorque neste exato momento / estão jantando satisfeitos um bom leitão suculento?
Quantos milhões de latas de cerveja são jogadas / nos Oceanos da Mãe? Quanto custa a Mãe aviltada? / Charuto sonhos de asfalto automóvel e gasolina / Poluindo o ar e escondendo as estrelas pequeninas -
Com um suspiro termina tua guerra interior / Com teu olho verte lágrimas e sente-lhes o sabor / Tem pena desses milhões que na TV planetária / tu vês iguais a fantasmas morrendo de fome em Samsara
Quantos milhões de crianças ainda hão de morrer nesse horror / antes que as Boas Mães percebam o Grande Senhor? / Quantos bons pais com seus impostos hão de sustentar / Exércitos que matam criancinhas sem parar?

"Yasser Arafat - Ramallah, Palestina 2002 - foto: Bruno Stevens

"Muzaffarabad, Kasjmir 2005 - foto: Bruno Stevens

"Guinee Bissau" - foto: Ami Vitale

Quantas almas caminhar na dor na ilusão / Quantos bebés na chuva na solidão? / Quantas familias perdidas desamparadas? / Quantas avós sofridas desesperadas?
Quantos amores a quem falta pão? / Quantas Tias baleadas no chão? / Quantas irmãs com crânios esmagados? / Quantos avôs para sempre calados?
Quantos pais sofridos / Quantos filhos perdidos? / Quantas filhas sem nada pra comer? / Quantos tíos com os pés a doer?
Milhões de bebés no sofrimento / Milhões de mães ao relento / Milhões de irmãs sofridas / Milhões de crianças perdidas. / ALLEN GINSBERG - novembro de 1971 Tradução de Paulo Henriques Brito

"Irak" 2004 - foto: Paolo Woods

HIERONYMUS BOCH / A Caricatura na Pintura

"A Paixão de Cristo" - óleo sobre tela

HIERONYMUS BOCH - Flandes 1450 - 1516 / Pseudónimo de Jeroen van Aeken. Pintor e gravador. Mostrou nas suas pinturas, o obscurantismo religioso que permeaba a sociedade medieval na Europa dos séculos XV e XVI, utilizando figuras simbólicas e caricaturais para julgar os valores impostos pela Inquisição, em disparatadas cenas de "pecado" e "tentação". Recebeu influência de Matthias Grunewald e Albrecht Dürer, sendo considerado precursor do Surrealismo e o Expressionismo. Na Espanha é também conhecido como "El Bosco". Boch pertenceu a uma das muitas seitas que na época se dedicavam as ciências ocultas, adquirindo conhecimentos sobre os sonhos e a alquimia, se dedicando profundamente a ésta ultima. Por essa ração e pelo tom crítico das suas imagens, foi perseguido pela Inquisição. Sua obra sofreu influência dos rumores do "Apocalipse", que surgiram perto de 1500, expressos na sua tela "O Juizo Final" ou (O Triunfo da Morte). Desenhista minucioso e eximio colorista, utilizou estes dotes para criar composições onde reina o "diabolismo", apresentando em tom satírico e moralizante, os vicios e temores de ordem religiosa que afligiam o homem medieval. No quadro "Paixão de Cristo", a figura humanizada de Jesús, contrasta com as faces animalescas dos seus captores e carrascos, representantes do poder estabelecido. Boch é considerado o primeiro artista fantástico da História da Arte. Obras: "O Jardim das Delicias" / "O Juizo Final" / "As Tentações de santo Antonio" "Os Sete Pecados Capitais" / "A Nau dos Insensatos" e "A Morte e o Avarento"

Paixão I - detalhe

Paixão II - detalhe

Paixão III - detalhe

AZAZEL - IRA

Paixão IV - detalhe

ASMODEUS - LUXÚRIA

Paixão V - detalhe

Paixao VI - detalhe

BELPHEGOR - PREGUIÇA

Paixão VII - detalhe

Paixão VIII - detalhe

BELZEBU - GULA

Paixão IX - detalhe

MAMMON - GANÃNCIA

Paixão X - detalhe

LEVIATÃ - INVEJA

Paixão XI - detalhe

LUCIFER - ORGULHO

Paixão XII - detalhe

segunda-feira, 14 de junho de 2010

ROBERTO BROULLON Desenhos "Poetar é questionar"

Broullon no seu estudio

ROBERTO BROULLON - Argentina 1932 / pintor, desenhista e poeta. Faz parte de uma geração, que, tendo passado pelos ateliers dos mestres do realismo social argentino, pelo rigor quase "renascentista" dos seus ensinamentos, foi influenciada pela linha que o Expressionismo adotou em Buenos Aires no inicio dos anos 60, chamada de "Nova Figuração". Mesmo utilizando os comentários filosóficos e políticos carateristicos da figuração argentina, Broullon trabalhou, desde o inicio, a forma de maneira experimental, rompendo moldes e chegando ao abstracionismo. Nestes desenhos, que lembram os trabalhos dos integrantes do grupo holandés "Cobra", não descarta o humor "caricato", tradicional no Expressionismo. Entre 2000 e 2004 fundou e publica o boletim de arte "La Boca del Caballo" É casado com a poeta francesa Danielle Camus, com quem tem realizado trabalhos de poesia coletivos. Mora e trabalha em Buenos Aires.

"los ojos del pintor Roberto Broullon!" - foto: Horacio Clemente

comentários - nanquim sobre papel