segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

OS POETAS / Lawrence Ferlinghetti / USA / 'SAUDAÇÃO'

Trimano - Série "Diário" - nanquim 2004-08

A cada animal que abate ou come sua própria espécie / E cada caçador com rifles montados em camionetas / E cada miliciano ou atirador particular / com mira telescópica / E cada capataz sulista de botas com seus cães / & espingardas de cano serrado / E cada policial guardião da paz com seus cães / treinados para rastrear & matar / E cada tira a paisana ou agente secreto / com seu coldre oculto cheio de morte / E cada funcionário público que dispara contra o público / ou que alveja-para-matar criminosos em fuga / E cada Guarda Civil em qualquer país que guarda os civis / com algemas & carabinas / E cada guarda-fronteiras em tanto faz qual posto de barreiras / em tanto faz qual lado de qual Muro de Berlim / cortina de Bambu ou de Tortilha / E cada soldado de elite patrulheiro rodoviário em calças de / equitação sob medida & capacete protetor / de plástico & revólver em coldre ornado / de prata / E cada radiopatrulha com armas antimotim & sirenes e cada tanque / antimotim com cassetetes & gás lacrimogênio

Trimano - Série "Diário" - nanquim 2004/08

E cada piloto de avião com foguetes & napalm sob as asas / E cada capelão que abençoa bombardeiros que decolam / E qualquer Departamento de Estado de qualquer superestado que vende / armas aos dois lados / E cada Nacionalista em tanto faz que Nação em tanto faz / qual mundo Preto Pardo ou Branco / que mata por sua Nação / E cada profeta com arma de fogo ou branca e quem quer que reforce / as luzes do espírito á força ou reforce o poder / de qualquer estado com mais Poder / E a qualquer um e a todos que matam & matam & matam & matam / pela Paz / Eu ergo meu dedo médio / na única saudação apropriada Prisão de Santa Rita, 1968

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

OS POETAS / Carlos Drummond de Andrade / Brasil 1902-1987
CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO / Carlos Drummond de Andrade / "Nova Reunião" - Antologia Poética / Editora José Olimpio 1985

Trimano - Série "Diário" - nanquim 2007-08

Provisoriamente não cantaremos o amor.
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os braços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas
MASSACRE / Carlos Drummond de Andrade / "Nova Reunião" / Antologia Poética / Editora José olimpio 1985

Trimano - Série "Diário" - nanquim 2007-08

Eram mil a atacar

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

o só objeto
indefensável
e pá e pé e ui
e vupi e rrr
e o riso passarola no ar
grasnando
e mil a espiar
os alfabetos purpúreos
desatando-se
sem rota
e llmn e nss e yn
eram mil a sentir
que a vida refugia
do ato de viver
e agora circulava
sobre toda ruína
A BOMBA / Carlos Drummond de Andrade / "Nova Reunião" / Antologia Poética / Editora José Olimpio - 1985

Trimano / Série "Diário" - nanquim 2007-08

A bomba / é uma flor de pánico apavorando os agricultores
A bomba / é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba / é miséria confederando milhões de misérias
A bomba / é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba / é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba / dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba / não tem preço não tem lunar não tem domicílio
A bomba / amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba / não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba / mente e sorri sem dente
A bomba / vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba / é redonda que nem mesa redonda. e quadrada

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A bomba / tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba / furtou e corrompeu elementos da natureza e mais furtara e corrompera
A bomba / multiplica-se em ações ao portador e em portadores sem ação
A bomba / chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba / faz week-end na Semana Santa
A bomba / brinca bem brincado o carnaval
A bomba / tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba / industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários
A bomba / sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia
A bomba / não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba / envenena as crianças antes que comecem a nascer
A bomba / continua a envenená-las no curso da vida
A bomba / respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba / pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba / é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba / é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba / tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além de comparsaria
A bomba / tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba / não admite que ninguém a acorde sem motivo grave
A bomba / quer manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba / mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba / dobra todas as linguas à sua turva sintaxe
A bomba / saboreia a morte com marshmallow
A bomba / arrota impostura e prosopopéia política
A bomba / cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba / é podre
A bomba / gostaría de ter remorso para justificar-se, mas isso lhe é vedado
A bomba / pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba / declara-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba / tem um clube fechadíssimo
A bomba / pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba / é russuramericanenglich mas agradam-lhe eflúvios de París
A bomba / oferece na bandeja de urânio puro, a titulo de bonificação, átomos de paz
A bomba / não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba / desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas
A bomba / não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de cáncer
A bomba / é cáncer
A bomba / vai à lua, assovia e volta
A bomba / reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia
A bomba / está abusando da glória de ser bomba
A bomba / não se sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável
A Bomba / fede
A bomba / é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba / com ser uma besta confusa / da tempo ao homem para que se salve
A bomba / não destruirá a vida
O homem (tenho esperança) liquidará a bomba